CRÓNICA DE CARVALHO COUTO - O CAROCHA FEST E O FASCÍNIO DE UM ÍCONE
2025-07-28 21:02:24

A propósito do Carocha Fest, Carvalho Couto reflecte acerca do significado do modelo e acerca da forma como este lhe parece cada vez mais apelativo. Fotos: CM Leiria e Arquivo T&C Foi em 28 de Junho que se realizou o CAROCHA FEST, COmemorativo dos 90 anos de existência do popularíssimo modelo, o VW Carocha. Uma ideia deveras feliz, com iniciativa do ACP Clássicos, e que reuniu mais de 300 exemplares no Jardim da Almuinha Grande, em Leiria. Uma organização grande e complexa, mas bem conseguida. Nos vídeos que visionei sobre o evento, deu para perceber que as viaturas (por épocas) estavam bem escalonadas, o que dava para entender as diferenças que o tempo foi pro-duzindo. E mais ainda, as diferentes cores proporcionaram uma visão policromada absolutamente fantástica, direi única. Folheando a História, tudo começou quando, na Alemanha dos anos 30, foi entregue ao Eng. Ferdinand Porsche a ousada incumbência de criar um automóvel simples, vocacionado sobretudo para o dia a dia do povo. Simples... mas sobretudo resistente e económico. Ferdinand Porsche acertaria em cheio na encomenda que lhe fora pedida, de tal modo, que o jornal “The New York Times” escreveria em 1938 que “Esses pequenos insectos brilharão nas estradas alemãs e, quem sabe, do mundo.“ Uma previsão que, como poucas, seria cumprida. Nos restantes anos do SêC. Xx, o Carocha polvilhou continentes, cativando milhões de pessoas, ora como viatura popular, ora como viatura símbolo da liberdade, encheu as ruas da Europa, Brasil, México, EUA e tantos outros países. Em Portugal, popularizou-se como o “carro do povo“. Des-de a GNR à PSP e aos bombeiros, ainda hoje é distinguido por passeios turísticos e casamentos, servindo também de fundo para fotos com modelos. E tudo isto porquê? Pela sua simplicidade e intemporalidade, que faz com que muitas viaturas mudem de mãos, de avós para filhos e netos. Durante décadas, o Carocha foi o veículo mais produzido da História, com mais de 21 milhões de unidades fabricadas, entre 1938 e 2003. E quando tal produção foi ultrapassada pelo Toyota Corolla, manter-se-ia o título de modelo com o design mais duradouro de sempre, o que não deixa de ser notável! Tudo o que atrás fica escrito é consensual. Para a generalidade das pessoas que me lêem, não há a menor ponta de novidade sobre o “curriculum” do Carocha. Curiosamente, aprendi a conduzir num Carocha, já lá vão uns anitos (inícios da década de 70), pertencente à Escola de Condução “Auto-ãguia”, sediada no Porto. Entretanto, e qua-se três anos depois, chegaria o momento de adquirir a minha primeira viatura. Poderia ter escolhido a marca e o modelo que me serviram de passaporte para a «conquista» da Carta de Condução. Contudo, acabaria por optar por uma marca que me fala ao coração. Mas não só... Pensava então que O VW era um automóvel pequeno, de bagageira insignificante, interiores acanhados, tablier demasiado minimalista, de design feio. Tinha pouco de automóvel que se preze, que alimente o nosso ego... Passados estes anos todos, a minha visão do assunto mudou quase por completo. Hoje tenho a consciência que o Carocha tem uma relevância fantástica em Portugal e noutros países, como no Brasil (o Fusquinha), no México (Vocho), nos Estados Unidos (Beetle), na França (Coccinelle) e na Alemanha (Kãfer). Apelidos que são carinhosos, porque o Carocha foi feito para ser amado, para ter um lugar eterno no coração de milhões. Pois, hoje em dia, eu gostaria de ter um Carocha. Da sua buzina num criativo semi aro cromado sobreposto ao volante; do seu tablier, minimalista sim, mas elegante e preciso; do seu tamanho e do seu design aerodinâmico, revolucionário à época; da simplicidade do seu motor, que torna básicos eventuais problemas mecânicos, sempre com ferramentas simples; e do roncar do motor, que nos transmite força e nos dá segurança. Muitas vezes, o tempo dá-nos voltas à cabeça e caímos na realidade.com o andar dos anos, vejo agora uma viatura bonita e atraente. Não há par que se lhe compare. ê única em tudo. Talvez, por isso, icónica. Até por ser considerada universalmente um símbolo da Paz e do Amor! Se “é giro ter um Mini”, é apelativo ter um Carocha... Com frequência, surgem-me pela frente, através do Facebook, vários vídeos. Em especial, do Brasil, deixando-nos espantados pela atenção e pelo carinho com que são distinguidos como se fossem gatos em Istambul... e com os acabamentos mais diversos. Um dia destes, porém, houve um vídeo que me chamou particularmente a atenção. Porque relaciona a velhice de um Carocha/Fusca, com a velhice dos humanos, e mesmo dos animais. Nunca tinha pensado em tal relação. Um automóvel destes é um óptimo treino para os seus proprietários. Em especial, se se tratar de um jovem... Isto, porque, face a eventuais problemas, toda a paciência é necessária para os resolver. Cada situação problemática exige respeito pela viatura e pela sua História, pela caminhada já percorrida. Nada de nervos à flor da pele. De impropérios. De maldições. Afinal, possuir e lidar com uma viatura destas, é uma aprendizagem para educar o seu ego, para ser solidário e companheiro. Eu sei que nem sempre é fácil. Por vezes custa, em especial quando a viatura teima em não sair do lugar. Mas há que respeitar os mais velhos, o tempo da viatura. São lições de amor ao próximo. ê que os problemas nem sempre se resolvem na hora pretendida... Por vezes, o Carocha precisa de descansar. De tempo para ele. Em resumo, uma verdade inquestionável: quantos mais Carochas houver por perto, a sociedade será menos ansiosa e de-pressiva! Claro que esta verdade não se aplica apenas aos Carochas. Antes, a todos os automóveis antigos da nossa praça. Confesso que eu próprio já passei por situações complicadas. Mesmo desesperantes. Que me deixaram marcas. Mas admito que me faltavam uns bons anos de experiência e consequente sabedoria. Hoje, teria resolvido as mesmas situações de outra maneira, não só para mim, como para o veículo. Se ainda for a tempo, siga o meu conselho: dê toda a atenção ao seu automóvel. Trate-o com carinho. Tenha muita paciência. Apaixone-se, se for caso disso! E respeite-o. ê que o respeito é muito lindo... Carvalho Couto