"ENTRAMOS NUM NOVO CICLO EM QUE CADA DOENTE RECEBE O FÁRMACO CERTO, À PRIMEIRA, GUIADO PELA CONVERGÊNCIA ENTRE IA E GENÓMICA"
2025-06-23 21:05:29

Em vez de um modelo que se adapta a todas as situações, a Medana procura uma abordagem personalizada e baseada no risco individual. A empresa fundada pela israelita Tal Patalon fixou a atividade em Portugal e já tem processos em curso para testes da plataforma. A saúde é uma das áreas onde a aplicação da tecnologia de inteligência Artificial oferece mais potencial e não faltam casos onde já se demonstrou a capacidade de apoio ao diagnóstico e identificação de padrões para previsão e prevenção de riscos. É nesta área que a Medana está a trabalhar, com uma plataforma agnóstica que é capaz de harmonizar fontes de dados díspares e permitir que algoritmos de IA operem sem barreiras entre instituições, com implementação em hospitais, seguradoras de saúde e empresas farmacêuticas de grande escala. Tal Patalon, fundadora e CEO da empresa, explicou na conferência AWS GenAI for Health Summit, na Fundação Champalimaud, a visão que passa por substituir a lógica de uma "abordagem única" por uma mais personalizada e baseada nos riscos individuais. "Entramos num novo ciclo em que cada doente recebe o fármaco certo, à primeira, guiado pela convergência entre IA e genómica", destaca. debate AWS GenAI for Health Summit" data-title="debate AWS GenAI for Health Summit - "Entramos num novo ciclo em que cada doente recebe o fármaco certo, à primeira, guiado pela convergência entre IA e genómica" - Tek Notícias" debate AWS GenAI for Health Summit A fundadora da Medana é de origem israelita mas escolheu Portugal para fixar a sede da empresa e está a alargar a equipa. Recentemente foi distinguida com o STEP Seal, atribuído pela Comissão Europeia, no âmbito do programa Horizon Europe - European Innovation Council Accelerator 2025. "O foco inicial da Medana está nas doenças crónicas, onde modelos preditivos podem reduzir significativamente a progressão e as complicações através da deteção precoce e de intervenções baseadas em risco", explicou Tal Patalon ao TEK. A empresa já integra registos clínicos eletrónicos (EHRs) com perfis genéticos para gerar scores de risco individualizados, combinando scores poligénicos e a identificação de mutações monogénicas, e desta forma pode antecipar intervenções médicas com maior precisão. Mesmo assim a CEO reconhece que ainda há obstáculos a ultrapassar. "A plataforma está já a ser aplicada em diabetes e doenças cardiovasculares, onde os insights preditivos ajudam a identificar doentes de alto risco e a apoiar decisões clínicas atempadas", refere Tal Patalon. Em paralelo, a Medana está a desenvolver e validar modelos para outras patologias de elevada incidência, como doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), doenças neurodegenerativas, asma, cancro e saúde mental. Estas doenças representam mais de 70% das mortes em todo o mundo e são especialmente beneficiadas por cuidados personalizados e atempados com recurso à IA, e a CEO da Medãna diz que a empresa está bem posicionado para abordar, a médio prazo, doenças infeciosas e situações agudas. Poderá detetar precocemente surtos infecciosos permitir estratégias de contenção, mas também melhorando a triagem, o alerta precoce e o apoio à decisão em contexto de urgência. "Estas áreas representam a nova fronteira da saúde preditiva baseada em IA", sublinha. Qualidade e estruturação de dados Ao TEK, Tal Patalon admite que um dos maiores bloqueios para o desenvolvimento da tecnologia na saúde e a utilização da Inteligência Artificial sempre foi a desconexão entre os dados e o seu contexto clínico. "A maioria dos sistemas trabalha com inputs crus (diagnósticos, análises, prescrições) sem interpretar o percurso clínico do doente ou o significado por trás dos dados", justifica a CEO da Medãna. A empresa resolveu este problema com uma abordagem baseada em trajetórias clínicas, que considera não só o que foi registado, mas quando, em que ordem, e o que isso implica sobre risco futuro e deterioração clínica. Ainda assim há um grande desafio da qualidade e estruturação dos dados, tal como a granularidade e o facto dos modelos tradicionais serem baseados em imagens estáticas ou datasets curados. A tecnologia está a dar uma ajuda com a utilização do processamento de Linguagem Natural (PLN) para extrair informação de texto livre e conectores de interoperabilidade que ligam dados fragmentados, assim como a utilização de vocabulários padronizados (SNOMED CT, LOINC, ICD-10) para uniformização. A investigadora diz que para ultrapassar a tradicional opção monolítica e opaca "a Medana seguiu outro caminho: criou uma arquitetura de IA modular, explicável e orientada para a ação. Isto significa que os modelos não apenas assinalam riscos, explicam o porquê e propõem caminhos clínicos viáveis de intervenção, como a identificação precoce de casos subdiagnosticados, prevenção de complicações, etc". Para já a Medana está em fase de integração real num sistema de saúde com 3 milhões de utentes, e Tal Patalon diz que "há já processos em curso com instituições do sistema de saúde português". "A plataforma desenvolveu e validou algoritmos para previsão e deteção de diabetes, permitindo a identificação precoce de doentes em risco elevado ou não diagnosticados. Este primeiro piloto está a ser estendido a outras doenças crónicas: doenças cardiovasculares, cancro, DPOC, doenças neurodegenerativas, entre outras, e está a ser testado com hospitais e seguradoras, para apoiar a estratificação de risco populacional e melhorar a entrega de cuidados", refere. Portugal como base de operações e "lar simbólico" A escolha de Portugal para base da Medana não foi um acaso e a CEO da empresa explica que tem raízes portuguesas e uma ligação emocional ao país, mas destaca outros pontos fortes. "Portugal foi uma escolha natural e estratégica para a Medana. Enquanto país membro da União Europeia, garante acesso direto ao mercado europeu e internacional, sendo um ponto de partida ideal para escalar soluções de saúde além-fronteiras", refere. Adicionalmente, o reconhecimento como hub tecnológico, com um ecossistema de startups, incentivos estatais e um forte apoio público-privado à inovação em saúde digital e inteligência artificial, foram fatores que pesaram na decisão. "O ambiente de negócios é acolhedor e mais acessível do que noutros países da Europa Ocidental, permitindo crescimento sustentável e desenvolvimento ágil", adianta ainda, sublinhando igualmente a "força de trabalho altamente qualificada nas áreas críticas para a Medana - engenharia, IA e ciências da vida - apoiada por universidades de excelência e um ambiente de inovação colaborativa". É também o plano pessoal que contribui para esta ligação. "Portugal não é apenas uma base, é o lar simbólico da missão da Medana: transformar dados de saúde em inteligência prática para doentes, médicos e sistemas", refere na entrevista, dizendo que a ligação emocional ao país moldou os seus valores e a visão para a empresa, reforçando o compromisso com instituições nacionais e com a transformação do ecossistema de saúde português. Partilhar Partilhar Partilhar Partilhar Partilhar Comentários Entre com a sua conta do Facebook ou registe-se para ver e comentar Fátima Caçador