HISTÓRIA - OS 130 ANOS DA SKODA
2025-08-12 21:07:00

HOJE E UMA DAS MARCAS MAIS IMPORTANTES DO GRUPO VOLKSWAGEN, MAS A HISTÓRIA DA SKODA COMEÇOU HÁ MUITO TEMPO. UMA VIAGEM QUE COMEÇOU HÁ MAIS DE UM SECULO ? QUE PASSOU POR QUASE TODAS AS ÁREAS DA INDÚSTRIA AUTOMôVEL. TUDO COMEÇOU COM UM CLIENTE INSATISFEITO... A Skoda Auto foi fundada em 1925 na Chéquia, com sede em Mladá Boleslav. Comemora assim o seu centenário este ano, mas a história da empresa tem raízes com mais trinta anos, por isso a marca comemora agora em 2025 os seus 130 anos de vida. A Skoda Works foi fundada em 1859 pelo engenheiro checo Emil von Skoda, em Pizên, então no reino da Bohemia, do Império Austro-Húngaro. Era inicialmente um produtor de armas, um dos maiores da Europa nessa altura, nada tinha a ver com mobilidade. Em 1894, Václav Klement de 26 anos, que era um comerciante de livros em Mladá Boleslav, confrontou-se com um problema comum a muitos cidadãos que viviam na mesma cidade nessa altura, a falta de peças de substituição e reparação para a sua bicicleta alemã, o meio de transporte individual por excelência na cidade. Sem outra solução, Klement enviou de volta a bicicleta aos fabricantes, Seidel e Naumann, acompanhada de uma carta, escrita em checo, a pedir para serem feitas as reparações necessárias. Os construtores da bicicleta responderam, numa carta escrita em alemão, dizendo que “se quer uma resposta nossa, insistimos que nos envie uma carta escrita numa lingua que nós entendamos.” Claro que Klement não gostou desta resposta e ao mesmo tempo percebeu que existia aqui uma oportunidade de negócio. Apesar de não ter nenhuma experiência técnica, em 1898 decidiu abrir uma loja de reparação de bicicletas com o seu sócio Václav Laurin. BICICLETAS FORAM O INíCIO Laurin era um reputado construtor de bicicletas, com fábrica na povoação vizinha de Turnov. Em 1895, depois de mudar o seu negócio para uma nova fábrica, os dois associaram-se para formar a Laurin & Klement, para produção de bicicletas e velocípedes. Foi o início da atividade na área da mobilidade, há exatamente 130 anos, o momento fundador da Skoda como produtor de “sistemas de mobilidade”, se bem que na altura ninguém usasse este tipo de expressões. Isto porque, em paralelo às bicicletas, os dois sócios já investigavam outras áreas, tendo adquirido um velocípede Werner “Motocyclette” para estudar como fabricar uma bicicleta com motor. Este modelo da Werner tinha um motor montado no guiador que tracionava a roda da frente. Era uma solução muito compacta e teoricamente inteligente, mas a prática veio demonstrar que não era bem assim. Num dos primeiros testes de estrada, com Laurin a guiar, o engenho revelou-se perigoso e pouco fiável terminando com uma queda que partiu um dente a Laurin. Este desfecho levou Laurin a pensar que seria melhor desenhar um quadro à volta do motor, e com este a mover a roda traseira, não a da frente. Para obter um sistema eletromagnético mais eficiente, resolveu escrever a Robert Bosch, especialista em ignições, pedindo conselhos. O trabalho de projeto da nova bicicleta com motor demorou pouco mais de um ano até a Slavia ser apresentada e a produção começar em 1899. Rapidamente, a fábrica de Laurin & Klement ascendeu ao primeiro lugar entre as fábricas de motociclos na Europa Central. No ano seguinte, 1900, a companhia tinha um total de 32 trabalhadores e começou a exportar a Slavia, com uma primeira carga de 150 unidades enviadas para Londres, para a empresa Hewtson. A imprensa local considerou a Slavia como o primeiro verdadeiro motociclo. ENTRADA NOS AUTOMõVEIS No virar do século, vivia-se um clima de efervescência em tudo o que se relacionava com mobilidade. Depois das bicicletas e dos motociclos, a Skoda virou-se para os automóveis, logo em 1905. Foi a segunda marca a entrar nesta aventura na Chéquia, depois da Tatra ter sido a pioneira no país. Por esta altura Laurin & Klement já detinham umas instalações com 7800 metros quadrados e 320 empregados que operavam 170 máquinas