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DONALD TRUMP ACHA-SE MERECEDOR DE UM NOBEL DA PAZ E RECLAMA CRÉDITOS EM SEIS CONFLITOS: QUAIS SÃO E QUAL FOI A SUA INTERVENÇÃO?

Expresso Online

2025-08-05 21:57:05

O Presidente dos Estados Unidos da América considera-se um pacificador e reclama a atribuição de um Nobel da Paz, ainda que esteja convencido de que só o dão "a liberais". O assunto está na agenda mediática. Para Donald Trump, é uma arma de campanha para provar ao eleitorado que, afinal, ele é o Presidente da Paz que os media se recusam a reconhecer Em 124 anos de história, o Prémio Nobel da Paz - que este ano será anunciado a 10 de outubro - já foi atribuído a quatro presidentes dos Estados Unidos da América (EUA). Em 1906, o prémio foi entregue a Theodore Roosevelt "pelo seu papel em pôr fim à sangrenta guerra recentemente travada entre duas das maiores potências mundiais, o Japão e a Rússia", justificou à época o Comité Nobel. Treze anos depois, Woodrow Wilson foi reconhecido "pelo seu papel como fundador da Sociedade das Nações", a organização que procuraria assegurar a paz no pós-I Guerra Mundial. Os EUA ajudaram a arquitetar a organização, mas nunca se lhe juntaram formalmente. O terceiro Nobel dado a um Presidente americano foi decidido mais de 80 anos depois, em 2002. O premiado foi Jimmy Carter, "pelas suas décadas de esforço incansável para encontrar soluções pacíficas para os conflitos internacionais, para fazer avançar a democracia e os direitos humanos e para promover o desenvolvimento económico e social". Carter deixara a Casa Branca 21 anos antes e o Nobel distinguia sobretudo a sua ação cívica e social após a presidência. O último a receber o Nobel da Paz foi Barack Obama, "pelos seus extraordinários esforços para reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos". Estava-se em 2009, o democrata era Presidente há menos de um ano e viu este reconhecimento ser amplamente criticado por ser precipitado e não ter grande sustentação. Se Trump se chamasse Obama... Donald Trump quer ser o próximo chefe de Estado americano a ter um Nobel. "Se eu me chamasse Obama, teria ganho o Prémio Nobel em dez segundos. Ele ganhou o prémio, mas não sabia por que lho deram", afirmou Trump, numa ação da campanha eleitoral, a 10 de outubro de 2024. "Ele ganhou o Prémio Nobel por não fazer nada, por ter sido eleito, mas eu também fui eleito." "A obsessão de Trump com o Prémio Nobel da Paz é, antes de mais, reflexo da sua vaidade política e do seu complexo em relação a Barack Obama", comenta ao Expresso Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense. "Desde o início do seu mandato que tenta apagar o legado do antecessor, e o Nobel que Obama recebeu em 2009 - por muito polémico e/ou imerecido que tenha sido - tornou-se para Trump uma ferida aberta, uma humilhação simbólica. O Nobel seria, para ele, a consagração internacional que nunca teve - porque Trump, apesar do seu discurso isolacionista, sempre quis o reconhecimento das elites, de que faz parte, e que diz desprezar", acrescenta o perito. Recentemente, a porta-voz da Casa Branca Karoline Leavitt justificou as razões que fazem de Trump um justo candidato ao Nobel da Paz: "O Presidente Trump negociou, em média, cerca de um acordo de paz ou cessar-fogo por mês durante os seus seis meses de mandato", disse. "Já é mais que tempo de o Presidente Trump receber o Prémio Nobel da Paz." A secretária de imprensa enumerou seis conflitos que terão beneficiado da intervenção de Trump. Mas qual foi verdadeiramente a intervenção do Presidente dos EUA nessas contendas? TAILÂNDIA E CAMBOJA Estes dois países do Sudeste Asiático vivem em permanente tensão com disputas fronteiriças abertas há séculos. A 28 de maio, a morte de um soldado cambojano durante uma altercação levou a confrontos que provocaram 36 mortos e cerca de 300 mil deslocados. A 28 de julho, entrou em vigor um cessar-fogo "imediato e incondicional", mediado pela Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa) e assinado na Malásia. De início, segundo a agência Reuters, a Tailândia rejeitou as mediações da Malásia e da China, só tendo aceitado concordado dialogar após um telefonema de Trump com o primeiro-ministro interino, Phumtham Wechayachai. O Presidente dos EUA ligou também ao primeiro-ministro do Camboja, Hun Manet. "Por coincidência, estamos a negociar com ambos os países, mas não queremos fazer quaisquer acordos comerciais com nenhum deles se estiverem em conflito - e eu disse-lhes isso!", disse Trump, a 26 de julho. "O Presidente da paz" Anunciado o cessar-fogo, Trump voltou a falar com os dois governantes e reclamou os louros da trégua. "Já acabei com muitas guerras em apenas seis meses - tenho orgulho em ser o Presidente da PAZ!", escreveu na sua rede Truth Social, a 28 de julho. Voltada a página do conflito, Trump anunciou tarifas de 19% para Tailândia e Camboja (ameaçava impôr 36%) e ouviu o vice-primeiro-ministro cambojano, Sun Chanthol, dizer que iria propor o nome de Trump para o Nobel da Paz. "Ele deveria receber o Nobel, não só pelo seu trabalho no Camboja, mas também noutros locais." ISRAEL E IRÃO A 13 de junho, o conflito no Médio Oriente subiu mais um patamar na escalada com o início de bombardeamentos de Israel ao Irão. Trump associou-se à ofensiva e afirmou: "Há dois meses, dei ao Irão um ultimato de 60 dias para fechar um acordo. Eles deveriam ter feito isso! Hoje é o 61.