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NUNO OLIVEIRA EM ENTREVISTA - CENTRO HÍPICO DA QUINTA DA BOA VISTA DÁ O EXEMPLO E JÁ TEM 140 ALUNOS

Vida Ribatejana

2025-06-30 21:05:32

Vocacionado sobretudo para o ensino/iniciação da equitação, o Centro Hípico da Quinta da Boa Vista tem um leque de actividades bastante mais alargado e é um dos raros e bons exemplos de promoção do cavalo no concelho de Vila Franca de Xira. Idealizado a partir de 2012 por Célia e Nuno Oliveira, o complexo é fruto de algumas contingências da vida e tem sido construído passo a passo numa quinta de 4 hectares dos arredores da localidade dos Cotovios (União de Freguesias de Alhandra, SâO João dos Montes e Calhandriz). Hoje reúne já cerca de 140 alunos com idades que vão dos 6 aos 60 anos. e um caso de sucesso na região e tem planos para continuar a expandir a sua actividade. Em entrevista à Vida Ribatejana, Nuno Oliveira explica as origens e a evolução do projecto, admite que o cavalo volta a estar na moda, mas está preocupado com o futuro e com o crescente afastamento de muitos jovens das tradições e da vida do campo. Antigo forcado, Nuno Oliveira tem 48 anos e acredita no potencial da criação de uma associação dos centros equestres do concelho de Vila Franca e no desenvolvimento do Xira Equestre, mas está preocupado com a falta de formadores/treinadores de equitação e com a evolução do Colete Encarnado Vida Ribatejana Como e por que é que surge esta ligação do Nuno Oliveira ao mundo do cavalo? Nuno Oliveira-, A ligação nasce muito cedo, quando eu tinha os meus 16 anos e já queria comprar um cavalo. Mas, na altura, os meus pais não essa possibilidade. Sou natural desta Quinta da Boa Vista (arredores dos Cotovios). Sempre vivi aqui e desde muito cedo tive essa paixão pelos cavalos. A minha família por tradição não estava ligada aos cavalos. Isso nasceu comigo. Aos 17 anos já estava numa equipa de horse-ball, no Espinheiro (Santana da Carnota), onde comecei a ter o desembaraço com os cavalos. Mas teve que passar por alguma aprendizagem? Começou aos 1 7anos, foi aí no horseball. Eu ia aos treinos e integrei essa equipa. Depois ingressei nesse mesmo ano na vida militar. Aí tive que parar tudo, porque fui um militar a sério durante 4 anos. Depois, parou a vida militar e entrei na Ogma (Alverca), onde fiz mais 4 anos. Ao fim desses 4 anos deuse o atentado das Torres Gémeas , a aviação abanou um bocado, saímos uma série deles e, então, ingressei numa empresa ligado ao copo de segurança pessoal da polícia, onde fiz um curso de guarda-costas e estive interessado nessa vida durante ainda uns anos. Das plantas aromáticas ao centro hípico Até que em 2012 começa a ganhar forma esta ideia do centro hípico? Começou até em 2011, quando estávamos num processo dificil em Portugal, em que havia muitas insolvências. Foia insolvência da empresa onde trabalhava a minha mulher, a empresa onde eu estava tinha uma situação tremida. E, na altura, pensámos: temos a quinta, por que é que não se faz aqui qualquer coisa. Tentámos aproveitar o que tínhamos. Na altura fizemos um projecto de jovens agricultores para plantas aromáticas. E esse era o projecto que estava encaminhado. Fizemos ali um ano de estudo e de candidatura aos fundos europeus. Mas a crise foi tão profunda que fecharam a torneira para os jovens agricultores e as verbas foram canalizadas para a saúde e para outras coisas. Estávamos a aguardar esse valor (financiamento) para o investimento e sem ele não podíamos fazer nada. Tiveram que procurar altemativas? Mas já nessa altura tínhamos comprado o primeiro cavalo, o Zagalo. Porque precisávamos de dinheiro comecei a dar algumas aulas aos vizinhos aqui à volta. Enquanto estávamos a fazer os estudos do projecto de plantas aromáticas, o cavalo já nos dava para umas aulas e para ganhar algum dinheiro para o dia a dia. o nosso objectivo não era dar aulas, eram as plantas aromáticas. O cavalo era uma paixão que tinha e o conhecimento que tinha para ir dando umas aulas aos vizinhos. Entretanto, já tinha tantos vizinhos interessados que aquele cavalo já não chegava e precisávamos de outro. Fui até ao Ti Luís Valença e comprei outro cavalo. O segundo cavalo trouxe mais alunos e tivemos que comprar o terceiro. E assim nasceu a escola de equitação, sem querer e sem pensarmos muito nisso. Mas era o que havia. Até que a dada altura pensaram que teria que ser uma coisa mais organizada e estruturada? A dada altura, diz-me a minha mulher: calma, a vida está a levar-nos por um caminho e não é o das plantas aromáticas. Se calhar temos jeito para isto, cada vez temos mais alunos. Vamos lá pensar na nossa vida e mudar o rumo. Já vinha gente de muitos lados para as nossas aulas e começámos a ver que isto estava a ficar um bocadinho mais a sério e que precisávamos era de criar a empresa, de fazer formação e de estarmos certificados. Em 