especiais. o primeiro automóvel, a Voiturette A, foi um sucesso, posicionando a empresa como um credível fabricante de automóveis, tanto no Império Austro-Húngaro como a nível internacional. Depois da primeira guerra mundial, a Laurin & Klement começou a produzir veículos pesados, mas em 1924 a fábrica foi atingida por um incêndio que lhe causou problemas financeiros. Isso levou a que tivesse que procurar um novo parceiro. Pela mesma altura, a Skoda Works, na altura já o maior grupo industrial do país, procurava expandir a sua produção para lá das armas, numa altura que se adivinhava um período de paz e prosperidade, propício à subida do consumo. A decisão de comprar a Laurin & Klement parecia uma boa oportunidade para ambas as partes e foi de imediato concretizada em 1925. Ao mesmo tempo, a Skoda Works começou a fabricar alguns carros em colaboração com a Hispano-Suiza. Comum a todos os automóveis fabricados, o nome Skoda e o novo símbolo da Skoda Auto. Uma nova linha de montagem foi inaugurada em 1930 para produção de automóveis. No mesmo ano foi fundada uma “spin-off” dedicada aos automóveis, a ASAP, uma empresa subsidiária da Skoda Works, continuando a vender automóveis com a marca Skoda. Por esta altu-ra, a fábrica de Mladà Boleslav já cobria uma área de 215 000 m2 e empregava 4 250 empregados. Em 1932, a ASAP-Skoda apresentou um protótipo do modelo Skoda 932.com carroçaria aerodinâmica, quatro lugares, duas portas com motor posicionado atrás do eixo traseiro e refrigerado a ar, com quatro cilindros horizontais opostos. Um conceito que seria visto noutra marca bem conhecida da Alemanha... RENOVAçâO E GUERRA A depressão económica do início dos anos 1930 não poupou a Skoda, mas serviu para conceber uma gama de novos automóveis, muito diferentes dos que produzira até então. Tudo começava com um novo tipo de chassis com uma “espinha dorsal” central tubular e suspensão independente às quatro rodas, inspirado no trabalho de Hans Ledwinka da Tatra. O chefe de engenaria da Skoda, Vladimir Matous, aplicou o conceito pela primeira vez no Skoda 420 Standard em 1933. O objetivo era aumentar a rigidez estrutural, face ao tradicional chassis de longarinas e travessas. Este novo tipo de chassis serviu de base a modelos como as primeiras gerações do Popular, Rapid, Favorit e Superb. Esta nova linha de modelos levou a Skoda de terceiro para primeiro lugar nas vendas no país, superando a Praga e a anterior líder Tatra, alcançando 39% do mercado. A segunda guerra mundial e a ocupação pelas tropas alemãs obrigou a Skoda a mudar radicalmente de produção. Em vez de automóveis para a sua população, passou a fazer componentes para veículos militares, componentes para aviões militares e componentes para armas. A produção de veículos desceu de 7052 unidades, em 1939, para apenas 683 unidades, em 1944, dos quais apenas 35 eram veículos de passageiros. As forças aéreas do Reino Unido e dos EUA bombardearam a fábrica da Skoda repetidamente, entre 1940 e 1945, sendo o último e grande ataque efetuado a 25 de Abril de 1945, resultando na quase total destruição da produção de componentes militares e a morte de mais de mil pessoas. Isso não impediu que, no imediato pós-guerra a fábrica de Mladá Boleslav tivesse sido reconstruída e pronta a trabalhar logo em julho de 1945. O primeiro modelo a sair da linha de produção foi o 1101, uma versão atualizada do Popular da pré-guerra. A ERA COMUNISTA No outono de 1948, a Skoda e os outros grandes construtores do país, foram integrados no plano económico comunista. Isso levou a que a marca Skoda fosse separada da Skoda Works. Os técnicos da Skoda foram aos poucos perdendo o contacto com os seus homólogos do Ocidente e ficaram para trás em termos de evolução dos seus automóveis. O regime político também não tinha o transporte individual como prioridade. Ainda assim, a Skoda conseguiu manter uma boa reputação até aos anos 1960, produzindo modelos como o Spartak 440, Octavia 445, Felicia e 1000 MB. A partir de 1957, o Octavia e depois