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“O POTENCIAL DE INTERNACIONALIZAÇÃO DO RETALHO PORTUGUÊS É GIGANTESCO”

Meios & Publicidade Online

2025-07-23 21:02:37

Na última entrevista enquanto diretor,geral da Google Portugal, antes de assumir a Secretaria de Estado da Digitalização, Bernardo Correia explica como a IA está a revolucionar o marketing e revela que internacionalizar as marcas portuguesas é a prioridade estratégica da empresa em Portugal A expansão do comércio eletrónico nacional é uma das prioridades da Google em Portugal. Em entrevista ao M&P a 3 de junho, a última concedida enquanto diretor-geral da Google, antes de tomar posse como secretário de Estado da Digitalização, a 6 de junho, Bernardo Correia alerta para o potencial de crescimento do setor. “Existe, dentro da indústria tradicional do marketing em Portugal, um certo desconhecimento da importância do comércio eletrónico e do quão relevante já é para o mercado nacional”, refere, salientando que a Google está a usar a inteligência artificial (IA) para simplificar o processo de decisão de compra e melhorar a produção de anúncios. Entre as novidades para os marketers anunciadas no evento Google Marketing Live 2025, quais são as mais revolucionárias? Estamos numa fase entusiasmante da história do marketing, porque está tudo a ser reinventado. Quando trabalhei nessa área, há duas décadas, era muito direcionado para o funil de compra. Hoje, os comportamentos dos consumidores são mais imprevisíveis. O processo de decisão de compra é mais complexo, o que exige uma adaptação. A Google definiu quatro grandes áreas de ação, centrando a análise na forma como os consumidores pesquisam, como fazem streaming, como compram e como fazem scrolling . Estamos focados em criar ferramentas que utilizem a IA para simplificar o processo de compra, como o AI Mode, lançado nos Estados Unidos. O que é que os marketers e os anunciantes pedem mais à Google? O pedido número um é mais vendas, mais retorno do investimento. O marketing online assenta muito no comércio eletrónico. O grande dilema, nos dias de hoje, é a medição. Os anunciantes pedem-nos para os ajudarmos a entender melhor o impacto da publicidade. Recentemente, a Google também anunciou muitas coisas em termos de conversões, mas, para medir a eficácia da publicidade, é preciso alimentar a IA com dados do próprio anunciante, construídos de uma forma que seja adequada à privacidade dos utilizadores finais. O que diferencia estas inovações da Google das da concorrência? Como a indústria está mais competitiva, estamos a usar a IA para criar ferramentas úteis para o marketing e a publicidade. Já temos as plataformas globais com maior alcance. O Google faz cinco triliões de pesquisas por ano. Em cima disso, estamos a criar oportunidades de automatização. Podemos fazê-lo porque temos procura, infraestrutura e capacidade de investimento. Qual é o próximo grande salto tecnológico em que a Google está a trabalhar que terá impacto na vida dos portugueses? É uma boa pergunta. Acho que há vários, mas, se tiver de escolher apenas um, diria que é a realidade expandida [ferramentas de realidade aumentada, realidade virtual imersiva e realidade mista], que volta a estar na ordem do dia. Foi durante anos um desafio em termos de hardware e de produtos, mas estamos a chegar a uma fase da tecnologia em que a IA vai ser mais ubíqua. Os smart glasses podem ser a próxima grande plataforma de inovação, tornando a computação mais útil e mais acessível. A curto prazo? Estamos a trabalhar em várias frentes. Anunciámos o mês passado novidades de realidade mista, realidade aumentada sobreposta à realidade. Posso, por exemplo, estar aqui a conversar consigo e a ver um vídeo do YouTube ao mesmo tempo. Isto implica, por exemplo, parcerias como a que temos com a Samsung, que também anunciámos o mês passado. Nos próximos anos, vai haver novos aparelhos a tirar partido da IA e a torná-la cada vez mais útil. Já se fala na questão dos óculos há anos. É desta que vão vingar? O Google Glass nunca se massificou por uma questão de hardware. Quando foram lançados, em 2014, eram pesados e a bateria durava pouco. E, se calhar, era demasiado