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CABOS AÉREOS: POLUIÇÃO VISUAL DO SÉCULO XXI

JM

2025-08-25 21:02:22

Vivemos numa era em que tanto se fala em inovação, em modernização, em “cidades inteligentes” e em qualidade de vida. Mas basta percorrer algumas das nossas ruas, sobretudo em zonas menos densamente povoadas, para perceber que continuamos reféns de uma prática que deveria já estar ultrapassada: os cabos aéreos. Sejam de eletricidade, de fibra ótica ou de televisão, a verdade é que as cidades e vilas estão cada vez mais cobertas por fios suspensos que atravessam a paisagem, muitas vezes emaranhados de forma caótica, como se fossem uma espécie de “teia urbana” que enfeia o que deveria ser um espaço harmonioso. Dou um exemplo concreto: no Porto Santo, com a recente “fbi ralização” - massifci ação da instalação de cabos de fbi ra ótica - de toda a região, surgiram centenas de cabos que hoje atravessam ruas, prédios e zonas residenciais sem qualquer cuidado estético. O investimento em tecnologia foi e bem uma prioridade. Mas o modo como ela foi implementada revela uma clara falta de visão urbanística. Porque, se nos centros mais densos é mais difícil intervir, em muitas zonas suburbanas e residenciais não haveria razão para não passar a cablagem subterrânea ou pelas condutas já existentes nos edifícios. É aqui que se nota uma diferença gritante entre o que fazemos e o que outras cidades europeias decidiram há décadas. Basta olhar para exemplos de cidades em Itália, França, Alemanha ou mesmo Espanha, onde a legislação proíbe a instalação de cabos aéreos, privilegiando a integração da rede subterrânea. A preocupação é estética, mas também funcional: menos avarias provocadas pelo vento ou pelas intempéries, maior durabilidade da infraestrutura, e sobretu-do um espaço público mais limpo e agradável. Não é preciso recuar muito no tempo para percebermos que já fomos mais cuidadosos. As fotografai s antigas do Funchal mostram-nos postes organizados, cablagem limitada, é certo, mas integrada, numa lógica muito mais ordenada do que o que temos hoje. A modernização tecnológica trouxe progresso, mas também um caos visual que se foi instalando quase sem darmos por isso. Em época de eleições autárquicas, deixo um apelo a quem gere as nossas cidades: é altura de olhar para este problema com seriedade. Não podemos continuar a tolerar esta poluição visual como se fosse um mal menor. Tal como exigimos rigor no planeamento de estradas, no mobiliário urbano ou na preservação do património arquitetónico, também devemos exigir soluções técnicas para que a rede elétrica e de comunicações seja progressivamente integrada no subsolo ou nas condutas previstas nos edifícios. As soluções existem, faltam apenas vontade política e visão de futuro. Se quisermos cidades mais modernas, mais funcionais e mais belas, temos de começar por eliminar aquilo que, a cada esquina, nos lembra o improviso e a falta de planeamento: os cabos que enchem o nosso céu urbano de linhas desordenadas. Não se trata apenas de estética. Trata-se de qualidade de vida, de valorização do espaço público e, em última análise, de respeito pelos cidadãos que todos os dias vivem e olham para estas ruas. paulo@pvf.pt | facebook/instagram @pvf.pt | [www.pvf.pt] Paulo Vasconcelos Freitas