O Felicia começaram a ser exportados para os EUA, numa altura em que alguns consumidores procuravam automóveis pequenos. Mas, no contexto da Guerra Fria, os Skoda foram mal recebidos e os concessionários que aceitaram vendê-los não tinham condições para lhes prestar a necessária assistência, nem fazer reparações. Desde 1967 que a Skoda não vende automóveis nos EUA. Na segunda metade dos anos 1980, a Skoda ainda vendia automóveis baseados nos conceitos técnicos dos anos 1960, com o objetivo de conseguir atrair compradores dos segmentos mais baratos do mercado. Curiosamente, modelos como O Rapid e 150/120 continuaram a vender razoavelmente durante algum tempo e até conseguiam resultados de relevo nas categorias de menores cilindradas na competição, nomeadamente nos ralis. Só no RAC, O rali de Inglaterra do WRC, a Skoda venceu a sua classe nada menos do que 17 vezes consecutivas, claro que beneficiando também da escassa concorrência. Esses sucessos decerto tiveram efeito nas vendas, que mantiveram uma forte resiliência em alguns países da Europa nos anos 1980. Em 1987, foi lançado o Favorit, desenhado por Bertone mas mantendo o motor 1289 cc da Skoda, se bem que melhorado no Ocidente. Foi um projeto ambicioso e que envolveu todo o know-how dos engenheiros checos. O objetivo era projetar um “hatchback” ao estilo do que se fazia na altura na Europa Ocidental e o resultado não ficou muito longe. Apesar de as performances não serem brilhantes, O Favorit criou uma fama de resistência e fiabilidade que, junto aos preços baixos, lhe dava um claro apelo junto de alguns compradores. Esteve à venda até 1994. ENTRE RENAULT E VW Com a queda do muro de Berlim e do regime político comunista que liderava a Chéquia, muitos setores da economia foram privatizados, incluíndo a Skoda. O processo começou com ofertas de “joint-ventures” de várias marcas Ocidentais, tais como a BMW, GM, Renault, Volvo, vw, Ford, Fiat e Mercedes-Benz em agosto de 1990. De todas estas a decisão final ficou entre a Renault e a vw. A Renault começou por propôr acabar com a produção do Favorit e substitui-la pelo fabrico do ultrapassado Renault 18, para alguns mercados da região e do novo Twingo, eliminando a marca Skoda. Esta oferta foi declinada e os franceses fizeram outra: uma joint venture de 60/40 (40% para a Renault), manter o Favorit em produção ao lado do Renault 19, e fazer motores e caixas de velocidades para outros Renault. Investimento total no equivalente atual a 6 mil milhões de dólares. Do lado da Volkswagen, a oferta era também de continuar a produção do Favorit, preservar a marca Skoda, incluíndo a continuação do seu departamento de pesquisa e desenvolvimento. A VW propunha comprar 30% da Skoda, inicialmente e subir até aos 70%. Investimento total no equivalente atual a 16 mil milhões de dólares, até 2000. O governo preferia a Renault, mas os sindicatos preferiam a vw, pois mantinha mais postos de trabalho qualificados. A 9 de dezembro de 1990, a vw foi anunciada como a escolhida e em março do ano seguinte a “joint venture” foi assinada. O plano de compra de ações pela vw decorreu como planeado e em 2000, a vw comprou mesmo o restante das ações, ficando como única acionista da Skoda. Foi a maior revolução na história da Skoda, não só em ter-mos financeiros, como de pesquisa e desenvolvimento e, claro, de produto. Logo a começar pelo Felicia de 1994, que era um super-restyling do Favorit, mas com uma subida de qualidade assinalável. A ERA VOLKSWAGEN A grande mudança no produto começou com as primeiras gerações do Fabia e Octavia, que partilhavam as plataformas, respetivamente, do Polo e do Golf. O nível de engenharia e de qualidade dava um passo de gigante ao mesmo tempo que o estilo posicionava os modelos na vanguarda dos seus segmentos, ou não tivesse sido da responsabilidade do estilista Dirk van Braeckel. A perceção da Skoda mudou por completo desde que integrou o grupo vw, um dos seus anos mais importantes foi 2010, quando foi decidido expandir a marca e apontar