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MOTOR DIESEL PERDEU 13% E ELÉCTRICO GANHOU 52% POR ANO DESDE 2020

Público Online

2025-07-08 21:06:27

Tesla vende mais eléctricos num ano do que marcas europeias históricas desde que estão em Portugal. Só o segmento citadino está em perda face a 2020. Já o SUV quase duplica presença nas estradas. Nos últimos cinco anos, os portugueses abandonaram em força o motor a gasóleo no momento de comprarem um novo ligeiro de passageiros. O anuário estatístico da ACAP - Associação Automóvel de Portugal, divulgado esta terça-feira, permite avaliar a força desta mudança nos hábitos de consumo no mercado nacional. Outrora líder de mercado, o carro com motor Diesel sofreu, entre 2020 e 2024, uma queda anual de 13%. Em contraste, no mesmo período, a venda de carros 100% eléctricos aumentou, por ano, 52%. Estes números são a taxa de variação anualizada (calculada pelo PÚBLICO a partir dos dados da ACAP) das vendas, ou melhor, do número de matrículas novas registadas. Este indicador difere de uma média aritmética anual simples, porque minimiza efeitos de volatilidade (e houve muita, neste período), sendo preferível para análises de desempenho em prazos mais longos. Duas notas metodológicas antes de prosseguir: neste artigo realça-se o comportamento do mercado de ligeiros de passageiros, em detrimento de outros, por ser o maior e mais importante, com os carros desta categoria a representarem 84% das vendas anuais em Portugal; por outro lado, essa opção retira visibilidade a situações muito distintas, como o predomínio do motor Diesel nos ligeiros de mercadorias (o gasóleo representa 92% dos 32.304 ligeiros de mercadorias vendidos em 2024). Há 1,6 milhões de ligeiros de passageiros com mais de 20 anos de vida a circularem nas estradas, aos quais se juntam quase meio milhão de ligeiros de mercadorias Imagine-se duas fotografias do mercado nacional de ligeiros de passageiros, uma do ano de 2020 e outra de 2024. O que mudaria e o que continuaria igual? Começando pelo óbvio: na de 2024, há mais concorrentes, que chegaram nos últimos anos, sobretudo para disputarem a carteira dos que querem um carro 100% eléctrico. Também os carros cresceram de tamanho. Nos últimos cinco anos, a venda no segmento citadino tem sido de altos e baixos, chegando-se a 2024 com menos unidades vendidas num ano do que em 2020. Nos restantes segmentos (Utilitário, Compacto/Familiar Médio, Executivo/Familiar Grande, Superior e Luxo), foi o cenário contrário, com variações de 38% até 79% em 2024 face a 2020. E se o segmento C, dos compactos/familiares médios, era rei e senhor das preferências em 2020, na foto de 2024 cede essa posição ao segmento B, dos utilitários. Os segmentos B e C já representavam 80% das vendas em 2020 e assim continuou a ser em 2024, apenas com a troca de líderes já mencionada. Foram no entanto os segmentos D e E (Executivo/Familiar Grande e Superior, respectivamente) a registarem as maiores taxas de variação (79% e 70% respectivamente), quando se compara o mercado de 2020 com o de 2024. Domínio dos SUV Que a paisagem está povoada com mais carros de maiores dimensões fica também confirmado pela análise aos números dos subsegmentos. Há cinco anos, quem mandava eram as berlinas de cinco portas. Hoje, reinam os sport utility vehicles (SUV). Quanto ao combustível, o motor a gasóleo passou de segundo, com 32,8% de quota em 2020, para antepenúltimo nas preferências, com 8,8% em 2024 Registaram um crescimento impressionante, acompanhados de aumentos robustos também nos monovolumes e nos Sedan. Em sentido oposto, há descidas nas berlinas de três portas e nas carrinhas. Num mercado nacional que cresceu 44% (de 145.417 unidades em 2020 para 209.715 em 2024), o número de SUV 4x2 matriculados em 2024 está 82% acima do registado há cinco anos. Eram 43.850 em 2020, contra 79.610 em 2024. A variação foi muito maior nos SUV 4x4. Dos 6480 matriculados em 2020, Portugal passou para 19.126 em 2024. Um aumento de 195%. O advento do eléctrico Quanto ao combustível, o motor a gasóleo passou de segundo, com 32,8% de quota em 2020, para antepenúltimo nas preferências, com 8,8% em 2024. Já o motor eléctrico saltou de sexto ou sétimo a contar do fim (com 5,2% de quota em 2020), para o segundo lugar (com 19,9% de quota) em 2024. São mudanças telúricas, mesmo que fiquem aquém das aspirações dos Governos que tentam