TESLA. DO VOLANTE AO INTERRUPTOR
2025-08-21 21:05:41

A cair na venda dos elétricos principalmente nos mercados europeus, Elon Musk tenta trazer à Europa o negócio da eletricidade, algo que já começou a fazer nos EUA. Será jogada? Especialistas dizem o que esperar. Depois dos carros elétricos e das redes sociais - entre outros - Elon Musk, dono da Tesla, quer chegar à Europa com mais um negócio: a empresa automóvel Tesla apresentou um pedido ao regulador britânico do setor energético (Ofgem) para ser fornecedor de eletricidade a famílias e empresas, uma atividade que, aliás, já exerce no estado do Texas, nos Estados Unidos. O Nascer do SOL tentou perceber como é que esta aposta de Elon Musk é vista junto dos especialistas. Nuno Mello, analista da XTB, acredita que o serviço, possivelmente sob a marca Tesla Electric, seja lançado no próximo ano , defendendo que essa iniciativa expande a atuação energética da Tesla no Reino Unido além da produção - a Tesla já atua como produtora desde 2020, com as baterias caseiras Powerwall e carregadores integrados -, e segue o modelo de virtual power plant que já utiliza no Texas . Para o analista, esta iniciativa de Elon Musk parece ser mais uma forma de diversificar receitas e reduzir a dependência dos resultados do setor automóvel, num momento marcado por uma queda expressiva das vendas na Europa e no Reino Unido . Por outro lado, adianta, ao alinhar o fornecimento de energia residencial com o carregamento e armazenamento (Powerwalls), a Tesla pode oferecer soluções mais integradas e atraentes a clientes com veículos elétricos, podendo promover o negócio da empresa no Reino Unido . Já João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, defende que o dono da Tesla decidiu adotar uma nova estratégia que pode ser inesperada ao avançar com um pedido para que a Tesla passe a fornecer eletricidade ao mercado britânico , sustentando que se trata de uma expansão além do setor da mobilidade automóvel, que se encaixa no propósito de transformar a Tesla numa plataforma energética completa, tal como já se verifica no Texas, e significa um movimento consciente para diversificar as atividades da empresa, sobretudo, numa das economias da Europa com os mais elevados preços da energia elétrica, o que possui racionalidade e deverá constituir uma oportunidade complementar com os produtos que comercializam . Jogada estratégica? Questionados sobre se esta iniciativa de Musk é uma jogada para compensar a queda a pique que tem tido nos carros de elétricos, principalmente na Europa, a opinião dos especialistas diverge. Nuno Mello defende que a ideia pode ter essa leitura . E justifica: A Tesla enfrenta, atualmente, um dos seus piores ciclos de vendas na Europa. Em mercados-chave como a Alemanha e Reino Unido, as vendas caíram cerca de 50% a 60% em julho de 2025 face ao mesmo mês do ano anterior . Número alarmantes mais ainda quando, segundo o analista, essa quebra não é pontual: Já se tem verificado por vários meses consecutivos, criando pressão sobre as receitas e obrigando a empresa a repensar o seu modelo de negócio na região . Por isso, a entrada no setor de fornecimento de eletricidade no Reino Unido, sob a marca Tesla Electric, encaixa-se como uma estratégia de diversificação que visa principalmente quatro objetivos: Gerar receitas recorrentes - O fornecimento de energia é um negócio com fluxos de caixa mais estáveis do que a venda de automóveis, que depende de ciclos de procura e inovação , reforçar o ecossistema Tesla - Ao vender eletricidade diretamente, a Tesla pode criar ofertas integradas para clientes com veículos elétricos e sistemas Powerwall, fidelizando-os , mas também aproveitar a infraestrutura existente - A Tesla já tem presença no mercado energético britânico como geradora desde 2020 e pode alavancar essa base para ganhar quota rapidamente . Nuno Mello considera ainda que pretende reduzir a exposição a riscos do setor automóvel - A concorrência agressiva, a perda de incentivos governamentais e as polémicas públicas de Elon Musk afetam diretamente as vendas de veículos, mas não têm o mesmo impacto no setor energético . Resumindo, para o analista a aposta energética no Reino Unido funciona como um amortecedor para o impacto negativo nas vendas de carros e, ao mesmo tempo, como uma forma de manter a Tesla relevante junto de consumidores que ainda acreditam na marca como sinónimo de inovação - mesmo que não estejam a comprar um carro novo da empresa . Nuno Mello defende que ainda que este desafio surja num momento de retrocesso nas vendas de veículos