cedo. Estamos a chegar à fase em que a miniaturização da tecnologia nos vai permitir trazer benefícios para o consumidor. Atingimos um ponto de maturidade em termos de hardware que vai tornar possível a generalização. Talvez ainda não estejamos lá a 100%, mas, a muito breve prazo, vai acontecer com os óculos o que aconteceu com os telemóveis quando se tornaram mais pequenos, leves e acessíveis. A mudança que a IA está a impulsionar No Google Marketing Live 2025, falou-se na IA, que não é nova, como uma plataforma nova. Em que é que ficamos? O assunto foi abordado pelos marketers depois do evento. À semelhança do que aconteceu aquando da transição dos computadores para os telemóveis, estamos numa altura em que podemos democratizar a IA como uma plataforma transversal que é universal a todos os aparelhos, incluindo os óculos. Temos em marcha uma linha e várias parcerias de desenvolvimento do Android XR, que é o sistema operativo para a realidade expandida, e, por isso, olhamos para a IA como uma nova plataforma e uma espécie de novo sistema operativo para a internet do futuro. Outra das coisas que anunciámos era um sonho muito antigo dos profissionais do marketing e da publicidade, porque conseguimos criar shoppable videos , a partir dos quais se pode efetuar uma compra, utilizando a televisão e o telemóvel. Já lançámos esse serviço no YouTube. Porquê essa aposta no vídeo? Porque é o formato mais adotado pela geração Z, ainda que a pesquisa através da imagem continue a assumir proporções épicas no Google. Este ano, já somamos mais de 100 mil milhões de pesquisas com o Google Lens. Entre 20% a 25% dessas pesquisas têm uma intenção comercial. Estamos agora a ver como é que criamos produtos para ligar a intenção de compra visual, de forma a mostrar o anúncio certo aos utilizadores que pesquisam por imagem, vídeo e voz. Isto era impossível com os funis de compra antigos. A aposta no agentic marketing vem nesse seguimento? Tentamos lançar produtos que reduzam o tédio, a parte mais burocrática e menos interessante do marketing. Estamos a fazê-lo com as sugestões do Asset Studio, na plataforma Google Ads, que sugere anúncios baseados nos que já lá tínhamos. Há aqui um equilíbrio entre o que é o poder de sugestão das máquinas e o do anunciante, que acaba por ter o controlo total das ferramentas de IA. De todas as inovações que anunciámos no Google Marketing Live 2025, é a minha favorita. Essa capacidade de previsibilidade funciona com que grau de fiabilidade? O que sabemos é que esta viagem só está a começar agora. Todas as inovações de que falámos foram anunciadas no final de maio, incluindo dois dos motores mais poderosos de sempre de criação de imagem e vídeo, o Imagen 4 e o Veo 3, que são neste momento o state of the art no que toca à criação de imagem e de vídeo e à criação de texto, voz e de efeitos especiais dentro dessas imagens e vídeos. Estamos numa fase de aprendizagem, mas a evoluir muito rapidamente. Estas ferramentas vão ser hiperpoderosas. Mesmo que sejam um bocadinho menos eficazes do que as criadas manualmente, a capacidade de serem geradas a muito baixo custo e em grande escala, e de serem utilizadas de uma forma personalizada, permite-lhes ter uma eficácia tremenda. Digitalização é prioridade Quais são os objetivos estratégicos da Google em Portugal? O primeiro é a responsabilidade de garantir que, em Portugal, ninguém fique para trás no processo de transformação digital. Para isso, apostamos em três grandes áreas, sendo uma delas as pessoas. Procuramos tornar a sociedade cada vez mais digitalizada e mais fluente na linguagem da IA, com programas como o Atelier Digital, que já formou mais de 130 mil pessoas. Temos também o Impulso AI, em parceria com a APDC, para dar certificações profissionais em IA a cerca de mil profissionais, sendo que 50% tinham de ser mulheres. E os restantes pilares? O segundo é ter mais produtos em português de Portugal. Além do Gemini, lançámos, em maio, o NotebookLM, a nossa ferramenta de produção de podcasts, uma das coisas mais espetaculares que alguma vez a Google lançou, que permite tornar qualquer documento numa conversa entre duas pessoas em português de Portugal, com muita