acelerar a descarbonização do transporte, com o abandono progressivo na União Europeia do motor de combustão interna até 2035. E a força desta viragem de direcção pode ser ilustrada por esta conclusão a partir dos mesmos dados: marcas europeias históricas que fizeram carreira e fama também pela sua engenharia de motores na era dos combustíveis fósseis, como a BMW, a Mercedes, a Volvo (hoje controlada por chineses), a Audi, a Porsche, venderam em 2024 mais carros 100% eléctricos do que a soma das unidades a gasóleo e gasolina Até a italiana Maserati (controlada pela Stellantis) vendeu quase tantos eléctricos (seis) como carros a gasolina (oito), ainda que o campeão das preferências tenha sido o híbrido convencional (sem ficha para tomada), com 19 unidades vendidas. Mesmo na Porsche, o motor a gasolina e o 100% eléctrico estão quase taco a taco. A Tesla é incontestavelmente a marca preferida dos portugueses no que toca aos eléctricos. Vendeu bem mais de 9000 unidades em cada um dos últimos dois anos. Marcas como Mercedes, Nissan, Peugeot ou Renault nem chegaram ou acabaram de chegar em 2024 aos 9000 eléctricos vendidos desde que estão presentes em Portugal. Por outras palavras, a Tesla (que se estreou em 2019, mas só em 2023 viu as vendas disparar) vende num só ano mais eléctricos do que cada uma das restantes marcas em solo nacional conseguiu vender desde que cá está. Peugeot vende mais, VW fabrica mais Na foto de 2024, a Peugeot é a líder de mercado, posição que tirou à Renault em 2021. Esta última, por sua vez, caiu do primeiro posto ao fim de duas décadas de domínio, sendo hoje a quarta marca mais vendida, atrás da Mercedes (segunda) e Dacia (terceira, pertencente ao mesmo grupo da Renault). Na grande foto de família, o Peugeot 2008 deixou de ser o carro mais vendido em 2024, cedendo esse estatuto ao Dacia Sandero. O Peugeot 2008 agarra-se no entanto ao segundo lugar, a boa distância do Tesla Model 3, na terceira posição. O anuário da ACAP fornece indicadores sobre o actual parque automóvel do país, mas também dá o retrato de Portugal enquanto produtor. Neste último aspecto, é um país dependente de uma marca (Volkswagen), de uma fábrica (a Volkswagen Autoeuropa, em Palmela) e da exportação (para onde vai 97,7% da produção nacional). A fábrica da Volkswagen no distrito de Setúbal foi responsável por 71% de toda a produção nacional (ligeiros e pesados), tendo registado um volume de negócios de 3800 milhões de euros. Fabricou 236 mil carros nesse ano, que encerrou com 4842 trabalhadores. A fábrica do grupo Stellantis, em Mangualde, assegurou 25% da produção nacional, para uma facturação de 973 milhões de euros. Produziu 86 mil viaturas em 2024, com 814 profissionais. No que toca ao parque automóvel, a ACAP calcula que no final do ano passado havia 5,97 milhões de ligeiros de passageiros a circularem no país, mais 1,2 milhões de ligeiros de mercadorias e ainda 170 mil pesados. No total, o parque automóvel é composto por 7,34 milhões de viaturas, a que acrescem ainda 259 mil ciclomotores, 484 mil motociclos e 38 mil quadriciclos ou triciclos. Apenas 15,2% dos ligeiros de passageiros têm até cinco anos de vida. A idade média (em 2023) ainda era das mais altas da Europa: 13,6 anos. Há 1,6 milhões de ligeiros de passageiros (27,2% do total deste tipo de viatura) com mais de 20 anos de vida a circularem nas estradas, aos quais se juntam quase meio milhão de ligeiros de mercadorias (38,5% do total, o que sugere que muitas empresas seguram os carros de serviço no transporte de mercadorias durante muito mais tempo), 47 mil pesados de mercadorias (33,1% do total), 25 mil motociclos (5,3%) e 4500 pesados de passageiros (23,6%). Outras conclusões a partir destes números: 60% dos ligeiros de passageiros têm dez anos ou mais. Entre ligeiros de mercadorias, são 75%. Sem surpresa, Renault, Peugeot e Volkswagen são as três marcas mais presentes no parque nacional de ligeiros de passageiros. Nos ligeiros de mercadorias, é a Renault, a Peugeot e a Citroën. Finalmente, em termos de densidade, Portugal tem 547 ligeiros de passageiros por mil habitantes, abaixo da média europeia de 563. É, no entanto, o segundo país com mais ligeiros de mercadorias por mil habitantes (127) no espaço da União Europeia (onde a média é 83). Só a Croácia suplanta Portugal, com 138 ligeiros de mercadorias por mil habitantes. tp.ocilbup@arierrefov Victor Ferreira