OS CARREGADORES QUE SE MONTAM COMO LEGO
2025-08-14 21:05:45

Foi distinguida como a startup com o crescimento mais acelerado na região EMEA. A portuguesa i-charging desenvolve carregadores para veículos eléctricos com um design modular e uma maior eficiência energética Sabia que a startup tecnológica com maior ritmo de crescimento da região EMEA (Europa, Médio Oriente e África) é portuguesa? A i-charging, empresa portuense especializada em soluções de carregamento para veículos eléctricos, ocupa o primeiro lugar do ranking Technology Fast 500 EMEA, divulgado pela consultora Deloitte, registando uma taxa de crescimento de 65.881% em apenas quatro anos (2020 a 2023). Com um volume de negócios que rondou os 41 milhões de euros no ano passado, a i-charging desenvolve carregadores inteligentes que já alimentam veículos eléctricos em cerca de 40 mercados em todo o mundo. O segredo para o crescimento da empresa nestes últimos anos - além de que a base de partida era quase nula, ou não tivesse sido fundada em 2019 - reside numa proposta de valor diferenciada no mercado da mobilidade eléctrica. As suas soluções de carregamento rápido e ultra-rápido combinam um design modular com uma gestão inteligente da energia, através de uma tecnologia patenteada de alocação dinâmica, que permite distribuir a potência de forma flexível e adaptável às necessidades de cada utilizador e de cada veículo, em tempo real. Os carregadores da gama Blueberry, os primeiros a serem lançados, têm uma potência de saída entre 50 e 900 kW (kilowatts), podendo ser utilizados por quatro veículos eléctricos em simultâneo, além de serem compatíveis com cinco standards de carregamento. Devido à tecnologia de alocação dinâmica, o Blueberry fornece a potência necessária a cada veículo ligado, o que se traduz numa redução do tempo de carga e, consequentemente, dos custos. Esta é uma solução pensada sobretudo para o canal de empresas (frotas) ou para outros locais onde existem vários carregadores, como centros comerciais ou bombas de combustível. Desenvolvemos um conceito de modularidade que vai muito além da parte de conversão de potência. Com as mesmas peças, o mesmo software, a mesma usabilidade, o mesmo look and feel, o cliente pode construir qualquer carregador. Como se fosse um LEGO , explica Pedro Moreira da Silva, CEO e fundador da i-charging. Isto significa que, apesar de os carregadores da marca terem até 900 kW de potência, os clientes podem adaptar as soluções de carregamento - como a potência, número de saídas ou de satélites - às suas necessidades presentes e acrescentar novas unidades mais tarde, se precisarem. A grande diferenciação que temos é esta flexibilidade de configuração, que permite optimizar, quer o investimento inicial, quer o custo de operação. O que acontece muitas vezes em áreas com vários carregadores é que não existe potência disponível na rede de alimentação para funcionarem todos ao mesmo tempo à potência máxima. Então, aquilo que se faz é limitar a potência. O que isso significa, na prática, é que acabamos por ter uma potência instalada muito superior àquela que alguma vez vamos poder usar. Com o nosso conceito de alocação dinâmica, os clientes podem investir apenas na potência que precisam , explica. Além disso, com esta solução não precisam de esperar que a carga num veículo acabe para iniciarem o carregamento de outro veículo. Além de tudo isto, têm um design diferenciador (em preto) e um sistema automático de gestão de cabos que evita que os mesmos toquem no chão. O ecrã de 32 polegadas permite escolher diferentes configurações de carregamento (por exemplo, limitar a potência ou o tempo) e acompanhar todo o processo, mas também pode veicular campanhas publicitárias ou outros conteúdos multimédia. Conseguimos criar campanhas em que carregamos os vídeos nos dias e horas em que queremos que passem e enviamos remotamente para todos os carregadores que estejam ligados à rede em qualquer ponto do mundo , explana Isabel Lima, directora de Marketing da i-charging. Além disso, os carregadores da marca são compatíveis com Plug & Charge (tecnologia de pagamento automático) e outros meios de pagamento e autenticação. ELECTRIFICAR O MUNDO A i-charging foi fundada por Pedro Moreira da Silva em 2019, juntamente com outros sócios que actualmente não estão na empresa. Engenheiro de formação, o gestor esteve mais de três décadas na Efacec, onde foi director-geral de Mobilidade Eléctrica. Quando saiu, em finais de 2018, decidiu perseguir o sonho de criar uma empresa de raiz. Tinha esse sonho cá dentro e decidi explorar essa possibilidade com os outros fundadores. Em Março de 2019 já tínhamos em cima da mesa algumas propostas de investidores para financiar a empresa. Acabámos por optar por uma delas e assinámos o contrato em Julho. Foi então que começámos a juntar a equipa , recorda. No início de 2020, a pandemia de Covid-19 haveria de condicionar a fase de arranque da empresa, mas o foco manteve- se no desenvolvimento dos primeiros produtos da família Blueberry, que seriam apresentados ao mercado no segundo semestre do ano - na altura, com uma potência máxima de 600 kW -, depois de obtidas as primeiras certificações, com a produção e as primeiras entregas a darem-se no ano seguinte. A partir daí foi o crescimento que se vê, e hoje estamos presentes em todos os continentes, em