qualidade. Investimos muito para respeitar e honrar a língua portuguesa e garantir que ela tem a projeção e o impacto certo. O terceiro pilar prende-se com a infraestrutura, procurando garantir que a tecnologia que está por trás disto também tenha uma componente portuguesa forte. Portugal tem uma nova centralidade no que toca aos investimentos em infraestruturas digitais na Europa e no mundo. Passam por cá dois sistemas de cabos submarinos da Google. Um deles, o Equiano, vai de Portugal até à África do Sul. Está, neste momento, em construção o primeiro cabo de alta velocidade entre a Península Ibérica e os Estados Unidos, que tem um ramal nos Açores. A chegada de Debbie Weinstein, com quem já tinha trabalhado em Londres, à liderança da Google em janeiro vem revolucionar a estratégia que estava em curso ou é uma aposta de continuidade? Conheço a Debbie há muitos anos, ainda antes de ela entrar para a Google. Foi vice-presidente de media na Unilever, onde comecei a minha carreira, quando eu já estava na Google, em Londres. Partilhamos um background comum. A estratégia é, com continuidade, mostrar que a Google não tem de ter medo de dizer que está na linha da frente no desenvolvimento de produtos com IA e que é a plataforma do mundo que mais utilizadores alcança. Mais de 83% das pessoas do planeta usam o Google ou o YouTube todos os dias. Temos de ter a coragem de dizer que as nossas plataformas entregam o melhor return on ad spend da indústria. As inovações que potenciam o negócio Há mais pessoas a fazer pesquisas através de chatbots de IA que não os vossos. Até que ponto é que isto é uma ameaça ao negócio publicitário do Google enquanto motor de busca? Este negócio está mais competitivo, o que nos dá mais vontade de inovar e de estar na linha da frente. O que verificamos é que, sempre que acrescentamos IA aos nossos produtos, aumenta o número de utilizadores, que são cada vez mais jovens. A geração dos 18 aos 24 anos pesquisa mais no Google do que qualquer outro grupo etário. Como é que a Google está a aplicar a IA em produtos que são diariamente usados pelos portugueses? A IA está por detrás de muitos dos produtos que usamos hoje, como o Google Maps. Há muitos anos que investimos e desenvolvemos produtos baseados em IA. O NotebookLM é outro exemplo. No marketing, há milhões. Se tivermos uma imagem de um produto em 4×3 e precisarmos de produzir um outdoor, temos uma tecnologia que preenche o espaço vazio. A máquina imagina tudo o que está à volta daquela imagem. Em Las Vegas, há muito pouco tempo, foi capaz de transformar o filme O Feiticeiro de Oz numa experiência imersiva, usando essa tecnologia. A IA generativa suscita preocupações éticas. Como é que a Google aborda o assunto? A ética aplicada à IA é algo com que nos preocupamos desde o primeiro dia. Um dos princípios básicos é que o ser humano tenha sempre o controle final. No contexto do marketing e da publicidade, existe a preocupação de que a produção de imagens e de vídeos possa ser utilizada para desinformação ou para a criação de imagens e vídeos falsos. Desde que lançámos um motor de produção de imagens ou de vídeo através de IA, tivemos a preocupação de criar uma tecnologia de marca de água, invisível aos olhos humanos, que permite fazer essa distinção. É uma ferramenta que qualquer pessoa pode usar. Chama-se SynthID, já foi lançada há muitos anos, mas só começou a ser mais divulgada o mês passado. Lá fora, o negócio de publicidade online da Amazon cresce e, nalguns países, começa a desafiar a Google. Em Portugal, já sentem essa ameaça? Mais do que discutir as plataformas dos concorrentes, o que sentimos é que o mercado português é grande o suficiente para todos e que tem um potencial de crescimento enorme. Se olharmos para o ecossistema nacional, o comércio eletrónico vale cerca de 12% do total de retalho. Se olharmos para a Inglaterra, estamos a falar de 30%. Há um espaço de crescimento gigante. Acreditamos que a IA aplicada ao marketing, com a escala e o impacto das nossas plataformas, vai continuar a garantir que continuamos na linha da frente para responder às ambições dos anunciantes. Quais são os maiores anunciantes da Google em Portugal? Os