OPINIÃO - QUANDO A MEMÓRIA ESTA SOB AMEAÇA: PATRIMÓNIO EM TEMPOS DE GUERRA E DE EVENTOS EXTREMOS
2025-06-21 21:06:18

DIRETORA DO DEPARTAMENTO DE TURISMO, PATRIMÓNIO E CULTURA Da UNIVERSIDADE PORTUCALENSE ste ano, O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios foi dedicado ao tema Património Resiliente Face às Catástrofes e Conflitos, que merece a maior atenção face ao panorama internacional contextualizado em clima de guerra e em ambiente de eventos extremos e catástrofes naturais cada vez mais frequentes nas notícias diárias. Neste contexto, o património assume a sua fragilidade e a sua insegurança face a ações que surgem incontrolaveis. Há que olhar o património cultural como testemunhos silenciosos de enorme resiliência a ações externas e a riscos extremos e assegurar a sua continua existência. Impõem-se preservar a memória como valor de identidade e como garante da conexão do futuro ao passado. Não temos o direito de permitir a destruição de algo que gerações e gerações protegeram durante largas centenas ou milhares de anos. Não é admissível que o património, algo que identifica as singularidades e a diversidade cultural das sociedades, dos lugares, das regiões e dos países seja devastado deliberadamente e seja entendido pelo avanço militar como alvo a abater pelo seu valor de identidade, pelo simbolismo ou importância histórica que congrega em si. A destruição é, inúmeras vezes, vista como um sinal de força de adversários que assinalam alvos específicos para serem abatidos de forma a provocar o tão desejado impacto nacional ou internacional. Temos o dever de proteger o património com centenas ou milhares de anos que chega até nós de forma, por vezes, intacta, com relevantes e marcantes leituras históricas. ê fundamental criar sistemas mais eficientes de proteção e de recuperação do património agredido. As Convenções de proteção do património como a Convenção de Haia (1954), a Convenção para a Proteção do Património Mundial (1972) ou a Convenção sobre a Proteção do Património Cultural Subaquático (2001), entre muitas outras, não são suficientes para efetivar a tão esperada proteção. A mais recente guerra na Ucrânia, entre outras guerras de impacto que marcaram os nossos tempos, já o demonstraram pela ampla destruição, sem respeito por valores patrimoniais para a Humanidade. ê importante prevenir e ajustar medidas adequadas em tempos de paz de forma a preparar os tempos de conflito que não medem consequências, ou que utilizam o património para concretizar objetivos muito concretos de destruição da memória do outro. ê preciso treinar militares, agentes da proteção civil e as diversas comunidades locais para que colaborem em equipas munidas de conhecimento de forma a responder aos danos infligidos no património, oferecendo suporte, assistência, evitando predação e assalto que ocorre de forma muito comum em casos de conflito ou de desastre natural. Neste contexto, é necessário desenvolver uma política concertada que penalize severamente o vandalismo e tráfico ilícito e que crie condições de vigilância e de segurança que os previna. ê necessário fazer planos de prevenção e de proteção, em larga escala, em instituições públicas e privadas detentoras e guardiãs do património de forma a proteger ou evacuar os bens culturais em caso de emergência. Guerras, cheias, terramotos, incêndios, tornados, seca extrema, chuvas continuas, entre outros eventos, sublinham a importância de iniciativas de conservação e da formulação de planos de ação para proteger o património cultural em risco e em áreas vulneráveis. Em particular, adotar medidas preventivas com base na identificação dos principais riscos e vulnerabilidades que dependem da tipologia dons bens a proteger e dos diversos locais onde estão integrados. Neste contexto, é fundamental estabelecer redes de locais seguros para proteger os bens culturais em risco, implementar estratégias para proteger o património e garantir que edifícios históricos e outros bens imóveis e móveis estejam em ambientes que Ihes permitam resistir a eventos extremos. Simultaneamente, a digitalização dos bens culturais, o seu inventário e mapeamento são fundamentais como forma de preservação da memória ou como meio para suportar restauros em caso de dano. ê primordial estudar o património seja o material ou o imaterial, para conhecermos, valorizarmos e só assim salvaguardar ou reconstruir em caso de dano. Infelizmente, o trabalho na área do património e da História é hoje muitíssimo diminuto para as inúmeras necessidades decorrentes de riscos avassaladores a que os tempos de hoje nos têm avançado. A guerra é exterminadora, as catástrofes naturais persistentes e extremas, o vandalismo ou tráfico ilícito uma realidade, difícil de sinalizar e de conter. ê importante que a academia, os organismos da cultura, os organismos de defesa e de proteção colaborem mais ativamente, mais eficazmente e mais cooperativamente no uso de metodologias e de ferramentas tecnológicas essenciais para proteger o que mais nos identifica e dá valor. A construção conjunta de informação partilhada, o entendimento e a cooperação não são fáceis de alcançar, mas serão imprescindíveis para o tão necessário trabalho conjunto. Em contexto global é cada vez mais complexo assegurar a salvaguarda do património, pelo que exige esforços internacionais conjuntos, fiáveis e incontornáveis. Será difícil, mas desistir não é solução. Nota O Publituris manteve a grafia original do artigo ISABEL VAZ DE FREITAS