º dia. Eu disse-lhes o que fazer, mas eles simplesmente não conseguiram. Agora, talvez tenham uma segunda oportunidade!" Após onze dias de bombardeamentos israelitas contra instalações nucleares, responsáveis militares e cientistas do programa nuclear, os Estados Unidos entraram em cena e alvejaram os complexos iranianos de Fordow, Natanz e Isfahan. O Irão retaliou sobre a base americana de Al Udeid, no Catar. Trump desvalorizou, disse tratar-se de "uma resposta muito fraca" e até agradeceu ao Irão ter avisado os EUA de que iria atacar. Depois, ditou os termos da trégua e batizou a guerra. "Durante o CESSAR-FOGO, cada lado permanecerá PACÍFICO e RESPEITOSO. Partindo do princípio que tudo funcionará como deve ser, o que funcionará, gostaria de felicitar ambos os países, Israel e Irão, por terem a Resistência, a Coragem e a Inteligência para pôr fim ao que deverá ser chamado A GUERRA DOS 12 DIAS", decretou Trump na sua rede social, a 24 de junho. Passado menos de um mês, o primeiro-ministro de Israel fez mais uma visita à Casa Branca. A 7 de julho, ao jantar, na Sala Azul, Benjamin Netanyahu entregou a Trump uma cópia da carta enviada ao Comité Nobel sugerindo o seu nome para Nobel da Paz. "Ele está a forjar a paz enquanto falamos, um país e uma região uma após a outra", disse o israelita, enquanto entregava a carta ao americano. "Israel ou o Camboja estarem dispostos a propor o nome de Trump mostra uma moeda de troca, a promessa - ou expectativa - de favores futuros, como acesso privilegiado a armamento ou benefícios comerciais", diz Ponte e Sousa. "No fundo, o Nobel torna-se aqui uma peça num jogo geopolítico, um símbolo de alinhamento e de aposta antecipada. E para Trump, seria também uma arma de campanha: provar ao eleitorado que ele é, afinal, o pacificador que os media se recusam a reconhecer, e que a realidade não consegue demonstrar." RUANDA E REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO A 27 de junho, a República Democrática do Congo (RDC) e o Ruanda assinaram, em Washington, um "tratado maravilhoso", como lhe chamou Trump. Entre os dois ministros dos Negócios Estrangeiros (MNE) que rubricaram o documento, estava Marco Rubio, secretário de Estado da Administração Trump (equivalente a MNE), que mediou o processo, juntamente com o Catar e a União Africana. Através deste acordo de paz, o Ruanda comprometeu-se a suspender as "medidas defensivas" no país vizinho, como rotulou o apoio que dava aos rebeldes do M23, que ocupam uma grande extensão no leste da RDC. "Com o apoio contínuo dos EUA e de outros parceiros, acreditamos ter alcançado um ponto de viragem", reconheceu o chefe da diplomacia ruandesa, Olivier Nduhungirehe. No mesmo dia, Trump recebeu os dois governantes africanos na Sala Oval. "Sob a liderança do Presidente dos EUA, ultrapassámos 30 anos de matança e guerra... e estamos agora no caminho da paz", disse, no momento, o vice-presidente americano, J.D. Vance. A 20 de junho, na Truth Social, Trump voltou a pôr o dedo na ferida que muito o apoquenta: "Este é um Grande Dia para África e, francamente, um Grande Dia para o Mundo! Não vou ganhar um Prémio Nobel da Paz por isso", disse. "Não receberei um Prémio Nobel da Paz, independentemente do que faça." ÍNDIA E PAQUISTÃO Desde a independência, na década de 1940, Índia e Paquistão já travaram três grandes guerras. A cada nova altercação entre estas duas potências nucleares, o mundo teme que a situação se descontrole e um conflito nuclear deflagre. No início de maio, os dois países viveram o pior incidente dos últimos 20 anos, com a Índia a bombardear o Paquistão, em retaliação por um ataque que matou 26 turistas indianos na zona da Caxemira, a 22 de abril. A 10 de maio, as partes aceitaram pousar as armas. "No sábado, o meu governo ajudou a intermediar um cessar-fogo total e imediato - creio que permanente - entre a Índia e o Paquistão, pondo fim a um conflito perigoso entre duas nações com muitas armas nucleares", afirmou Trump, dois dias depois. Num artigo sobre como a trégua foi alcançada, a agência Reuters noticiou que, a dado momento, o secretário de Estado Rubio empenhou-se numa "maratona de diplomacia telefónica" com responsáveis indianos e paquistaneses. Segundo