pressmedia logo

QUANDO FALTAM DADOS E SOBRA IDEOLOGIA

Diário de Coimbra

2025-08-15 08:33:04

Odia da Assunção de Nossa Senhora é celebrado como tempo de renovação, alegria e vida em comunidade. Em Portugal, o 15 de agosto é também marcado pelo Dia do Imigrante em Fátima e por festas de verão que, em grande parte das localidades, reúnem famílias, vizinhos e amigos num momento de reencontro e afirmação cultural. São celebrações que funcionam como expressão identitária de uma comunidade e reforço da sua coesão social. Paradoxalmente, este espírito de pertença e união raramente é transportado para a esfera regulamentar ou para o desenho de políticas públicas (não falo do cariz religioso, mas da capacidade de construção conjunta), onde a fragmentação e a disputa ideológica acabam por ocupar o lugar do diálogo construtivo. As políticas públicas deveriam ser moldadas por dados objetivos e não por disputas ideológicas. No entanto, temas como a disciplina de cidadania nas escolas, o luto gestacional ou a licença de amamentação a partir dos dois anos, tornaram-se palco de uma polarização política que desinforma e afasta o foco do essencial: o bem-estar das famílias e das crianças. Tomemos como exemplo a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Criada com a in-tenção de promover valores democráticos, direitos humanos, igualdade e literacia social, tornou-se, para alguns setores, um cavalo de batalha ideológico. Mas quantas famílias estão realmente satisfeitas com a forma como é lecionada? Existe uma avaliação sistemática da sua aplicação? A realidade nas escolas portuguesas revela disparidades. Eu próprio, com três filhos, observei abordagens distintas em cada uma das experiências esco-lares: conteúdos diferentes, graus de profundidade diversos e pouca estrutura na componente da educação sexual. Enquanto em algumas escolas se limitou a uma abordagem superficial, noutras foram realizados protocolos com centros de saúde que envolveram distribuição de preservativos e sessões com técnicos especializados. A autonomia dos professores é importante, mas a ausência de um referencial comum e dados de avaliação prejudica o objetivo da disciplina. Sem dados sobre o que é ensinado, como é ensinado e com que impacto, o debate torna-se refém de opiniões e de manipulações partidárias. Nos três casos e sobretudo no luto gestacional e na amamentação prolongada o que está verdadeiramente em causa é o bem-estar e a qualidade de vida das famílias. O luto gesta-cional continua a ser uma dor silenciada e mal compreendida, sem registos sistemáticos, sem resposta psicológica adequada e sem tempo socialmente reconhecido para o sofrimento e para o impacto familiar. Já no caso da amamentação, discutir licenças apenas com base no leite materno é redutor. O apoio à família deve existir independentemente da forma de alimentação. A pergunta impõe-se: não haverá direito a esse tempo para ambos os progenitores? E não estará no superior interesse da criança poder passar mais tempo e tempo de qualidade com os pais? Quantas são as mães a exercer esse direito, e quantas são as fraudes, e quanto é de facto o tempo aproveitado entre mãe e filho? É essencial que a literacia dos decisores acompanhe a complexidade das decisões. Governar com base em convicções pessoais, sem dados concretos, transforma a política em propaganda. A ausência de dados impede avaliações objetivas, prejudica a definição de prioridades e contribui para a iliteracia democrática. Só com informação sólida se constrói uma cidadania ativa e crítica. Os dados não são neutros, mas são ferramentas indispensáveis para a justiça social e para políticas públicas que sirvam efetivamente os cidadãos e não apenas agendas partidárias. E hoje, com o avanço da digitalização dos serviços e da recolha sistemática de dados não há nenhuma razão para não ter os dados necessários à infor-mação. Se já formamos especialistas em “cidades inteligentes”, por que não formar também “democracias inteligentes”? O mundo enfrenta desafios cada vez mais complexos, exigindo soluções que combinem conhecimento político, tecnologia, ética e sustentabilidade. Investir em democracia inteligente não é um luxo, é uma necessidade estratégica. Nunca percebi a ideia de "poupar" com um governo pequeno, ou com o fim de governos civis, já que se queremos democracia temos que investir, e o retorno estará ao nível do nosso investimento. A democracia custa dinheiro, manter processos transparentes, garantir participação cívica, fiscalizar políticas públicas e sustentar instituições sólidas exige recursos, tempo e competências. Tal como qualquer infraestrutura crítica, a democracia devolve em estabilidade, coesão social e prosperidade o que nela se investiu. | PRESIDENTE DO ISCAC | COIMBRA BUSINESS SCHOOL Governar com base em convicções pessoais, sem dados concretos, transforma a política em propaganda ALEXANDRE GOMES DA SILVA