DEZ REGRAS INCOMPLETAS PARA UMA ENGENHARIA SUSTENTÁVEL
2025-08-09 21:07:34

Ensinaram-nos, no meu caso já depois da faculdade, que a sustentabilidade é um conceito complexo, que tem na sua origem uma ideia de permanência, e que tenta criar dependências entre três variáveis distintas e em escalas também diversas; o progresso económico, o bem-estar social, a preservação dos valores ambientais. Associado ao conceito anterior, vem o de desenvolvimento sustentável; crescer, sem pôr em causa os recursos das gerações futuras nem explorar as regiões vizinhas. Mais tarde a Agenda 20-30 que define 17 ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) numa ordem que será sempre discutível, mas onde, logo à cabeça, coloca, e bem, a erradicação da fome e da pobreza. Não tenho grandes dúvidas que é a nossa espécie que está a colocar o equilíbrio do planeta em risco com a vontade de dar conforto a uma população que não para de crescer, mas tenho a maior das dúvidas que o problema se resolva se não dermos bem-estar a essa população. Acho, até, que tudo pode ficar pior se sonharmos com a regressão; temos é de saber usar no futuro ferramentas diferentes das do passado. Também não tenho grandes dúvidas que o desequilíbrio ambiental é filho do capitalismo. Mas não acredito que o fim do capitalismo traga nada de bom para a causa ambiental. No espaço que me oferecem (e que eu agradeço) não poderei escrever muitas coisas de diagnóstico. Ficam algumas: O planeta chegou ao final do ano passado com a temperatura a ter aumentado 1,5 graus em comparação com o tempo da revolução industrial; | Apenas 40% das massas de água na União Europeia se encontram em bom estado; | A diminuição dos polinizadores tem diminuído severamente a produção agrícola; | Diz O Fórum Mundial que a previsão para a quebra de receitas das empresas, em consequência das alterações climáticas, é de 7% ao ano, ou seja, um COVID em cada dois anos. Repito que não me parece mesmo que recuar seja a solução, por isso, teremos de saber fazer um novo caminho de geração de riqueza, mas desta vez sem emissões carbónicas, regenerando recursos e não desafiando os limites do nosso planeta. Neste conjunto de objetivos, os engenheiros são essenciais. Não se trata de nos dedicarmos ao elementar ou a reinventar uma sociedade. Se assim fosse, os filósofos, os físicos e os biólogos levariam vantagem. O que se trata é de recriar produtos sem nunca perder de vista o seu ciclo de vida e de reinventar processos acompanhando a cada passo o seu impacto externo, procurando que este seja positivo. Trata-se de saber usar soluções de base natural para resolver problemas. Trata-se de ter uma visão crítica sobre a tecnologia e rejeitando as vantagens efémeras construídas à custa de mais emissões e mais materiais. Imagino que este artigo, se tiver leitores, estes serão engenheiros e engenheiras. Para tal, quero deixar claro que este não é um elogio à classe. Pelo contrário; é um desafio a estes e estas profissionais e sobretudo um exercício de responsabilização. Se somos um país que tem recursos renováveis para gerar 100% da eletricidade que consome, porquê importar fóssil? Se somos um país onde a população não vai crescer, porquê não olhar as construções abandonadas como bancos de materiais para novas construções? A energia, os materiais, as novas formas de gestão com responsabilidade ambiental devem mesmo ser o alfa e o ómega da atividade dos engenheiros. E tudo começa no projeto. Eu sei que um engenheiro é um profissional que resolve problemas. Mas não é um handyman (como eles fazem falta) e deve ser treinado para pensar bem antes de agir. E a primeira pergunta que devemos fazer a nós próprios como engenheiros quando colocados perante um problema é: i. “Será que isto se resolve se eu não fizer nada?” Acreditem. Se se resolver, dificilmente o cliente nos pagará, mas a solução será sempre a mais sustentável de todas; ii. Se não fazer nada não resolver o