três principais são empresas tecnológicas, seguidas das do retalho, porque o potencial de internacionalização do retalho português é gigantesco. Incluo aqui os pure players , que não têm lojas físicas. Existem vários em Portugal com uma escala muito interessante. Em terceiro lugar, surge o turismo e a capacidade que temos, enquanto plataforma global, de comunicar com turistas pelo mundo fora, explicar a proposta de valor de Portugal e trazê-los para Portugal. Quanto é que o investimento publicitário na Google cresceu em 2024 em Portugal? Não revelamos números país a país. Posso apenas dizer que, como Portugal é um mercado com muitas oportunidades e com bastante internacionalização, temos estado a crescer acima da média global da Google. Existe um perfil de anunciante da Google em Portugal? Não, trabalhamos transversalmente com toda a indústria, apesar de o fazermos mais com anunciantes com capacidade de internacionalização. O comércio eletrónico tem um peso muito grande dentro da nossa atividade, porque oferecemos mais valor aos anunciantes. Existe, dentro da indústria tradicional do marketing em Portugal, um certo desconhecimento da importância do comércio eletrónico e do quão relevante já é para o mercado nacional. Muitos portugueses procuram soluções de comércio eletrónico fora do país, se as empresas em Portugal não as oferecerem. É muito fácil comprar em sites espanhóis, franceses ou alemães. O consumidor está à frente das marcas. É um grande desafio que temos em Portugal, trabalhar para acelerar o processo de transição digital que a IA veio impulsionar. O conselho número um que dou às marcas é que não tenham medo da IA. Devem é ter medo de outras empresas que utilizem a IA melhor do que elas. É a internacionalização que potencia as receitas da Google em Portugal? Sim, a maior parte do nosso revenue em termos de advertising vem da internacionalização dessas empresas, não vem do mercado doméstico. O volte-face nos cookies A Google voltou atrás na questão dos cookies , apesar de, segundo alguns estudos, 75% da indústria publicitária estar contra a medida. A decisão é definitiva? Desde 2019 que andávamos a testar a Privacy Sandbox, mas, como não há consenso em relação a uma nova plataforma que substitua os cookies , demos a escolha aos utilizadores finais, através do Chrome, de ter ou não ter third-party cookies . Enquanto não existir esse consenso no ecossistema digital, manteremos a estratégia atual. Porque é que a Google não prescinde dos cookies ? A responsabilidade não é só nossa. Há todo um ecossistema, que inclui anunciantes, publishers e agências de publicidade, que depende desta tecnologia, que já tem algum tempo. O setor precisa de chegar a um entendimento. Que garantias é que os utilizadores podem ter de que os dados que vos fornecem não são transacionados ou mal utilizados? A nossa principal preocupação prende-se com a transparência, o controle e a segurança. Qualquer pessoa ou empresa tem de saber exatamente o que é que lá está, com detalhe, podendo retirá-los, caso queira. Em termos de segurança, procuramos garantir que o nosso sistema é o mais infalível possível e que os dados que estão connosco não são roubados por ninguém. Temos uma das maiores, se não a maior, operação de cibersegurança do mundo. O Google é usado em 90% das pesquisas digitais globais. Isto não dá razão aos que vos acusam de ter uma posição dominante? Não sei de onde é que vêm esses números, mas acho curiosa a pergunta. Por um lado, questiona-me acerca da alegada perda de relevância do Google para os chatbots , mas depois fala-me de dominância. A verdade é que temos um mercado cada vez mais concorrencial. Uma pesquisa no Google pode ser uma pesquisa na Amazon, no Facebook ou noutro lado qualquer. Temos hoje um consumidor que pode optar livremente. Não temos nenhuma forma de criar lealdade ao ponto de o obrigar a utilizar motores de busca. Não temos falta de concorrência, temos é uma vontade enorme de continuar a estar na crista da onda em termos de investigação e desenvolvimento, procurando responder às perguntas das pessoas e às necessidades dos anunciantes. O Google prioriza resultados que direcionam os utilizadores para os