ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS: AS BOAS E AS MÁS NOTÍCIAS
2025-07-04 21:06:07

De acordo com a Agência Internacional de Energia, a procura global anual de energia aumentou 2,2 % em 2024, mais rapidamente do que o aumento médio anual da procura de 1,3 % entre 2013 e 2023. A aceleração do crescimento da procura de energia foi liderada pelo setor energético, com o consumo global de eletricidade a aumentar 4,3 % em 2024, quase o dobro da média anual da última década. O valor record da temperatura média global da atmosfera à superfície em 2024, de 1,55 ± 0,13 °C acima do nível pré-industrial, contribuiu para o aumento da procura global de eletricidade nesse ano. Este aumento deu-se por meio do crescimento da refrigeração de edifícios e infraestruturas em muitos países, especialmente nos tropicais e subtropicais, bem como do aumento da procura na indústria, na eletrificação dos transportes e na procura de energia elétrica para assegurar o funcionamento dos centros de dados e o uso das criptomoedas e da inteligência artificial. As emissões globais de GEE provenientes do setor da energia aumentaram 0,8 % em 2024. Metade deste aumento é atribuído ao facto de 2024 ter sido o ano mais quente jamais registado. Entretanto, em 2022, os quatro maiores emissores de dióxido de carbono (CO2) no mundo foram a China, com 32,88 % do total das emissões, os EUA com 12,6 %, a Índia com 6,99 % e a União Europeia com 6,7 %. Note-se que a Índia ultrapassou recentemente a UE e enquanto esta tem uma tendência de decrescimento lento a Índia tem uma tendência de crescimento rápido. A ordenação entre os quatro maiores emissores é bem diferente quando se considera as emissões por pessoa (per capita). O país com maiores emissões de CO2 por pessoa é os EUA com 14,21 tCO2 (toneladas de CO2), seguido da UE com 10,7 tCO2, da China com 8,89 tCO2 e da Índia com 1,89 tCO2. No atual paradigma energético, só é possível atingir um Produto Interno Bruto (PIB) por pessoa elevado e, consequentemente, um ní- vel de bem-estar e prosperidade económica comparável à dos EUA, UE e China se houver um consumo de energia por pessoa comparável, ou seja, intensivo. O problema é que este consumo intensivo é, como sabemos, baseado atualmente em cerca de 80 % nos combustíveis fósseis. Para ter 66 % de probabilidade de não ultrapassar um aumento da temperatura média global da atmosfera à superfície de 1,5 °C acima dos valores pré-industriais (conforme recomendado pelo Acordo de Paris), é necessário atingir a neutralidade carbónica global em 2050. Para ter 66 % de probabilidade de ficar abaixo dos 2 °C, a neutralidade carbónica global deverá ser atingida em 2070. Quais as metas temporais de descarbonização que os quatro maiores emissores estabeleceram por meio das suas Contribuições Nacionalmente Determinadas exigidas pelo Acordo de Paris? EUA e UE 2050, China 2060 e Índia 2070. Será isso possível tendo em conta a mudança de orientação na política climática do novo governo dos EUA e o crescimento exponencial das emissões na Índia? E o resto do mundo? As boas notícias, de acordo com um estudo da Carbon Brief de 15 de maio deste ano, é que pela primeira vez, o crescimento da geração de energia descarbonizada na China diminuiu as emissões de CO2 do país, apesar do rápido crescimento da procura de energia. Análises recentes mostram que as emissões da China diminuíram 1,6 % em relação ao ano anterior no primeiro trimestre de 2025 e 1 % nos últimos 12 meses. O fornecimento de energia elétrica proveniente de novas capacidades eólicas, solares e nucleares foi suficiente para reduzir a geração de energia elétrica a partir do carvão. Este comportamento deu-se apesar de um aumento da procura, enquanto as quedas anteriores nas emissões foram causadas por quebras no crescimento económico. A análise, baseada em dados oficiais e comerciais, mostra que as emissões de CO2 da China estão estáveis ou em queda há mais de um ano. No entanto, continuam apenas 1 % abaixo do pico mais recente, o que implica que qualquer aumento a curto prazo poderá fazer com que atinjam um novo recorde. A outra notícia positiva é o crescimento da produção de energia descarbonizada ter ultrapassado o crescimento médio atual e a sua projeção a longo prazo da procura de energia elétrica, o que permite reduzir o uso de combustíveis fósseis. As emissões do setor energético caíram 2 % em relação ao ano anterior nos 12 meses até março de 2025. Se este padrão se mantiver, isso anunciaria um pico nas emissões seguido por um declínio sustentado nas emissões do setor energético da China. As perspetivas sobre a evolução das emissões de GEE da China dependem dos objetivos em matéria de energia descarbonizada que serão estabelecidos no próximo plano quinquenal, a ser publicado em 2026, bem como da resposta em termos de política económica à política comercial hostil da administração do atual Presidente dos EUA. A situação atual é promissora. A China é líder global em quase todos os principais aspetos da cadeia de abastecimento de energias renováveis, desde a capacidade de geração de energia renovável, à produção de veículos elétricos e baterias, até aos minerais críticos para a transição energética. Atualmente a China é o maior construtor e instalador de sistemas de energia eólica e solar do mundo. As energias renováveis repre-sentam 56 % da capacidade potencial instalada de geração de energia elétrica. Porém, a China tem uma capacidade potencial instalada de mais de 55 % da energia elétrica a partir do carvão. Em 2023, aprovou a construção de um número maior de novas centrais térmicas a carvão do que o resto do mundo. O carvão ainda é responsável por cerca de 60 % da eletricidade gerada na China. Note-se que a percentagem de uso da capacidade potencial do carvão é maior do que nas renováveis