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QUANDO A VAIDADE SE TORNA OBSESSIVA

Correio do Minho Online

2025-07-02 21:05:41

“A reputação de mil anos pode ser determinada pelo comportamento de uma única hora.” (Provérbio Japonês) Opresidente da Câmara Municipal de Braga escolheu precisamente o início do festival “30 Horas 30 Anos Grande Prémio de Literatura dst”, promovido pelo maior mecenas cultural do concelho e, simultaneamente, um dos maiores empregadores, o dstgroup, para fazer o balanço do primeiro semestre, das actividades artísticas no âmbito da Braga 25. Ao fazer coincidir a divulgação pública do balanço do primeiro semestre, período que, aliás, ainda nem se tinha completado, com o arranque do inédito festival da DST, o mínimo que se poderá dizer, sem ser minimamente ofensivo, é que a opção de Ricardo Rio foi extremamente desastrosa. Precisamente no excepcional momento em que uma instituição privada colocou à disposição da cidade uma programação contínua de mais de 30 horas, toda ela em regime de gratuitidade, a Câmara decidiu colocar-se em bicos de pés, quiçá tentando fazer sombra à excelente e diversificada oferta cultural que a DST proporcionou aos bracarenses. Ignoro, naturalmente, o que terá passado pela cabeça de Ricardo Rio ao fazer coincidir a sua operação de marketing, pessoal e político, com um festival em que ele próprio, enquanto presidente da Câmara e grande defensor da iniciativa privada, também na área da cultura, deveria colocar-se na linha da frente, no que concerne ao apoio e colaboração institucionais. No infindável campo das hipóteses, todas as conjecturas podem ter cabimento, mas a verdade é que, considerando as circunstâncias, esta atitude de Ricardo Rio não lembraria nem ao diabo, como sói dizer-se. Mesmo que se tenha sentido ferido no seu orgulho, ao constatar que uma entidade privada pode , e faz , mais pela cultura do que o responsável municipal pelo sector, ou seja, ele próprio, o presidente da Câmara não poderia reagir da forma como o fez. Percebo que o mandato se aproxima rapidamente do seu final, mas não é tolerável, no plano democrático, que um autarca que esteja de saída aproveite e, mais do que isso, crie condições que lhe permitam manter-se à frente dos holofotes. E tal postura torna-se particularmente mais grave quando se prioriza apenas o objectivo que se pretende alcançar, ignorando ou secundarizando os efeitos que tal atitude pode provocar a terceiros. Quero deixar claro que não está em causa a divulgação pública do conjunto de actividades já realizadas no âmbito da Braga 25. A autarquia, que este ano é Capital Portuguesa da Cultura, tem o direito e, mais do que isso, tem a obrigação de dar a conhecer, tão pormenorizadamente quanto possível, todos os dados e incidências relativos ao programa. Portanto, não é o balanço que está em causa, nem sequer o seu conteúdo, o qual, tanto quanto se sabe, ninguém colocou em dúvida. A questão de fundo prende-se tão somente com o momento escolhido para a conferência de Imprensa, em sobreposição e, portanto, em concorrência directa com o festival da DST. Se alguém tiver dúvidas quanto ao impacto do balanço nos media, balanço que poderia ter sido feito dois dias depois, bastará fazer uma análise comparativa das notícias sobre os dois eventos, publicadas nos jornais locais do dia seguinte, para verificar quem acabou por ser mediaticamente prejudicado. Registe-se, no entanto, que este lamentável incidente não beliscou minimamente a qualidade e diversidade do programa elaborado para celebrar o 30.º aniversário do Grande Prémio de Literatura DST. O ponto alto foi, como seria expectável, a habitual gala de entrega do prémio, no Teatro Circo, galardão que já constitui uma referência na literatura portuguesa, e que este ano distinguiu a obra "Visitar Amigos e outros contos", de Luísa Costa Gomes. Sem surpresa, na cerimónia os diferentes oradores foram justamente unânimes em reconhecer o sucesso da iniciativa, a sua relevância para a região, e não apenas do ponto de vista cultural, mas em diversos planos, não hesitando em congratular a DST e o seu líder, José Teixeira. Todos eles, desde o presidente do júri, José Manuel Mendes, ao presidente da Câmara, Ricardo Rio, passando pela galardoada, a escritora Luísa Costa Gomes, e pela Ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, manifestaram o seu enorme apreço pela contínua aposta cultural da DST, apontando-a como um bom exemplo a seguir por outras entidades privadas. A gala encerrou com um concerto de Mayra Andrade, que presenteou o público com uma revisitação intimista do seu reportório, assim encerrando um programa diversificado que partiu da literatura para praticamente todas as formas de expressão artística. Com efeito, nas 30 horas de programação houve de tudo. Sessões de meditação com arte, oficinas de cerâmica, momentos de poesia em cafés históricos, performances gastronómicas, encontros com autores, momentos musicais e de dança, clubes de leitura dançada e até festas com DJs, sem esquecer as artes plásticas com o seu auge na Zet Gallery, com a inauguração da exposição de pintura “Dias de Verão”, de Ana Vidigal. Em conclusão, pode dizer-se que a DST leva muito a sério a sua responsabilidade social, como também se comprova por mais este excelente serviço público que prestou aos bracarenses e não só. Jorge Cruz