próprios serviços em detrimento dos da concorrência, como acusa a União Europeia (UE)? Não, orgulhamo-nos de ter um motor de busca que é livre, aberto e não favorece ninguém. Os resultados são determinados algoritmicamente, de uma forma absolutamente transparente. Independentemente disso, temos relações muito boas com a UE. Já debatemos com organizações e instituições a nível europeu sobre qual é que seria a forma correta de dar resposta a essas preocupações, ainda que muitas vezes os mecanismos sejam lentos. Demorámos quase um ano a lançar os nossos sumários de IA na Europa, quando o resto do mundo já os tinha disponíveis. A Google tem vários processos judiciais em curso nos Estados Unidos. Segundo o Departamento de Justiça, a empresa teria de deslocar até dois mil funcionários para cumprir o plano de sanções a que pode vir a ser sujeita. Esta situação teria impacto em Portugal? Não posso comentar os processos judiciais, porque não conheço os detalhes. Estas notícias afetam a reputação da Google em Portugal? Analisando a questão do ponto de vista dos anunciantes e dos marketers , a reputação que me interessa é aquela que acho que temos e que medimos com frequência. Na comunidade com que trabalhamos todos os dias, que é a das empresas, a nossa reputação nunca foi tão forte. A plataforma de leilões publicitários em tempo real Google Ad Exchange (AdX) vai mesmo ser vendida? É um processo que está em curso nos Estados Unidos. Não posso comentar. A importância do programático A Google pagou à Samsung para ter o Gemini AI pré-instalado nos telemóveis da marca? Existem acordos de distribuição de produtos em qualquer indústria e em qualquer sítio do mundo. Não sei os detalhes desse acordo específico, mas, enquanto empresa, temos de trabalhar com todos os fornecedores de tecnologia para garantir que os nossos produtos são distribuídos de forma correta. A Google, a OpenAI e a Meta juntaram-se, em março, para pedir livre acesso à propriedade intelectual das marcas, para treinarem os modelos de IA. Pretendem dar-lhes contrapartidas? O James Cameron diz uma coisa em que nos revimos, que os direitos de autor de IA devem estar refletidos no output e não necessariamente no input . O que a máquina criar deve estar sujeito à mesma forma de olhar para os direitos de autor do que a criação humana. É isso que fazemos todos os dias, com todos os nossos produtos. Temos uma máquina montada dentro do nosso próprio stack de marketing, para garantir que os direitos de autor estão bem enquadrados dentro do que produzimos e do que vemos os anunciantes utilizar nas nossas plataformas, até para a nossa própria segurança. Essa garantia de salvaguarda é efetiva? Estamos a falar de uma nova fronteira. Não temos problemas nenhuns em dizer que é preciso respeitar os direitos de autor. A Google fá-lo. Temos, ao abrigo da lei europeia de proteção dos direitos de autor, todos os acordos firmados. No YouTube, fazemo-lo através do Content ID, plataforma que impede qualquer pessoa que faça o upload de um filme de Hollywood ou de um concerto. Temos uma série de mecanismos de seguranças que já existiam antes de se falar em IA. O Spotify entregou à Google o inventário programático. Que importância é que esta publicidade tem para a Google no âmbito destas parcerias? O programático é uma forma diferente de dizer publicidade a funcionar melhor com data . Nesse sentido, é absolutamente crucial, para os anunciantes e os meios de comunicação. Não só é o presente, como vai ter necessariamente de passar a ser o futuro da comunicação. A Google tem uma parceria com a Roblox nos videojogos. Porque apostam nesta área? Não sou especialista nessa área, mas fui, em vidas passadas, diretor de gaming e entretenimento de media da Google UK. O gaming tem um papel muito especial na vida das pessoas, tem uma quantidade de watch time considerável. Através do Google Play, podem fazer-se downloads de várias plataformas de jogos, incluindo o Roblox. No YouTube, já são visionadas milhares de milhões de horas de outras pessoas a jogar jogos, não só esports , mas tudo o que existe à volta do gaming , que era , e acredito que ainda seja , a segunda ou a terceira maior vertical dentro da