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COMO PROLONGAR A VIDA DAS BATERIAS DOS CARROS ELÉCTRICOS

Público Online

2025-08-01 21:04:13

A bateria é o componente mais importante de um veículo elétrico, mas está associada a muitos mitos relacionados com carregamento e longevidade. Apesar da descida gradual dos preços dos carros eléctricos, o custo de aquisição continua, regra geral, acima do dos modelos equivalentes com motor de combustão. A principal responsável por esta diferença? A bateria, que pode representar cerca de 30% do custo total do automóvel, segundo os especialistas. Mas, afinal, o que está por trás deste componente fundamental? E o que deve ter em conta na hora da compra - ou para garantir uma maior durabilidade do seu investimento? Muito mais que uma pilha gigante A bateria de um VE (veículo eléctrico) é um sistema complexo. No seu núcleo estão as células, agrupadas em módulos, que armazenam a energia. A que se juntam componentes de controlo electrónico e um sistema de gestão térmica que assegura temperaturas ideais de funcionamento. Há também diferenças importantes na "química" usada nas células - tema que abordámos em detalhe no artigo "Sabe o que significa NMC ou LFP? A importância da química da bateria na escolha de um automóvel eléctrico" -, mas é a gestão que dita, em grande parte, o desempenho e longevidade da bateria. Um bom sistema garante que todas as células operam de forma equilibrada, tanto na carga como na descarga, e à temperatura certa, prolongando significativamente a vida útil do conjunto. Foto As baterias usadas nos automóveis elétricas são sistemas complexos, que incluem muitos componentes além das células onde é armazenada a energia DR Nem todas as baterias são iguais Cada fabricante faz escolhas diferentes consoante o posicionamento do veículo. Modelos mais acessíveis podem recorrer a soluções com refrigeração passiva ou limitar a potência de carregamento, enquanto outros investem em baterias robustas, preparadas para cargas rápidas diárias e temperaturas extremas. Se o objectivo é uma utilização intensiva - como frotas ou táxis -, convém escolher um modelo com uma bateria bem refrigerada e com electrónica de gestão apurada, que permita potências de carregamento elevadas. Para quem apenas pretende um carro familiar, com uso moderado e carregamentos sobretudo em casa, poderá optar por uma proposta mais simples e económica. Saber mais - domine a linguagem Ciclos - Número de cargas/descargas completas. É importante salientar o "completas". Ou seja, o carregamento de uma bateria de 50 a 100% só conta como meio ciclo. Degradação - Perda da capacidade da bateria. SOC, State Of Charge - Estado de carga da bateria, normalmente expresso em percentagem. SOH, State Of Health - Capacidade energética da bateria relativamente ao estado nominal original. Utiliza-se para medir a degradação. Por exemplo, uma bateria com 60 kWh de capacidade original e 10% de degradação terá um SOH de 90% que se traduzirá numa capacidade real de 54 kWh. BMS, Battery management System - Sistema eletrónico que gere a bateria e que tem por objetivo manter a bateria dentro dos parâmetros apropriados de utilização. É, por exemplo, o BMS que altera a potência de carregamento em função de diversos parâmetros; mede comunica o estado de carga e de saúde da bateria; controlao sistema de refrigeração; e balanceia as células (garante que a energia é distribuída por todas células de modo equilibrado para evitar avarias ou degradação acelerada de algumas células). TMS, Thermal Management System - Sistema que gere a temperatura da bateria. Muitas vezes é visto como um subsistema do BMS. Um TMS será tanto melhor quando melhor for a sua capacidade de manter todas as células da bateria a funcionar à temperatura considerada ótima. É por isto que os melhores TMS incluem refrigeração com recurso um circuito de líquido, que é mais eficiente do que o ar para remover ou adicionar calor às células. Mas também podem aquecer as baterias para aumentar a velocidade de carregamento, processo conhecido por pré-condicionamento. Mitos: o que não deve acreditar As redes sociais estão cheias de mitos ou meias-verdades sobre baterias. Um dos mitos mais persistentes é o de que as baterias de iões de lítio "viciam". Não é verdade. Ao contrário das antigas baterias de níquel, as baterias usadas nos veículos eléctricos e na maioria dos gadgets não perdem capacidade total por serem recarregadas com alguma carga ainda disponível. Aliás, pode comprová-lo com a sua própria