COMO DOIS PORTUGUESES EM ROMA FIZERAM DO ESPAÇO O SEU NEGÓCIO
2025-08-01 21:04:13

Fundadores da Terradue querem estreitar laços com o mercado português Impulsionar soluções de processamento de dados de observação da Terra é uma das missões da Terradue, uma empresa italiana fundada por dois portugueses em Roma em 2006, com o apoio da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla inglesa) e do programa de incubação da agência. Agora, 19 anos após lançarem o seu negócio, Fabrice Brito e Pedro Pereira Gonçalves continuam a trabalhar vários projetos internacionais, mas acreditam que há condições para estabelecer uma "forte ligação ao ecossistema nacional de ciência, inovação e políticas públicas". No contexto europeu de Observação da Terra, "Portugal tem um potencial de crescimento que decorre do facto de ter uma orla marítima interessante", referem os fundadores e sócios da Terradue ao Expresso. PERFIL Fabrice Brito 50 anos, licenciou-se no Instituto Superior de Agronomia, interessado em imagens de satélite e ciências de computação, e acabou por ir para a ESA, onde ficou três anos. Mora em Roma, mas vem muito a Portugal. Tem dois filhos. Gosta de escalada e bicicleta de montanha. Pedro Pereira Gonçalves 53 anos, licenciou-se em Engenharia do Ambiente na Universidade Nova, fez o doutoramento e foi para a ESA. Morou em Paris, Rio de Janeiro e Roma. Tem três filhos. Gosta de viajar. "Atualmente colaboramos com instituições nacionais, como, por exemplo, o INESC TEC, no Porto", e em iniciativas como a Atlantic Constellation (um projeto conjunto entre Portugal e outros países para desenvolver uma constelação de satélites para observação da Terra e dos oceanos). Este projeto visa usar tecnologia espacial para monitorizar o planeta, com foco na região do Atlântico, apontam os donos da Terradue. Com uma faturação crescente nos últimos anos, subindo dos EUR1,9 milhões registados em 2020 para EUR3 milhões em 2024, a Terradue somou no ano passado um lucro de cerca de EUR400 mil. Há 19 anos no mercado, a empresa fundada por Fabrice Brito e Pedro Pereira Gonçalves conta com mais de 3200 utilizadores e vive sobretudo de projetos financiados pela União Europeia (UE) e pela ESA, com mais de EUR2,3 milhões de financiamento europeu e EUR10 milhões de financiamento da agência espacial desde 2020, focados na utilização de dados espaciais. A empresa quer agora criar laços sustentáveis com Portugal através das suas competências e de uma equipa que ascenderá em breve a 20 especialistas. A Terradue fechou 2024 com uma faturação de EUR3 milhões e um lucro de EUR400 mil Os investigadores do Instituto Europeu de Investigação Espacial da ESA (ESRIN) em Frascati, Itália, trabalham em parceria com os clientes e investigadores e consideram ter chegado o momento para "aprofundar e ter novas parcerias em Portugal com instituições públicas, centros de inovação, polos tecnológicos e empresas estratégicas". O objetivo é transformar dados de satélite em informação geoespacial que seja acessível e prática, destinada a governos, cidadãos e empresas, para serem desenvolvidas soluções para eventos cada vez mais frequentes (como os desastres naturais), para riscos ambientais, para a transição digital e para a sustentabilidade. Parceiros e projetos A Terradue emergiu da experiência que os seus fundadores tiveram como investigadores da ESA. São parceiros-chave desta entidade, que reúne vários países, e da Comissão Europeia, para o desenvolvimento de soluções como a Geohazards Exploitation Platform, uma plataforma baseada na nuvem (cloud) que facilita o acesso a dados de observação da Terra decorrentes de riscos geológicos, como terramotos, vulcões e deslizamentos de terra, em mais de 40 países. A Terradue também tem em mãos o projeto Copernicus LAC Platform, que visa instalar um centro de dados no Panamá ligado a serviços de observação da Terra. O que faz exatamente a Terradue? A empresa desenvolve sistemas de pesquisa que recorrem a milhares de fotografias feitas pelos satélites em determinados eventos, como inundações, episódios de seca, erosão da orla marítima e subida das marés. Essa informação poderá depois ser processada para ajudar os investigadores a tirar conclusões e procurar soluções para mitigar o efeito de alguns desses eventos. Empresa tem trabalhado com financiamento a UE e da Agência Espacial Europeia Outro exemplo: a ESA pediu à empresa de Fabrice Brito e Pedro Pereira Gonçalves para trabalhar dados de satélites e analisar o terramoto que ocorreu em 2023 na Síria e na Turquia. Quem recebe os dados faz o seu tratamento através das plataformas e sistemas operativos desenvolvidos pela Terradue. "Também colaboramos muito com o instituto vulcânico em Itália para, através dos modelos de formação do vulcão, monitorizarmos a evolução ou contextualização de uma crise, para que esta possa ser mitigada", explica Fabrice Brito. "Fornecemos as plataformas para os clientes, os especialistas, uma espécie de parceria, para poderem ter acesso aos dados, capacidade de computação e depois se tirarem conclusões", acrescenta Pedro Pereira Gonçalves. É neste ambiente de parceria que a empresa tem crescido e quer continuar a crescer, permitindo que empresas, governos e outras entidades tirem partido das plataformas da Terradue e dos sistemas que lhes estão associados para um melhor aproveitamento dos dados que vêm do Espaço. Origem da Terradue ESA 2002/2003 Pedro Pereira Gonçalves e Fabrice Brito encontram-se em Itália, a fazer investigação na Agência Espacial Europeia (ESA na sigla inglesa). Foi lá que a agência impulsionou a formação de uma empresa que criasse uma plataforma para ler dados de satélites. Fundação 2006 Os dois portugueses criam, em Roma, a Terradue, que começa por ser um braço dos projetos da ESA e da Comissão Europeia com foco em cloud computing aplicado à observação da Terra. A empresa tem agora 19 colaboradores. Isabel Vicente Jornalista Isabel Vicente