plataforma. A primeira é sempre a música. Não estamos só a trabalhar com parceiros como o Roblox. Temos outros projetos em desenvolvimento para criar formas de distribuir publicidade. A Google lançou recentemente a produtora 100 Zeros para potenciar a produção de filmes que valorizam a tecnologia. Há projetos que envolvam Portugal em curso? Esta produtora para filmes feitos com IA pretende aplicar o que aprendemos com o Veo 3, para mostrar à indústria as potencialidades do vídeo produzido por IA. Estamos no meio de uma revolução. Uma das plataformas que a Google lançou recentemente é a Flow, ferramenta de filmagens com IA que permite a qualquer pessoa, em poucas horas, criar um conteúdo de qualidade profissional, sem o orçamento de um filme de Hollywood. Não temos nada a anunciar em relação a Portugal. Mas acho que era interessante todos os produtores de conteúdo nacionais olharem para as ferramentas como o Veo 3 e o Flow com entusiasmo. Como Portugal sempre teve uma dificuldade de escala em termos de mercado doméstico no que toca ao entretenimento, tem aqui uma oportunidade única para criar histórias que possam ter impacto global. O que falhou no Google+? Seis anos depois do encerramento da rede social, consegue fazer essa análise? Do que se foi lembrar Fui, durante muitos anos, o grande evangelista do Google+, por causa da fotografia. Era uma plataforma bestial para os amantes de fotografia. É um bom exemplo da filosofia de test and learn da Google. Apesar de não termos tido sucesso com essa rede social, deu origem a outros produtos, como o Google Photos, que tem mais de dois mil milhões de utilizadores. É a melhor plataforma de partilha de fotografias do planeta. Em agosto, lançam os novos telemóveis Pixel 10, com funcionalidades reforçadas com IA. Como é que este negócio ocorre em Portugal? Também não fornecemos dados por país, mas o Pixel é um caso de sucesso em todo o mundo, incluindo em Portugal, onde temos uma parceria muito forte com uma operadora de comunicações [Vodafone] e com o maior retalhista da área de eletrónica de consumo [Worten]. Estamos muito satisfeitos, porque é um produto extraordinário, reconhecido pelas funcionalidades de IA e pela capacidade de fotografia. Sou fanático de fotografia há várias décadas e, desde que uso um Pixel, passei a deixar a minha Nikon em casa. AI Mode identifica intenções de compra nas pesquisas O AI Mode é uma das novidades anunciadas no evento Google Marketing Live 2025. “É uma nova forma de pesquisar 100% vocacionada para a IA. Além de permitir descobrir qual é a intenção das pesquisas com apenas um clique, vem complementar os AI Overviews, os resumos de IA do Google, lançados em 2024”, explica Bernardo Correia, anunciando que o assistente de IA Gemini 2.5, disponível nas versões Pro e Flash, vai ser integrado nas ferramentas de marketing que a Google está a desenvolver. “Há uma corrida global a ver quem é que tem os melhores modelos. O Pro, para nosso orgulho, lidera todos os rankings de motores de IA, neste momento”, refere. A ferramenta de produção de vídeo Veo 3 e o motor de produção de imagens Imagen 4 são outras das inovações. “Vão estar disponíveis, tanto no Google AI Studio, como no Gemini, no chatbot , a breve prazo”, anuncia. “A internacionalização é o futuro da economia portuguesa” Portugal é cada vez mais procurado como destino tecnológico. Que papel é que a Google tem tido neste posicionamento? Tentamos criar as condições humanas, de infraestruturas e de produtos para que Portugal possa estar em paridade com os outros países. Além disso, procuramos fazer o nosso trabalho comercial, especialmente na publicidade, muito ancorado na internacionalização, procurando apoiar as empresas portuguesas a criarem marcas globais a partir de Portugal. Esta tarefa demora muito tempo, mas é o futuro da economia portuguesa. Pode dar exemplos? Trabalhamos com marcas portuguesas como a Indie Campers, que, em poucos anos, se tornou num dos maiores fornecedores de road trips do mundo. A Care to Beauty, uma loja online que vende produtos de cosmética e beleza, muito popular nos Estados Unidos, é outro dos exemplos. Tendo presença física em Portugal, tentamos fazer com