RIDER O REFÚGIO DOS PETROLHEADS
2025-07-28 21:03:05

A13a edição do Rider aconteceu a 14 e 15 de Junho, em espectaculares estradas do centro. Muitos quilómetros para quem gosta realmente de desfrutar de motos e automóveis clássicos. Fotos: Joel Araújo O Museu do Caramulo chama-lhe “passeio de endurance”, uma forma brilhante de sintetizar o conceito deste evento bastante original, que reúne motos e automóveis clássicos (no sentido lato da expressão), e os coloca ao longo de três dias na estrada. O Rider deve o seu nome ao facto de ter nascido como um passeio destinado apenas a motos clássicas, e assim se manteve até 2022, reunindo um grande grupo de participantes fiéis portugueses e não só , que formaram a base do evento foram propagando a sua reputação. As imagens das mais belas estradas e uma comunicação que permitia transparecer a sensação de aventura e prazer de condução, foi gerando o interesse de um público mais vasto, não necessariamente, motociclista, que também desejava participar. Assim, por “vontade popular”, o Rider transformou-se, não na sua filosofia e formato, mas nos veículos admitidos. Houve aspectos positivos nesta evolução, sendo um deles o facto do Rider se ter tornado num evento mais aberto às famílias, sendo que são muitos os participantes que, nos automóveis, trazem consigo uma nova geração de entusiastas que, seguramente, ficará com as sensações deste passeio gravadas na memória. No entanto, ao ter a génese num evento de motos, o Rider beneficia desta abordagem aventureira, voltada ao puro prazer de condução, em quantidade e qualidade de curvas e quilómetros, que tantas vezes falta nos tradicionais eventos de automóveis clássicos, que se acumula mais quilómetros a ir e vir, do que durante a actividade. Para quem não tem medo de rolar Porque não passo de um motociclista frustrado, que nunca concretizou essa paixão devidamente, foi necessário que o Rider passasse a incluir automóveis para que eu finalmente participasse. O feedback de alguns amigos, entre eles a equipa de media do Museu do Caramulo (Pedro Martins Costa, Joel Araújo e Bruno Pereira), criou em mim um crescendo de curiosidade. Afinal, este é mesmo o tipo de “empreitada” de que gosto, em que se conduz muito e nunca por estradas óbvias. Além do mais, agradou-me a informação de que o ritmo do passeio tinha muito de ritmo de motociclista, ou seja, era muito mais “ligeirinho” do que o habitual. Assim, quando o Salvador Patrício Gouveia me desafiou a participar, não precisou de insistir. E se a ideia inicial passava por levar a família, tal como o Salvador fez, a agenda dos miúdos não mo permitiu. Assim, acabei por recrutar o meu bom velho amigo Rui Pinto (tão velho, que é o mais antigo assinante da T&C, apesar do registo de nascimento dizer que é apenas uns meses mais velho do que eu). Faltava escolher máquina a usar. Este era o tipo de evento perfeito para o Mazda MX-5: éramos só dois, o ritmo era rápido e o clima promissor. Mas, para minha felicidade, o Salvador pediu-me que levasse o 124 Special T, por ser diferente, mais carismático e mais antigo. E ainda bem que o fez, porque isso não só me motivou a resolver alguns pendentes de que o Fiat precisava, como acrescentou piada e sensação de desafio. Contas feitas, com os 115km que separam a minha morada e o Museu do Caramulo, seriam 490km num só dia! Era mesmo disto que eu estava a precisar! Isto de fazer vida de conduzir clássicos, nem sempre é o que parece, pois, os momentos de condução resumem-se habitualmente a uma tarde e representam apenas uma pequena parte do meu trabalho. Assim, a possibilidade de conduzir um clássico livremente e, por recriação, acontece-me sempre menos vezes do que seria desejável e, arrisco dizer, menos vezes do que a boa parte dos leitores. Por essa razão e, embora sabendo que no final teria de produzir uma história com base na experiência, foi com total descontracção e vontade de usufruir que parti para o Rider.com uma companhia daquelas com quem dá para falar de carros e não só, e um clássico capaz da tarefa, estavam criadas as bases para um dia excepcional. ê como estar em casa Como sempre acontece quando estamos descontraídos, atrasamo-nos um pouco, pelo que partimos do Porto a pouco mais de uma hora da partida do evento, o que obrigou o 124 a mostrar o que vale. Uma vez mais, sem querer tornar este texto numa espécie de “Diário de Bordo” mal paginado, é impossível não mencionar o quão bem este automóvel de 1974 se comporta numa viagem de auto-estrada a fazer velocidades de cruzeiro de 120 ou 130km/h (os 130 SãO hipotéticos, claro...). E logo que se chega a Campia e se começa os vários quilómetros de estrada de serra, é al que o GPS começa a ter de recalcular o tempo de chegada, pois o ritmo é acima das expectativas. Chegámos apenas com a folga necessária para aplicar