o jornal "The Times of India", também o vice-presidente Vance, tentou falar com Modi, sem sucesso. Índia não, Paquistão sim O papel de Washington no desfecho desta crise não é consensual. A 18 de junho, o ministro indiano dos Negócios Estrangeiros, Vikram Misri, esclareceu: "As negociações para o fim da ação militar decorreram diretamente entre a Índia e o Paquistão, através dos canais militares existentes, e por insistência do Paquistão. O primeiro-ministro Modi enfatizou que a Índia não aceitou a mediação no passado e nunca aceitará", acrescentou. Do lado paquistanês, há hesitações na anáIise à atuação de Trump. Cinco dias após o cessar-fogo, em entrevista à Al-Jazeera, o MNE do Paquistão, Ishaq Dar, rejeitou as alegações de que os EUA impuseram a trégua. Já a meio de junho, quando a guerra das tarifas estava ao rubro, o Paquistão anunciou que ia propor o nome de Trump ao comité Nobel pela sua "grande visão estratégica e excecional habilidade política". EGITO E ETIÓPIA Estes dois países africanos não têm uma guerra aberta entre ambos, mas há um grande problema a minar a relação bilateral: a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), a maior hidroelétrica da África, construída pela Etiópia no Nilo Azul e que deverá ser inaugurada este ano. Motivo de orgulho para a Etiópia, constitui uma grande dor de cabeça para o Egito, quase totalmente dependente da água do rio Nilo. Segundo o jornal em língua árabe "Al Araby Al Jadeed", o Egito rejeitou uma proposta da Administração Trump que passaria por uma "intervenção decisiva" para acabar com a disputa em torno da barragem do Nilo, na Etiópia, se o Egito permitisse que Israel deslocasse a população da Faixa de Gaza para a zona de Rafah, junto à fronteira com o Egito, que rejeitou o plano. SÉRVIA E KOSOVO Trump reivindica que deveria receber um Nobel "por travar a guerra entre a Sérvia e o Kosovo". Foi no seu primeiro mandato que os dois países assinaram tratados de normalização económica, na Sala Oval da Casa Branca, a 4 de setembro de 2020. Em junho passado, na sua rede social, Trump voltou a esses tempos: "Durante o meu primeiro mandato, a Sérvia e o Kosovo entraram em confronto feroz, como já acontecia há décadas, e este conflito de longa data ameaçava transformar-se em guerra. Eu impedi-o. Biden prejudicou as perspetivas a longo prazo com algumas decisões muito tolas, mas vou corrigir isso outra vez!" Ainda relativamente ao seu primeiro mandato, Trump pode reclamar os créditos pelos Acordos de Abraão, uma iniciativa diplomática através da qual conseguiu que quatro países árabes - Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Marrocos e Sudão - normalizassem a relação diplomática com Israel. "Deviam dar-me o Prémio Nobel pelo Ruanda. E se olharem para o Congo, ou posso dizer Sérvia, Kosovo, posso dizer muitos deles. Os grandes são a Índia e o Paquistão. Eu devia ter ganho quatro ou cinco vezes", disse Trump recentemente. "Penso que os Acordos de Abraão também seriam bons", acrescentou. Mas "não me vão dar um Prémio Nobel da Paz, porque só o dão a liberais". Pacificar a Ucrânia "em 24 horas" Antes de ser reeleito para um segundo mandato, Trump disse que, se fosse Presidente, acabaria com a guerra na Ucrânia "em 24 horas", ainda antes de assumir funções. Não o conseguiu e, crescentemente, "tem abandonado uma postura construtiva e adotado um discurso cada vez mais belicista, com cada vez maior frustração pela resolução do conflito ser mais difícil do que tinha prometido", diz Ponte e Sousa. "Relativamente ao genocídio de Israel em Gaza, Trump continua firmemente ao lado da potência ocupante, e foi o principal instigador de um possível alargamento e aprofundamento da guerra, com os ataques ilegais e injustificados ao Irão, que são uma luz verde para crescentes incumprimentos do direito internacional por parte de todos os outros Estados", acrescenta. "Trump tem apostado sistematicamente num esvaziamento das ferramentas da diplomacia e negociação, como os despedimentos em massa no Departamento de Estado, a implosão da USAID e o afastamento de iniciativas multilaterais e cortes severos no financiamento à ajuda internacional. E, por fim, uma política comercial protecionista que vai acelerar tensões e conflitos." Na entourage do Presidente dos EUA, há quem considere que a forma como Trump fez das tarifas aduaneiras uma arma política - e com ela ameaçou lançar o caos no mundo dos negócios - é merecedora de reconhecimento. Recentemente, numa entrevistado no canal Fox Business, Peter Navarro, conselheiro da Casa Branca para a área comercial, afirmou: "Sabe, muita gente fala de Donald Trump como candidato ao Prémio Nobel da Paz. Penso que, como ele basicamente ensinou economia do comércio mundial, pode ser candidato ao Nobel da Economia". Margarida Mota Jornalista Margarida Mota