para uma duplicação da produção até aos 1,5 milhões de unidades por ano em 2018. Também em 2010, a China foi o país onde a Skoda vendeu mais automóveis. De uma forma regular, seguindo o ritmo habitual do grupo, os modelos da Skoda foram sendo substituídos por novas gerações, acompanhando o que acontecia com os modelos da Volkswagen. A Skoda passou a estar sempre na vanguarda tecnológia do grupo. A gama de produtos alargou-se ao mesmo ritmo, com modelos como o citadino Citigo, parte de um projeto que incluiu também a vw e Seat. O Superb encontrou no Passat as ferramentas necessárias para se posicionar no topo da oferta e hoje é mesmo a Skoda que lidera o desenvolvimento deste segmento dentro do grupo vw. Pelo meio, foi criado espaço para O Rapid e Scala, com o crescimento sustentado do Octavia. Claro que a Skoda acompanhou o fenómeno SUV, com uma gama de modelos para todos os segmentos mais importantes do mercado, começando pelo utilitário Kamiq, passando pelo Karoq no segmento c e chegando ao Kodiaq, no segmento D. Curiosamente, tudo começou com um modelo único no mercado, que juntava num só modelo as vantagens de um comercial, de um carro de passageiros e de um SUV, o Yeti, lançado em 2013. Quanto à transição energética, a Skoda também acompanha a marca vw nesta frente. Primeiro com os híbridos, seja os “mild hybrid”, seja OS “Plug-in Hybrid”, presentes em várias das suas gamas de modelos. Quanto aos modelos 100% elétricos, a Skoda não ficou para trás. Começou logo em 2021 com o lançamento do Enyaq, um crossover de 4,65 metros, fabricado na Chéquia, disponível em dois tipos de carroçaria e que recebeu um restyling já este ano. Depois continuou com o Elroq, um SUV mais pequeno de 4,49 metros. A Skoda vai também fazer parte de um projeto de citadinos elétricos a fabricar em Espanha que envolve também a vw e a Cupra, já confirmadas, e talvez outras marcas do grupo. Mostrando o seu dinamismo, a Skoda introduziu com O Elroq e logo a seguir com o restyling do Enyaq, uma filosofia de estilo completamente diferente, não só no desenho da frente como até na substituição do tradicional símbolo da marca pela palavra Skoda escrita num tipo de letra específico. Em 1994, a Skoda vendeu 172 000 unidades de um único modelo, o Felicia. Em 2014, ultrapassou pela primeira vez a barreira do milhão de unidades, com 1 037 200 unidades de sete gamas diferentes. Isto, depois de nos dois anos anteriores ter ficado muito perto do milhão. Os anos da pandemia atingiram as vendas da Skoda como de qualquer outro fabricante, mas em 2024 voltou novamente a vender quase um milhão de unidades, divididos por onze modelos diferentes, com O Octavia a continuar a ser o mais vendido da marca, contando com 215 716 unidades entregues em 2024. Quando a Skoda integrou o universo da vw, alguns pensaram que a marca da Chéquia seria a produtora de modelos “low cost” do grupo. Mas esse nunca foi o plano da Volkswagen, que apostou desde início na forte imagem que a Skoda criou no Norte da Europa e depois aproveitou bem o fenómeno da abertura do mercado chinês. Hoje, a Skoda tem um posicionamento como marca de boa qualidade, com uma gama cheia de pequenas ideias práticas a que chama “simply clever” e modelos que geralmente excedem as expetativas dos seus compradores. // HISTôRIA 130 ANOS SKODA 0 PRIMEIRO AUTOMoVEL L8K, 0 VOITURETTE A, FOI UM SUCESSO, POSICIONANDO A EMPRESA COMO UM CREDiVEL FABRICANTE DE AUTOMiVEIS A SKODA WORKS FOI FUNDADA EM 1859, NO REINO DA BOHEMIA, PELO ENGENHEIRO CHECO EMIL VON SKODA, INICIALMENTE PRODUTOR DE ARMAS. NA FOTO a DIREITA, COM 0S DOIS VaCLAV, 0 LAURIN E 0 KLEMENT NO OUTONO DE 1948, A SKODA FOI INTEGRADA NO PLANO ECONâMICO COMUNISTA. 0s TÉCNICOS DA SKODA FORAM AOS POucOS PERDENDO 0 CONTACTO COM OS SEUS HOMILOBOS DO OCIDENTE, ANDANDO PARA TRÁS. A 9 DE DEZEMBRO DE 7990, A VW FOI ANUNCIADA COMO A L ESCOLHIDA PARA COMPRAR A SKODA E EM MARçO DO ANO SEGUINTE A "JOINT VENTURE” FOI ASSINADA. O ELETRICO ELROQ E l MAIS RECENTE ELEMENTO DA FAMÍLIA CHECA Francisco Mota