cerca de 40 países , explana Pedro Moreira da Silva. Quanto ao investimento total na empresa, até ao momento, ronda os 14 milhões de euros, um montante muito abaixo dos principais concorrentes da empresa à escala global, ressalva. Além do foco em atingir as mais variadas certificações no sector da mobilidade eléctrica (por exemplo, relacionadas com os diferentes standards de carregamento), a empresa teve desde o início como prioridade proteger a sua tecnologia. O que nós fizemos não existia. Foi tudo do zero. Submetemos as patentes da tecnologia, uma delas já nos foi atribuída nos EUA - na Europa ainda está a decorrer o processo, mas acreditamos que também vai acabar por ser atribuída , frisa Isabel Lima. Hoje, a i-charging está sediada no Porto (na Av. Marechal Gomes da Costa) e tem a sua unidade de produção localizada no município de Matosinhos. Estamos a avaliar a possibilidade de expandir a produção para outros países, mas ainda não é o momento para o fazer , adianta Pedro Moreira da Silva. A estas infra-estruturas junta-se um centro de testes na Maia, onde é feita toda a parte de prototipagem e testes térmicos. A empresa conta ainda, desde 2021, com um escritório no estado de Georgia, EUA, onde grande parte da equipa está alocada aos departamentos Comercial e de Apoio ao Cliente. Só em 2023 é que conseguiu obter as primeiras certificações no mercado norte-americano, um dos mais exigentes a este nível. Contudo, hoje os EUA são o primeiro mercado da i-charging. A empresa conta ainda com uma rede de parceiros espalhados pelos cinco continentes. Na Europa, tem uma presença consolidada em mercados como Inglaterra, França, Polónia, Espanha ou Alemanha; na América Latina, em países como o México ou o Brasil; e também em geografias mais lonquínquas, como a Austrália e Médio Oriente. Estamos agora a começar a explorar outras geografias, nomeadamente no Sudeste Asiático, e a reforçar também a nossa presença nalguns países da Europa , revela o CEO. As distinções obtidas pela empresa, como a liderança no ranking da Deloitte, contribuíram para uma maior visibilidade e para alavancar este plano de expansão. APOSTA NOS VEÍCULOS PESADOS Além da gama Blueberry, a i-charging apresenta um portefólio completo para quase todos os segmentos de mercado. Em Setembro passado, lançou o i-Light, uma solução de carregamento pensada para veículos eléctricos pesados de mercadorias, que cumpre a norma padrão para este segmento na Europa, designada MCS (Megawatt Charging System). Estes equipamentos têm uma potência de saída de 1.5 MW (megawatts) e podem carregar até seis veículos em simultâneo. Podem ser colocados a uma altura mais elevada e apresentam um ecrã transparente e mais minimalista que, ao contrário dos ecrãs do Blueberry, não apresentam publicidade. Fomos os primeiros a lançar um carregador desenvolvido in-house, completamente do zero, para MCS. Vimos aqui uma oportunidade de electrificar os veículos pesados, porque, na Europa, os motoristas têm que parar de quatro em quatro horas, durante 45 minutos, e têm rotas definidas , refere Isabel Lima. Lançámos esta solução numa feira em Hanover (Alemanha) e até agora tem sido um sucesso. De resto, o segmento dos veículos eléctricos pesados de mercadorias é encarado como um dos mais preponderantes para o futuro da i-charging, até porque a União Europeia estabeleceu metas ambiciosas de redução das emissões de CO? dos veículos pesados, que terão que reduzir as emissões em 90% até 2040 (face a 2019). A nossa concorrência está a propor soluções que são muito parecidas com o que se faz para os veículos ligeiros, apenas com mais potência. Nós achamos que o equipamento tem que ser diferente , confirma Pedro Moreira da Silva. Os avanços da empresa neste segmento valeram-lhe, este mês, o prémio "European Competitive Strategy Leadership", da consultora norte-americana Frost & Sullivan. Para as empresas, a i-charging disponibiliza o e-Flow, uma unidade que é a "inteligência" por detrás dos carregadores, que permite a um motorista autenticar-se e indicar qual a tomada que pretende usar, enquanto, do outro lado, quem está a operar o carregador tem acesso a uma série de informações, como quanta energia foi consumida durante a carga. A empresa conta ainda com outras soluções de gestão energética - por exemplo, para locais públicos, como centros comerciais -, sendo que o segmento residencial é o único onde não está presente. Acabamos por cobrir quase todos os cenários, desde frotas, camiões, furgões, veículos ligeiros e pesados, carregamentos em auto-estrada. Também temos feito vários projectos com frotas de autocarros , explana a directora de Marketing. Os carregadores AC (domésticos) não exigem uma tecnologia diferenciadora. Nós apostamos nas áreas onde podemos trazer uma mais-valia , justifica. Além deste portefólio de produtos, a startup portuense desenvolveu a my i-charging, uma plataforma de manutenção remota dos carregadores que permite fazer diagnósticos à distância, corrigir problemas e instalar actualizações de software. Esta plataforma - que é também a que permite carregar campanhas publicitárias nos ecrãs - é independente e não interfere com a rede privada dos clientes, servindo apenas para garantir o melhor uptime dos equipamentos. Em breve, com recurso a Inteligência Artificial, a plataforma permitirá antecipar problemas.