porque as centrais térmicas a carvão normalmente funcionam em permanência, enquanto a energia renovável solar e eólica é intermitente. Em contrapartida, no ano de 2024, instalou mais de 430 GW de energia solar, sendo mais de 99 % fotovoltaica, e 400 GW de energia eólica. Os investimentos em energia hidroelétrica e armazenamento de energia por bombagem hídrica também são avultados. A capacidade hidroelétrica total instalada da China atingiu aproximadamente 436 GW em dezembro de 2024, incluindo cerca de 377 GW de geração de energia hidroelétrica e o restante constituído por instalações de armazenamento de energia por bombeamento hídrico. A Central Hidroelétrica de armazenamento de energia por bombeamento de Fengning, na província de Hebei, a maior instalação deste tipo no mundo, com uma potência de 3,6 GW, entrou em operação em agosto de 2024. Simultaneamente, a China está a acelerar o processo de descarbonização de setores onde é mais difícil de reduzir as emissões GEE devido à elevada potência de consumo, como a produção de aço e cimento e a indústria química, por meio da eletrificação, do uso de hidrogénio verde e da captura de carbono, uma tecnologia que é essencial para atingir a neutralidade carbónica global. O desenvolvimento mais notável comparado com o resto do mundo é a China estar a caminho de se tornar o primeiro grande «eletroestado» do mundo, com uma taxa de eletrificação da economia, um dos principais pilares da transição energética, muito próxima de 30 %. Situa-se agora à frente da UE e dos EUA, onde o processo de eletrificação da economia estagnou em cerca de 22 % a partir do início da década de 2010. Na produção de baterias a China assegura mais de 75 % da fabricação global de baterias de ião lítio e dispõe de grandes empresas, tais como CATL, BYD e EVE Energy. No setor dos minerais críticos, incluindo o processamento, controla mais de 60 % da refinação global do lítio, mais de 70 % da refinação global do cobalto e 90 % do processamento das terras raras. A China é também o maior mercado e produtor mundial de veículos elétricos, tendo a BYD ultrapassado recentemente a Tesla em vendas globais de veículos elétricos. Entretanto, surpreendentemente, os EUA abandonaram a competição pela liderança da transição energética. Em 22 de maio de 2025, a Câmara de Representantes aprovou um projeto de lei orçamental com disposições que incluem o cancelamento ou a eliminação progressiva de quase tudo o que estava na Lei de Redução da Inflação do anterior governo dos EUA. Esta entrou em vigor em 16 de agosto de 2022 e foi concebida principalmente para acelerar a redução das emissões de GEE do país. Uma parte essencial da Lei foi criar um conjunto de créditos fiscais para incentivar as empresas ligadas ao setor das energias renováveis a investirem. Nos últimos três anos esses créditos geraram um investimento estimado em 862 milhares de milhões de dólares em energias renováveis. Muitas destas empresas aumentaram as suas despesas e criaram novos postos de trabalho. Curiosamente, a Lei da Redução da inflação ajudou a impulsionar o investimento e a criação de emprego em muitos estados republicanos, especialmente no fabrico de veículos elétricos e baterias deste a Geórgia ao Michigan. Porém, com a nova orçamental, que muito provavelmente será aprovada pelo presidente, este investimento está agora em risco, agravado pela incerteza gerada nas empresas sujeitas ao aumento das tarifas decidido pelo governo. A lei da Redução da Inflação insere-se no quadro do Green New Deal aprovado pelo anterior governo dos EUA, e inspirado no New Deal do presidente Franklin D. Roosevelt na década de 1930, com o objetivo de promover uma rápida transição energética e combater a desigualdade económica. Porém, os setores mais radicais do partido republicano consideram tratar-se de um Green New Scam que deve ser terminado. Esta viragem é, na realidade, um erro geoestratégico dos EUA no setor crítico da energia. Na China, a eletricidade de origem renovável é agora significativamente mais barata do que a proveniente de combustíveis fósseis. Isto significa que o ”boom” da energia renovável está a impulsionar a competitividade de toda a economia da China. Os republicanos parecem não perceber esta realidade. Em 13 de maio de 2025, Chip Roy, membro republicano pelo Texas na Câmara de Representantes, e pertencente à ala mais à direita, afirmou na Daily Caller News Foundation, um órgão de comunicação social conservador, que ”A Lei de Redução da Inflação, mais conhecida por Green New Scam, está a conceder subsídios ilimitados e avultados a empresas multimilionárias e a fabricantes chineses, em detrimento da liberdade dos EUA em termos de energia e domínio energético. Se os republicanos querem atingir o domínio energético dos EUA à escala mundial e apoiar a agenda energética do presidente, não temos outra escolha senão revogar total e imediatamente o Green New Scam”. Esperemos que a ala mais moderada do partido republicano impeça a rejeição completa da Lei de Redução da Inflação. Um processo de retroação (feedback) positiva está agora em funcionamento no sistema humanoclimático. Existe uma necessidade reconhecida de mitigar as alterações climáticas, mas esta ação climática está a tornar-se mais difícil de implementar porque o aquecimento global e, especialmente as ondas de calor, estão a aumentar a procura global de energia e as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) para a atmosfera. Professor Catedrático da Universidade de Lisboa NA ” CHINA, A ELETRICIDADE DE ORIGEM RENOVÁVEL É AGORA SIGNIFICATIVAMENTE MAIS BARATA DO QUE A PROVENIENTE DE COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS. ISTO SIGNIFICA QUE O ”BOOM” DA ENERGIA RENOVÁVEL ESTÁ A IMPULSIONAR A COMPETITIVIDADE DE TODA A ECONOMIA DA CHINA. Filipe Duarte Santos