experiência: não é por recarregar um telemóvel ou um carro eléctrico dos 50% aos 100% que vai ficar com metade da autonomia da próxima vez que usá-lo. Há uma confusão de termos, entre "viciar", que é o que acontecia com as baterias de níquel, e "degradar", que é o que acontece, ao longo dos anos, com as baterias de iões de lítio. Outro mito é o de que a bateria (iões de lítio) deve ser descarregada completamente antes de carregar - o que, além de ser falso, é prejudicial. Uma vez mais, um erro que vem do historial com as tais baterias de níquel, ainda usadas em algumas ferramentas eléctricas. Nas baterias de iões de lítio, as descargas profundas aceleram a degradação. A boa notícia é que, com os cuidados certos, a bateria pode manter uma capacidade muito próxima da original durante muitos anos. Estudos indicam mesmo que a probabilidade de ter de substituir o motor de um carro a combustão é maior do que a de trocar a bateria de um eléctrico. De outro modo, as baterias usadas nos veículos eléctricos actuais deverão durar tanto, senão mais, do que o resto do veículo. Mas é natural que, ao fim de alguns anos, a capacidade já não seja a mesma. Mas algumas técnicas podem reduzir esta degradação. Foto A utilização regular de carregadores de elevada potência (ultra-rápidos) pode acelerar a degradação da bateria Nelson Garrido Como prolongar a vida da bateria A bateria é o coração de um veículo eléctrico e, como qualquer coração, convém que não seja maltratado. Não estamos a falar de milagres, mas de hábitos simples, fáceis de incorporar no dia-a-dia, que ajudam a prolongar a saúde da bateria e evitar que, passados alguns anos, a autonomia do carro encolha como um balão furado. Felizmente, a evolução tecnológica das baterias faz com que cada vez menos nos tenhamos de preocupar com estes cuidados, mas continuam a fazer (alguma) diferença. Evite cargas e descargas completas Deixar a carga descer até ao zero absoluto é má ideia. Tal como ninguém espera ficar com o depósito vazio para atestar o carro, também não é boa política deixar a bateria chegar ao limite. Idealmente, deve manter-se numa zona confortável - digamos, entre os 20% e os 80%, sempre que possível. Há muitos veículos que até permitem limitar automaticamente a carga máxima, o que é uma boa ajuda para quem não quer andar sempre a fazer contas. Cargas completas constantes também não são o melhor plano, sobretudo se o carro depois ficar parado, a ferver ao sol, com os 100% cravados no mostrador. Por outro lado, é boa ideia carregar até 100% de vez em quando para que a bateria possa fazer o balanceamento das células. Conduza como se estivesse a pagar cada quilómetro Quanto mais suave for a condução, menos energia se consome e menos ciclos de carga/descarga se acumulam. Como, aliás, acontece com os carros a gasolina ou gasóleo. É simples: cada vez que carrega na bateria, está a dar-lhe mais um "trabalho" que, com o tempo, pesa. O ideal é aproveitar bem a regeneração (sobretudo na cidade e em descidas) e evitar acelerações bruscas. E, se estiver disponível, usar o modo Eco. Até o ar condicionado entra nesta equação: em dias amenos, baixar um pouco os vidros é mais saudável para a bateria do que ligar o compressor. Evite as cargas "fast food" Os carregamentos rápidos são práticos, mas como qualquer comida de plástico, não são ideais para consumo diário. O calor gerado pelas cargas de alta potência pode desgastar prematuramente as células da bateria. Por isso, a receita mais equilibrada passa por carregar lentamente, de preferência durante a noite, com potências mais baixas. Guarde os carregamentos rápidos para quando está mesmo com pressa ou em viagens mais longas. O resto do tempo, pense nisto como um sono reparador para o carro. Evite temperaturas extremas As baterias não gostam nem de fornos nem de congeladores. Carregar o veículo sob luz solar directa, depois de uma viagem longa, em pleno pico do Verão, é meio caminho andado para aquecer o sistema mais do que devia. Sempre que possível, guarde o veículo em locais frescos e evite carregamentos em momentos de maior calor. Esta recomendação é especialmente importante para carros eléctricos das primeiras gerações, que até podem não ter sistema de refrigeração da bateria. Bom senso Em resumo, cuidar da bateria é cuidar do carro. Não exige grandes sacrifícios, apenas bom senso. E, no final do dia, a recompensa é um veículo mais fiável, capaz de manter a autonomia original durante vários anos. O Santo Lítio agradece. tp.ocilbup@ongam.oigres Sérgio Magno