autocolantes, integrar a foto de grupo e cumprimentar algumas das caras conhecidas. Partimos então para a primeira etapa que nos levaria ao coffee break na Aldeia da Pena. As motos, na sua maioria, arrancaram à frente e nós acabámos por alinhar entre os primeiros automóveis e, desde logo, ficou evidente que o ritmo ia ser solto. Não exagerado, mas suficientemente rápido para ser divertido e despreocupado. Uma das particularidades que advêm da génese motocilistica do Rider, é que todas as mudanças de direcção do percurso , mesmo todas! estão sinalizadas no terreno com uma seta cor-de-laranja que não deixa dúvidas, isto para que os motociclistas não tenham de consultar um roadbook. Assim, se o seu parceiro a bordo do automóvel não gosta de ler roadbooks e quer mesmo é apreciar a paisagem e relaxar, isto são excelentes notícias. Logo de manhã passámos nas fantásticas paisagens de São Pedro do Sul, Serras da Arada e de SãO Macário, zonas de curvas deliciosas e cenários que mudam com frequência e que mantêm os passageiros interessados. Provar a teoria e recolher a opinião Para poder dizer que o passeio é agradável para os passageiros, passei para o banco do lado na etapa que nos levaria até ao almoço. As experientes mãos do Rui Pinto, conduziriam o Special T nos 60km seguintes, através do Portal do Inferno, Arouca, Vale de Cambra, até ao destino que era o bonito Hotel Rural Vale do Rio, onde iríamos almoçar confortavelmente. Eufemisticamente, eu diria que o Rui é um pouco mais “intenso” do que eu a conduzir e isso agrada-me e entretêm-me enquanto passageiro, porque conduz com segurança, e permite comprovar o quão bem o Fiat lida com os castigos de um passeio ”enérgico”. Acima de tudo, agradou-me saber que o meu amigo apreciou e se surpreendeu com as capacidades do caixotinho italiano. Etapa final e uma meia surpresa Seguro de que comi mais do que devia, como é habitual quando me deparo com um apelativo buffet de sobremesas, voltei ao volante para a etapa final de 118km. ê uma distância que, em estradas de serra, se faz longa e demorada. ê preciso gostar mesmo disto. Ao contrário do que aconteceu com as sobremesas, não posso dizer que me empanturrei de curvas para lá do que seria razoável, mas fiquei mais do que satisfeito. Já os companheiros que ainda ficaram para a etapa de domingo, teriam mais 84km a percorrer depois de uma boa noite de descanso, o que me parece um excelente epílogo. Além da Serra da Freita (que percorri uma semana antes com o Porsche Club de Portugal) passámos por Albergaria até chegar ao Caramulo Experience, onde nos esperava uma visita à “colecção secreta”, escondida num outro pavilhão ali perto. Tratava-se, nada menos do que uma “ante-estreia” da colecção dedicada à celebração dos 80 anos do final da Segunda Guerra. Sem "spoilers”, guardo a descrição do espólio fantástico (que por acaso eu já tinha visto), para uma outra ocasião, pois é um tema demasiado interessante para abreviar. Este momento acabou por ser uma excelente oportunidade para confraternização entre os participantes. Entre bolachinhas, espumante e blindados, fez-se retrospectivas da viagem e dedicou-se algum tempo a apreciar as máquinas de cada um. Acabaria por ser um momento com mais confraternização do que o interessante jantar no CEC, que penso que beneficiaria mais de umas entradas consumidas em pé, antes da refeição propriamente dita, e eventualmente de uma boa, velha “mesa corrida”, que proporciona mais convívio (e confusão, é certo) do que da divisão em grupos de seis pessoas, que nestes contextos acaba por limitar a socialização aos que nos são mais próximos. Dito isto, a culpa é sobretudo minha, pois se tivesse chegado na sexta e ficado para domingo, teria usufruído de mais momentos de confraternização, que acabam por ser necessariamente curtos no dia em que se acumula mais quilómetros. Receita perfeita para ficar cliente Pessoalmente, saí com um grande nível de satisfação do Rider e com vontade de regressar e descobrir novas estradas desafiantes. Assim, para quem ainda não teve a oportunidade de viver o Rider por dentro, sugiro que aproveitem para estar presentes nos dois ou, se possível, nos três dias, sendo que a sexta-feira é dedicada apenas a convívio e ao jantar. Se ficarmos a conhecer antecipadamente os companheiros de viagem, tudo é mais engraçado depois. Em segundo lugar, é bom trazer uma boa companhia, mas pelo que já descrevi, é também um passeio perfeito para fazer a solo, sem medo de se perder e fazendo o seu ritmo à vontade. Por último, sugiro sempre que leve uma moto ou automóvel suficientemente antigo para que percorrer esta distância seja um pequeno desafio. Esse é o ingrediente essencial, para tornar tudo mais interessante. Com os parabéns à equipa organizadora por todo o simpático acolhimento, deixo um provável “até para o ano”. Hugo Reis