que marcas, produtos e serviços portugueses tenham cada vez mais reconhecimento a nível internacional e que, a partir daí, se crie um círculo virtuoso que permita a qualquer empresa que se estabeleça aqui ter esse footprint global. E também apoiamos o ecossistema de empreendedorismo. Ainda agora, patrocinámos a conferência anual da Startup Portugal, no Porto. Temos uma rede de parcerias muito boa, através do Google for Startups e da equipa da Google Cloud Platform. Somos grandes parceiros do AIhub e da Unicorn Factory Lisboa. Queremos estar presentes no ecossistema de uma forma cada vez mais consistente, porque acreditamos que Portugal é um país de futuro na área de tecnologia. Há planos para expandir o investimento em centros de desenvolvimento tecnológico da Google em Portugal? Não temos nada para anunciar nesta altura, mas posso dizer que Portugal continua a ser um país muito interessante para a Google em termos de investimento em produtos e infraestruturas. Portugal é visto como um país transatlântico, capaz de criar diálogos numa altura em que os consensos são mais difíceis de obter. O Google DeepMind está a ter impacto em Portugal. Há novas colaborações com universidades portuguesas em perspetiva? O DeepMind é o braço de pesquisa e desenvolvimento da Google em Portugal. Não temos, neste momento, nada a anunciar em termos de parcerias, mas temos ideias que podem vir a ter desenvolvimento. “YouTube já é mais visto em televisão do que em qualquer outro ecrã” Qual é o maior desafio para o YouTube, que a Google adquiriu em 2006 e que faz 20 anos, numa altura em que o TikTok é a rede social que mais cresce? Estamos só no começo do que é possível fazer com uma plataforma como o YouTube, que já é a maior plataforma de streaming em televisão nos Estados Unidos. A nível mundial, já é mais visto em televisão do que em qualquer outro ecrã. Ainda não existe essa consciência, mas, através das boxes, das consolas e da connected TV , o YouTube está-se a tornar numa plataforma da sala. Aí, o céu é o limite. E há também a questão dos podcasts. O YouTube tornou-se muito recentemente na maior plataforma de podcasts, o que é extraordinário, considerando que, até há um ano, o YouTube quase não os tinha. O que leva a esse crescimento? Uma mudança por parte do consumidor, tanto no streaming de áudio como no de vídeo. E existe uma comunidade de criadores de conteúdo que não é igualável por nenhuma outra plataforma, porque temos um modelo único de partilha de receitas com os produtores de conteúdos. Damos-lhes mais de metade das receitas publicitárias do YouTube. Se fizermos um cálculo, dá um valor parecido com o que os grandes estúdios de Hollywood, a Netflix e a Disney investem em conteúdo por ano. A Google é, através do YouTube, um dos maiores apoiantes da produção de conteúdo audiovisual a nível internacional. A nossa fórmula é que é diferente. O YouTube também é estratégico para a divulgação das marcas? Estamos em plena revolução da IA e do comércio eletrónico apoiado no vídeo, que permite aos criadores produzirem conteúdo de qualidade, próximo do dos grandes estúdios, em qualquer língua. Isto vai universalizar a produção de conteúdo de alta qualidade. E há também a questão do shoppable video , amortizando os conteúdos mais ligados ao comércio eletrónico. Nunca estivemos tão otimistas com o YouTube. Só existe uma plataforma destas no mundo. Algoritmos minimizam impactos ambientais criados pela IA A Google tem metas ambientais específicas só para a operação da em Portugal? Para Portugal, especificamente, não. Mas temos o objetivo claro de sermos carbon neutral em 2030. É um sonho muito complexo, mas temos uma estratégia de minimização dos impactos ambientais desta indústria. Este desafio ambiental é central para os nossos desígnios. Já sabem como é que lá chegam? Não sabemos exatamente como é que lá chegamos, mas somos muito bons a inovar e a pensar em formas novas de lá chegar. Curiosamente, uma das formas é através da IA. O nosso maior custo operacional é o arrefecimento do data center e, sempre que temos um algoritmo de IA melhor e o pomos a olhar para o problema, tem-se revelado cada vez mais eficiente. Luis Batista Gonçalves