pressmedia logo

ASSALTO À INVICTA

Observador Online

2025-08-27 06:00:08

Quando o turismo ameaça o património e a alma de uma cidade. O património não se resume a pedras, monumentos ou estátuas. É também memória coletiva, identidade, hábitos, práticas e relações entre pessoas e lugares. É isso que dá sentido e valor à sua preservação. Mas Portugal insiste em tratá-lo como adereço decorativo, reagindo em vez de prevenir. O Porto é hoje a prova viva desse erro. Transformado numa vitrine turística, corre o risco de perder a alma tripeira e a identidade de cidade invicta que o tornaram único. Entre 2011 e 2021, o centro histórico perdeu mais de 40% dos residentes permanentes, segundo o INE. Em paralelo, o alojamento local cresceu de forma explosiva, havendo em 2024 mais de 7 mil registos concentrados nas zonas históricas. O resultado é conhecido: comércio tradicional substituído por lojas de souvenir, bairros descaracterizados e a habitação inacessível para quem vive e trabalha na cidade. O exemplo do escultor Henrique Moreira é sintomático: autor de mais de 300 obras espalhadas pelo Porto, permanece quase invisível para os cidadãos: não há registo, não há investigação, não há divulgação. Assim se perde memória. Se tratamos o património desta forma, como podemos esperar que resista ao turismo de massas? O Porto que encantou o mundo pela sua autenticidade, está a tornar-se num parque temático, retrato do sobreturismo: tuk-tuks em fila, comboios turísticos a ocupar as ruas estreitas e os espaços emblemáticos remodelados a pensar mais em quem visita do que em quem vive. O Mercado do Bolhão, coração popular da cidade, é disso exemplo. Recuperado com grande investimento público, foi reaberto para a experiência turística e pouco para a vivência quotidiana que lhe dava a sua autenticidade. O problema, no entanto, é mais profundo. Portugal tem uma longa tradição de não planear: reage tarde, improvisa e deixa o património degradar-se até quase ao irrecuperável. Falta uma estratégia nacional, legislação preventiva, técnicos especializados e, sobretudo, coragem política para ver no património um investimento - e não uma despesa - em tempos de crise. A verdade é que gastamos mais a promover o destino turístico "Portugal" do que a preservar aquilo que lhe dá valor. Valorizar para conservar é a única saída. E valorizar é muito mais do que colocar uma placa informativa num edifício antigo: é educar, envolver a comunidade e devolver às pessoas a sua cidade. Sem comunidade, o património é apenas um cenário morto. Outros países já aprenderam esta lição. Barcelona, por exemplo, implementou limites ao turismo e programas de participação cidadã para travar a expulsão dos habitantes. Bruges apostou na gestão de fluxos turísticos para equilibrar visitantes e vida local. O Porto pode e deve aprender com estes exemplos. O Porto não pode ser apenas palco para turistas. Tem de ser, acima de tudo, a casa dos portuenses. Se continuar a render-se ao consumo rápido, abdica da sua identidade em troca do imediato e perde o que tem de mais valioso: o ser Invicta. E se o Porto se perde, Portugal perde consigo. Ainda vamos a tempo de impedir que isso aconteça. Ana Vieira Martins Universidade Portucalense Ana Vieira Martins