2012 foi o ano em que decorreu isto e, em 2013, abrimos a empresa e comecei a fazer os cursos todos de equitador e de treinador. Mas começaram, também, a perceber que o ensino da equitação era impor-tante, tinha procura, mas não chegava e que era preciso desenvolver outras vertentes no projecto? Uma das coisas que tínhamos já em mente era ter um parque com animais, que era uma parte em que aminha mulher tinha muito gosto. Foi nascendo o parque, que fomos criando também no papel. Criaram a quinta pedagógica, o parque de animais, desenvolveram o espaço para pequenos eventos e os campos de férias. A partir de um dado momento sentiram que as coisas estavam a correr bem e que tinham permas para andar e para crescer? Passadas as dificuldades dos primeiros três anos, em que não tínhamos férias e todo o dinheiro que fazíamos era aplicado em melhoramentos, a construir coisas, porque a construção nunca parou nestes anos todos. Financiamento só do outro lado da estrada! Alguma vez tiveram algum financiamento? Zero, zero. Porque não existe financiamento para este tipo de projectos rurais na ârea Metropolitana de Lisboa. Esta-mos no concelho de Vila Franca de Xira. Se estivéssemos no outro lado da estrada, no concelho de Arruda dos Vinhos, tínhamos fundos rurais. Mas no concelho de Vila Franca não temos. Aquilo que a gente ganhava era para aplicar no centro e foi assim que fomos crescendo, devagarinho, dentro das nossas possibilidades. A dada altura terão pensado que era preciso encontrar pessoas da vossa confiança com capacidade para esta actividade? Isto às vezes é um bocadinho assustador, porque a Quinta da Boa Vista é o Nuno e a Célia. Se o Nuno e a Célia morrem num acidente, isto acaba tudo. A única coisa que temos com vínculo são dois tratadores, depois temos é a equipa free-lancer que nos ajuda nos eventos grandes. No Dia da Criança tivemos 20 a trabalhar, mas são pessoas pagas ao dia e muitos deles até são alunos que gostam de colaborar. Os cursos de formação nesta área são muito poucos e não garantem bem o futuro a nível de professores de equitação e treinadores. Essa é uma questão que preocupa, haver falta de pessoas na área. Sentem, no entanto, que este éum projecto consolidado e com futuro garantido? Nunca nada é garantido. Mas o aumento da procura é muito positivo e para nós dá-nos o sentimento de que estamos no bom caminho e de que as pessoas gostam desta área e procuram esta área. Percurso de Nuno Oliveira 20 anos de forcado e tertúlia cheia de memórias A ligação ao campo levou, também, Nuno Oliveira para o mundo da tauromaquia. Foi forcado no Grupo de Vila Franca de Xira durante 4 anos, onde entre muitos outros conheceu Carlos Silva, o “Carlos do Sobral” que lançou recentemente a primeira edição do Xira Equestre. Depois mudou-se para o Grupo de Forcados do Redondo, onde permaneceu durante 16 anos. “Comecei nos forcados em 1998, tinha 21 anos. Já comecei tarde. Na altura havia muitos mais novos do que eu. Comecei em Vila Franca e, depois, fui para o Redondo”, recorda Nuno Oliveira que, minutos depois, nos conduziu até à sua tertúlia, um espaço acolhedor, recheado de memórias e de fotografias de amigos. Ali junta algumas das selas que já utilizou, cartazes e fotografias de bons momentos e de grupos de amigos, um pequeno espaço de homenagem a Ricardo Silva “Pitó” (forcado vítima de uma colhida em Arruda) e até algumas farpas que foi recolhendo, induindo uma farpa de velcro que trouxe dos Estados Unidos da América. Cavlos a solta Tertúlia criada por Nuno Oliveir. Ña aldeia da bicharada Fundamental para 0 ensino Pasto em liberdade dá tranquilidade aos cavalos O Centro Hípico da Quinta da Boa Vista tem, actualmente, 16 cavalos ejá precisa de mais. São animais preparados e treinados para o ensino, que têm que ser naturalmente dóceis e tranquilos. Nuno Oliveira acha que um dos factores fundamentais é proporcionar aos animais algumas horas de pasto em liberdade. A Quinta da Boa Vista tem 4 hectres e permite a sua divisão em parcelas, que são usadas progressivamente para pasto. Os cavalos estão nos estábulos, mas todas as manhãs são encaminhados para uma área de pasto, onde gozam a liberdade. No entender de Nuno Oliveira isso dá-lhes uma tranquilidade natural, que é, depois, fundamental no ensino. Alguns exóticos I1 Aldeia da Bicharada” com perto de 120 animais Pavões, quatis, porco-espinho africano, suricatas, são só algumas das muitas espécies que habitam no parque de animais (boa parte exóticos) criado no espaço da Quinta da Boa Vista. Vivem paredes-meias com animais mais característicos do nosso território, numa área extensa que é, também, um dos grandes atractivos da Quinta Pedagógica, que recebe regularmente visitas de grupos de escolas e instituições da região. A Quinta da Boa Vista tem, também, um reptilário e junta cerca de 120 animais das mais variadas proveniências. Jorge Talixa