RESULTADOS DA TESLA: LUCROS EM QUEDA, MUSK APOSTA TUDO NOS ROBOTÁXIS
2025-07-24 21:06:53

A Tesla volta a registar uma quebra de lucros e receitas, afectada pela incursão política de Elon Musk. A empresa culpa uma nova lei fiscal e a queda na venda de créditos de emissões. O mais recente relatório de resultados da Tesla, divulgado nesta quarta-feira, revelou uma quebra contínua nos lucros e nas receitas, após a controversa incursão do CEO Elon Musk na política. A empresa alertou ainda que a nova lei fiscal do Presidente Donald Trump, recentemente aprovada, trará dificuldades acrescidas. A Tesla atribuiu a sua prolongada quebra de lucros a uma série de factores, incluindo a queda nas entregas de veículos. Contudo, um dos principais desafios identificados pela empresa foi precisamente a nova legislação fiscal, aprovada este mês, e que se espera venha a ter implicações para além do fim do crédito fiscal de 7500 dólares na compra de veículos eléctricos. "A "One Big [Beautiful] Bill" introduz várias alterações que irão afectar o nosso negócio", afirmou o director financeiro da Tesla, Vaibhav Taneja, na apresentação dos resultados trimestrais, referindo-se à lei fiscal de Trump. Para a empresa, a eliminação, por força da lei, das penalizações para os fabricantes que não cumpram determinadas normas de emissões irá provocar dificuldades adicionais. A Tesla tem registado uma quebra acentuada nas vendas de créditos de emissões - um efeito colateral da crescente concorrência no mercado dos veículos eléctricos. Na mesma apresentação de resultados, Musk reiterou que a condução autónoma e os robôs serão a força motriz da recuperação da Tesla. No entanto, nenhuma destas áreas gera ainda receitas significativas, o que sugere que os investidores terão de manter-se pacientes. Concorrência mais forte reduz lucros A Tesla reportou 1,2 mil milhões de dólares em lucros no segundo trimestre - uma descida face aos 1,4 mil milhões registados no mesmo período do ano passado. A quebra anual foi menos severa do que a queda de 71 por cento anunciada em Abril, mas prolonga uma tendência acentuada de declínio, iniciada após Musk se ter juntado à administração Trump, para supervisionar profundos cortes no funcionalismo público federal. As acções da Tesla caíram nas negociações após o fecho dos mercados. A empresa revelou este mês que as entregas globais de veículos diminuíram 13,5 por cento no segundo trimestre, para 384.122 unidades. No primeiro trimestre, as entregas já haviam caído 13 por cento face ao período homólogo, com os lucros a registarem uma queda de 71 por cento. Os resultados agora apresentados mostram igualmente uma quebra expressiva nas vendas de créditos de regulamentação de emissões - uma das fontes cruciais de receita para a Tesla. No segundo trimestre, a empresa vendeu 439 milhões de dólares em créditos, uma queda significativa em relação aos 890 milhões no mesmo período do ano anterior. Estes créditos são adquiridos por outros fabricantes, que os utilizam para cumprir normas de emissões que não conseguem atingir com os seus próprios veículos. Contudo, à medida que os concorrentes expandem as suas gamas de modelos eléctricos e híbridos, a dependência dos créditos da Tesla diminui. Em trimestres anteriores, as vendas destes créditos foram determinantes para manter as receitas da empresa acima das despesas. No primeiro trimestre de 2025, por exemplo, a Tesla vendeu 595 milhões de dólares em créditos regulamentares e apresentou lucros de 409 milhões de dólares. "Embora nunca planifiquemos o nosso negócio com base nestas vendas, estas terão, inevitavelmente, impacto na nossa receita total", referiu Taneja, ao comentar os efeitos da nova legislação fiscal. Stephanie Brinley, analista automóvel da S&P Global, afirmou que a quebra nas vendas de créditos tem sido constante ao longo do último ano, mas que a preocupação maior é a queda nas vendas de veículos. Para a analista, a nova lei fiscal "deverá ter um maior impacto nos próximos trimestres". Já em 2024, a Tesla dava sinais de que a crescente concorrência no segmento eléctrico estava a pressionar as vendas. A adesão de Musk à campanha de Trump e a reeleição do presidente alimentaram expectativas entre os accionistas de que a Tesla poderia beneficiar de uma menor pressão regulatória. Lei fiscal de Trump agrava cenário Porém, após a tomada de posse de Trump, analistas e accionistas sustentaram que os desafios da Tesla se agravaram devido à exposição política de Musk. No seu papel no Serviço DOGE dos EUA - acrónimo de Department of Government Efficiency (Departamento de Eficiência Governamental) - Musk defendeu despedimentos em larga escala e cortes orçamentais significativos a nível federal. Musk abandonou o governo em Maio, mas os investidores mantêm-se preocupados com as consequências comerciais do seu recente desentendimento com Trump. Os dois entraram em rota de colisão por causa da nova lei fiscal, que deverá aumentar a dívida nacional em biliões de dólares e pôr fim ao incentivo fiscal de 7.500 dólares para compradores de veículos eléctricos. O empresário ameaçou mesmo fundar um partido político capaz de desviar votos do eleitorado republicano. Esta reentrada impulsiva na arena política enfureceu muitos accionistas de longa data, que apelaram ao conselho de administração da Tesla para que o CEO voltasse a focar-se na liderança da empresa. Trump, por seu lado, sugeriu que o DOGE deveria "dar uma boa e séria olhadela" aos contractos de Musk com o governo, nomeadamente com a SpaceX - um dos principais parceiros da NASA. Thomas Monteiro, analista sénior da Investing.com, comentou que os resultados da Tesla "despertam algum optimismo", uma vez que sugerem que "o pior já terá passado - pelo menos no que toca ao negócio automóvel principal". "As perspectivas para o negócio principal parecem um pouco melhores", afirmou Monteiro, via email. No mês passado, a Tesla começou a lançar o muito prometido serviço Robotaxi, disponível apenas para utilizadores seleccionados em Austin, Texas. Paralelamente, enfrenta um processo federal por homicídio em Miami, onde é alegado que o sistema Autopilot da Tesla contribuiu para um acidente mortal em 2019. A empresa está também envolvida numa acção judicial na Califórnia contra reguladores que pretendem proibir as vendas da Tesla no estado, com o argumento de que a marca terá promovido de forma enganosa as capacidades dos seus sistemas de assistência à condução. Os investidores aguardam com expectativa o lançamento do tão prometido veículo totalmente autónomo, dado que Musk já declarou que "a grande mais-valia da Tesla é a condução autónoma". Na quarta-feira, o CEO afirmou que a empresa pretende expandir "o transporte autónomo a metade da população dos EUA até ao final do ano", dependendo da aprovação dos reguladores. "A frota de robotáxis passará de minúscula a gigantesca num curto espaço de tempo", garantiu. Porém, Musk tem um longo historial de promessas não cumpridas quanto aos prazos de desenvolvimento dos seus veículos autónomos - como quando, em 2019, prometeu ter mais de um milhão de robotáxis na estrada até ao final de 2020. Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post Tradução: Sérgio Magno Trisha Thadani