MUSK QUER CRIAR O PARTIDO DA AMÉRICA : OS MOTIVOS EVOCADOS, O SISTEMA QUE ENFRENTA E A REAÇÃO DE TRUMP
2025-07-08 15:46:04

Depois de tensões com o Presidente americano e insatisfação com um novo pacote legislativo orçamental, o empresário Elon Musk anunciou que quer entrar novamente no plano político e que vai criar um novo partido. Seis perguntas e respostas para compreender o mais recente passo de Elon Musk O que motivou Musk? A criação de um novo partido representa o agravamento da rotura da aliança entre Donald Trump e Elon Musk, que aparenta ser motivada pela aprovação do pacote legislativo orçamental apelidado pelo Presidente de “Big Beautiful Bill” (“Grande e Bela Lei”, em tradução livre). Musk era altamente crítico da proposta, que chegou a considerar “abominável”. Antes de se desvincular da administração da Casa Branca em maio, onde atuou como conselheiro especial de Trump, o empresário já se mostrara dececionado com o projeto de lei, argumentando que aumentava o défice orçamental e prejudicava o trabalho da equipa do Departamento de Eficiência Governamental. Musk já tinha ameaçado criar um novo partido no final de junho. Na altura, escreveu na rede social X que “se este projeto de lei de gastos louco passar, o Partido da América será formado no dia seguinte”. Como foi feito o anúncio? A 5 de junho, Musk lançou uma pergunta aparentemente dirigida a quem não se sente representado pelos partidos Republicano e Democrata: “É altura de criar um novo partido político na América que verdadeiramente represente os 80% no centro?” Das mais de 5,6 milhões de contas que votaram - cuja autenticidade e nacionalidade não são conhecidas - 80,4% responderam afirmativamente. Cerca de um mês depois, voltou a lançar a proposta. A 4 de julho, o dia em que os Estados Unidos comemoram a independência, Elon Musk perguntou, através da rede social X (antigamente conhecido por Twitter), se as pessoas queriam independência do sistema bipartidário. “Devemos criar o Partido da América ?”, questionou. Os resultados da votação de mais de um milhão de contas indicaram que 65,4% eram a favor da ideia. “Por uma proporção de dois para um, vocês querem um novo partido político e tê-lo-ão!” Quando se trata de levar o nosso país à bancarrota com desperdício e corrupção, vivemos num sistema de partido único, não numa democracia. Hoje, o Partido da América é formado para vos devolver a liberdade”, publicou Elon Musk na rede social X, a 5 de julho. Grok, o robô de conversação desenvolvido pela empresa de inteligência artificial xAI, de Elon Musk, descreveu a criação de um novo partido como uma forma de “quebrar o monopólio dos dois partidos para promover escolha real e unidade” e “um murro no estômago da besta unipartidária inchada”. “Independência? É uma luta pela alma, suja e verdadeira”, pode ler-se numa publicação partilhada por Musk, que anunciara anteriormente “melhorias” no sistema de inteligência artificial. O partido já foi criado? A formação legal do partido, explicou a CNN internacional, requer que este seja registado junto da Comissão Federal de Eleições (FEC, na sigla em inglês). Na página eletrónica da FEC é possível encontrar dois documentos aparentemente associados ao registo do novo partido. Um deles relativo a “America Party (AMEP)” e outro a “The America Party (TAP)”. Ambos apresentam a mesma morada e o nome de Vaibhav Taneja, diretor financeiro da Tesla, como tesoureiro da organização. No entanto, Elon Musk referiu-se, na rede social X, à falsidade daquele registo, e que a denúncia já tinha sido feita à FEC. O Expresso questionou a FEC em relação a queixas sobre a autenticidade de documentos presentes na sua página online, que respondeu não poder fornecer informações referentes a queixas recebidas por motivos de confidencialidade. A entidade anunciou em 2016 um processo para lidar com submissões que podem conter informação falsa ou fictícia, através do qual os funcionários têm autorização para enviar cartas de