elétricos da Tesla na Europa, com um declínio de quase 60% nas novas matrículas no Reino Unido em julho comparativamente ao ano anterior , não se trata de uma mera manobra para compensar resultados de vendas pouco favoráveis, mas antes uma aposta estratégica de longo prazo, que visa criar e captar uma nova linha de receitas, explorando sinergias com o ecossistema energético que já detém (como os Powerwalls e a possível integração vehicle-to-grid) . Queda da Tesla e subida dos concorrentes A entrada de Elon Musk na política e as declarações polémicas ainda fazem mossa. E os resultados provam isso mesmo. Os lucros trimestrais da Tesla caíram para 1.17 mil milhões de dólares (990 milhões de euros), naquele que foi o terceiro trimestre consecutivo em que o lucro caiu. Nuno Mello defende existirem vários motivos para os momentos difíceis que a Tesla enfrenta. Em primeiro lugar está a concorrência forte. As fabricantes europeias (como a Volkswagen e a BMW) e chinesas (como BYD) têm lançado veículos elétricos modernos, acessíveis e competitivos - muitas vezes superando a Tesla em vendas e participação de mercado . Junta-se o portefólio desatualizado. Os modelos da Tesla, especialmente Model 3 e Model Y, já têm vários anos de mercado e os novos lançamentos só devem começar a reverter essa tendência no futuro . A isto há que juntar a imagem pública e as controvérsias políticas de Elon Musk. O envolvimento de Musk com políticos de extrema-direita, apoio a Donald Trump e declarações controversas afetaram negativamente a perceção da marca, particularmente em mercados sensíveis às temáticas sociais da Europa. Protestos e movimentos como o Tesla Takedown agravaram isso , atira Nuno Mello, finalizando com a retirada de incentivos e mercado heterogéneo. A interrupção de subsídios em alguns países, aliada a um crescimento desigual das vendas de elétricos entre os países, prejudicou especialmente marcas como a Tesla . Também João Queiroz aponta para o final dos incentivos fiscais nos EUA, bem como uma crescente concorrência no mercado europeu, ajustes nos modelos de preços e margens, e revisões dos níveis de venda previstos . Adicionalmente, acrescenta o especialista, a transição para produtos com preço mais baixo e a expansão dos negócios na área de armazenamento de energia assumem papel central na recuperação futura da sua principal insígnia . Sobre se o crescimento da concorrência tem abanado a Tesla, os especialistas não têm dúvidas de que sim. A concorrência não só aumentou em volume, mas também em inovação tecnológica , diz Nuno Mello, acrescentando que num cenário em que os consumidores começam a ver alternativas com mais autonomia, carregamento mais rápido e preços semelhantes ou inferiores, a Tesla vê a sua posição de liderança cada vez mais ameaçada . Já João Queiroz considera que a concorrência tem crescido em todas as frentes com ofertas cada vez mais competitivas e alinhadas às exigências europeias e ainda que a integração vertical da Tesla, desde a produção interna à cadeia de abastecimento, ofereça vantagens, a erosão de quota de mercado e o ímpeto competitivo mostram que a gigante americana nunca esteve tão vulnerável como agora, sobretudo, desde que iniciou a ofensiva do setor automóvel da China e dos incumbentes da indústria europeia, com múltiplas ofertas e gamas . E o boicote de vários países à empresa americana também não tem ajudado. Essas ações, juntamente com a perceção negativa associada a Musk, contribuíram para a queda das vendas e também do valor das ações em bolsa, que só este ano já desvalorizaram mais de 16%, mesmo tendo em conta a forte recuperação dos últimos dias , afirma Nuno Mello. Por sua vez, João Queiroz recorda que as críticas públicas a Elon Musk, as polémicas associadas ao seu posicionamento político e cultural e os receios dos consumidores sobre a marca podem estar a contrariar a procura, sobretudo na Europa. Ainda que difíceis de quantificar, estes elementos têm certamente contribuído para a menor adesão aos veículos da Tesla, especialmente em mercados sensíveis à imagem corporativa, valores éticos e morais associados às marcas . Ainda assim, a insígnia mantém um potencial de crescimento e continua a ser observada como uma cotada com capacidade de surpreender o mercado e de ditar tendências e novos padrões de consumo associados ao bem-estar, sobretudo, com base tecnológica, onde as energias observadas como não poluentes continuarão a ser procuradas quando decorrem relevantes alterações como fenómenos climáticos adversos , finaliza. Daniela Soares Ferreira