problema, tentemos usar soluções de base natural (NBS). Há engenharias onde isto é quase impossível, mas na engenharia civil, a minha, é possível. O trabalho de recuperação de margens de rios e ribeiras que está levado a cabo no nosso País, que se aproxima dos 2.000 km de extensão, já não é feito com betão, mas com NBS. E O resultado hidráulico é meIhor do que se tivesse havido artificialização das margens; iii. Por fim, se fazer nada ou usar NBS não forem solução, então que se explorem metodologias sustentáveis. E o que quer isto dizer? Ser sustentável, neste contexto específico, quer dizer, procurar soluções que limitem ao máximo a introdução de novos materiais no sistema e assegurar que a energia despendida nos processos tem origem renovável. Este conjunto de soluções terá de ser temperado pela nossa realidade territorial e também pela história que em conjunto escrevemos, com partes boas e más, cabendo aos engenheiros interpretar todos esses factos. Pensemos em dez regras possíveis para quem quer conceber soluções sustentáveis em Portugal: 1. Conhecer a exiguidade de rede de transmissão elétrica. Devemos mesmo investir em soluções que evitem o uso da rede, apostando na criação de comunidades energéticas e de autoconsumo. A proximidade é um valor dentro da sustentabilidade; 2. Perceber a pegada ambiental da transição energética. Por muito bem-intencionada que possa ser, a geração de eletricidade a partir de fontes renováveis tem impactos no território que terão de ser devidamente avaliados. Já bastam os economistas que sempre negligenciaram o espaço ou os políticos que aprovam alterações à lei de solos, olhando para o território como se fosse uma pátria onde acontecem coisas e não a principal razão para essas coisas que acontecem; 3. Saber que eletrificação e descarbonização não são sinónimos. E verdade que um país mais descarbonizado é um país mais eletrificado, mas com os consumos industriais que temos, não vamos conseguir deixar de usar gás nos anos mais próximos e para tal é essencial que esses gases sejam renováveis; 4. Dizer “não ao descartável”. E inaceitável que continuemos a usar materiais indestrutíveis como o plástico para produzir bens que têm o propósito de ser deitados fora; 5. Ter uma visão de ciclo de vida do produto. Não colocar no mercado sem a certeza de que se conhece um destino para o final do usO. Projetar para durar mais tempo, ser reparável, ser reutilizável e, no mínimo, ser reciclável; 6. Desenvolver um sentido crítico sobre a digitalização. Não esquecer nunca que a digitalização é um enorme consumidor de materiais e energia, ao ponto de ser inevitável o recurso ao nuclear para alimentar os servidores da inteligência artificial; 7. Apostar numa verdadeira gestão de ativos. Não substituir por ser moda ou até mais eficiente. O que quer que venhamos a substituir vai ter um custo energético e de materiais que tem de saber ser ponderado; 8. Pensar a sustentabilidade ao longo de toda a cadeia logística e não apenas na pequena parcela de cada um. Olhar para os materiais que nos entram em obra e perceber as emissões que geraram, ou para as componentes baratas e conhecer em que condições foram produzidas (entre muitos outros exemplos possíveis); 9. Apostar na versatilidade em todas as novas criações. (Tal como a proximidade, a versatilidade também faz parte da sustentabilidade). De um edifício ao mais pequeno dos objetos, devem os engenheiros ser capazes de o conceber para ter o mais alargado número de funções possível, ganhando na poupança de materiais e energia o que se poderá perder em funcionalidade. Havia uma décima, mas não me atrevo a comparar-me a quem escreve mandamentos. Escrevo, em jeito de “moral", que quase sempre que ouço colegas a oporem-se a visões parecidas como esta que aqui vos trago, fico com a sensação de que eles sabem tudo, mas não perceberam nada. | JOÃO PEDRO MATOS FERNANDES INSTITUTO DO CONHECIMENTO JOÃO PEDRO MATOS FERNANDES