verificação a quem submeteu os documentos. Que espaço existe para um novo partido? “Se ele conseguir de alguma forma quebrar a lógica bipartidária, que me parece difícil, para não dizer mais do que difícil, vai ser sempre uma coisa muito, muito estreita”, comentou ao Expresso Pedro Ponte e Sousa, professor na Universidade Portucalense. O académico descreve que o sistema político americano favorece a lógica bipartidária e “torna muito difícil que a longo prazo, venha a existir algo mais duradouro, alternativas ao que se chamam os terceiros partidos nos Estados Unidos”. Algo que considera mais óbvio ao nível das eleições presidenciais - às quais Elon Musk não se pode candidatar por não ter nascido nos EUA - mas que também observa nas eleições a nível estadual e federal. Já houve, na história americana, outros partidos a surgir além dos dois principais. Como, por exemplo, os partidos Reformista, Libertário, Socialista e Verde. “Na prática, o que acontece nesta lógica dos terceiros partidos ou dos independentes, é que se trata de antigos membros de um partido, seja republicano ou democrata, que por algum momento acabam por concorrer numa lógica mais individual, ou o inverso, de elementos que acabam depois por se associar a um partido”, explica Ponte e Sousa. Tendo em conta o funcionamento prático, o académico reconhece que “Musk tem alguma razão quando diz que o sistema político norte-americano representa pouco a realidade social norte-americana, no sentido em que acaba por reduzir muito o espaço, o leque para vozes muito diferentes”. Qual a estratégia de Musk? Os detalhes são escassos. Quando anunciou a formação de um novo partido, o empresário sugeriu que este poderá focar-se apenas em eleger dois a três senadores e oito a dez distritos da câmara dos representantes. “Tendo em conta as estreitas margens legislativas, seria suficiente para decidir o voto em legislação controversa, assegurando que servem a verdadeira vontade do povo”, apontou. Algumas indicações sobre a estratégia de Musk surgem em resposta a comentários de utilizadores da plataforma. O empresário atira para 2026 a intenção de mudar o panorama partidário atual, ano em que se realizam eleições intercalares e em que haveria discussão legislativa com os dois partidos. É também neste contexto que, quando questionado sobre se a plataforma do novo partido pretende “reduzir dívida, apenas gastos responsáveis; modernizar o exército com IA/robótica; pró-tecnologia, acelerar para vencer na IA, menos regulação especialmente em energia, liberdade de expressão, pró-natalista, políticas centristas em tudo o resto”, reage afirmativamente. No entanto, Musk ainda não apresentou um programa político. Pedro Ponte e Sousa entende que se Musk criar um partido pode dar-se “uma certa divisão à direita”, mas ressalva que, “pelo menos para já, os democratas também não têm sabido capitalizar nem encontrar um caminho para a oposição que pretendem fazer”. E observa que “há uma enorme influência das elites americanas sobre os democratas e sobre os republicanos”, mas também que “não vai ser o partido de Musk a fazer uma coisa diferente, muito pelo contrário”. Como reagiu Trump? O Presidente dos EUA, Donald Trump, classificou o lançamento de um terceiro partido como “ridículo”. “Estamos a ter um sucesso tremendo com o Partido Republicano”, afirmou. No domingo, Trump criticou a vontade expressa por Musk na rede social Truth Social. “Entristece-me ver Elon Musk descarrilar completamente, essencialmente a tornar-se um desastre ao longo das últimas cinco semanas. Até quer começar um terceiro partido político, apesar de nunca terem tido sucesso nos Estados Unidos - o sistema não parece estar desenhado para eles”, publicou. Donald Trump entende que terceiros partidos criam “disrupção e caos”, atribuindo a oposição de Elon Musk à “Grande e Bela Lei” a mudanças de políticas de incentivo a veículos elétricos. Salomé Fernandes Jornalista da secção internacional Salomé Fernandes