1.º ENSAIO - CITROËN Ë-C3 AIRCROSS
2025-09-02 21:04:24

Um elétrico urbano com alma de familiar O Citroën ë-C3 Aircross quer ser muito mais do que um SUV compacto. Cresceu em presença, ganhou robustez visual e abraçou a mobilidade elétrica com naturalidade. Agora, com até 300 km de autonomia e um preço que não assusta, este modelo quer conquistar famílias que vivem na cidade, mas não gostam de ficar confinadas a ela. OCitroën ë-C3 Aircross cativa desde o primeiro olhar.com a sua frente alta e bem marcada pelos grandes chevrons, o SUV francês transmite confiança e pragmatismo. Não tenta impressionar pela força, com o design geral a assumir a sua geometria sem complexos, libertando-se das curvas “fofas” do passado e afirmando-se pelo caráter mais maduro, quase “sério”, mas ainda assim simpático e, acima de tudo, alinhado com a atual linguagem de design da marca francesa. Aliás, com 4,39 metros de comprimento, trata-se de um salto claro em maturidade face à geração anterior. Acolhedor e funcional A bordo, o ambiente é acolhedor, sem excessos decorativos, e sobretudo funcional. A Citroën mantém o foco no essencial, o que aqui é uma virtude. O painel apresenta dois níveis bem definidos: na parte superior, a instrumentação digital elevada que faz lembrar um head-up display simplificado, e abaixo o sistema de infoentretenimento com ecrã tátil de 10,25”, também ele simples nas funções, mas de resposta surpreendentemente fluida e com navegação e conectividade sem fios integrada. Os comandos físicos para a climatização, ventiladores e modos de regeneração mantêm a ergonomia tradicional e são de aplaudir. A decoração interior, com tecido a revestir o tablier e os apoios de braços das portas, cria uma atmosfera de conforto. Não sendo luxuoso, este é um habitáculo onde apetece estar e ficar. A habitabilidade é outro dos grandes trunfos deste modelo. A distância entre eixos de 2,67 metros permite oferecer um espaço generoso na segunda fila, mesmo para passageiros adultos. A bagageira, com 460 litros, é ampla e prática, expandindo-se até aos 1.600 litros com os encostos rebatidos. Infelizmente, esta versão elétrica está limitada a cinco lugares, já que a terceira fila de bancos é exclusiva dos modelos térmicos e híbridos, mas em tudo o resto a modularidade continua a ser exemplar para a categoria. Serenidade e conforto Mas é ao volante que o ë-C3 Aircross nos conquista. A condução deste SUV elétrico é uma experiência de conforto e serenidade, seja em meios urbanos ou fora das grandes cidades. O motor de 113 cv (83 kW) e 125 Nm não promete grandes emoções, nem deve, mas entrega um desempenho progressivo e previsível, ideal para a cidade e os arredores. A aceleração dos 0 aos 100 km/h cumpre-se nuns anunciados 12,9 segundos e a velocidade máxima está limitada a 143 km/h. Mais relevante, no entanto, é a forma como se move em meio urbano: silencioso, suave e com um binário inicial suficiente para inserções rápidas no trânsito. A direção leve, o raio de viragem de 10,9 metros e a visibilidade assegurada por um capô plano tornam-no particularmente fácil de manobrar em ruas apertadas e nos parques subterrâneos. E a suspensão essa é uma história à parte. A Citroën equipa todas as versões com o sistema Advanced Comfort, que inclui os “famosos” batentes hidráulicos progressivos. O resultado é um conforto de rolamento que roça o surpreendente, mesmo com as jantes de 17” desta versão Max. O ë-C3 Aircross digere lombas, passadeiras elevadas e imperfeições do asfalto com uma fluidez que muitos modelos de segmento superior invejariam. Os bancos Advanced Comfort, com espumas de diferentes “durezas”, também ajudam a reforçar esta sensação de “tapete rolante”, mas o principal mérito vai mesmo para a suspensão. Se o conforto de rolamento surge no topo das suas prioridades, este ë-C3 Aircross tem poucos rivais à sua altura. Nas vias rápidas, o comportamento mantém-se equilibrado, embora com algum “rolamento” lateral em curvas mais apertadas. Este é o “preço” a pagar pelo conforto mencionado anteriormente, mas é, acreditamos nós, uma troca que os clientes farão com todo o gosto. A insonorização também é boa até cerca dos 110 km/h, altura em que o ruído aerodinâmico começa a marcar alguma presença. Mas tudo está dentro do expectável para o segmento e a faixa de preço em que se insere. Autonomia limitada Onde a versão ensaiada, com bateria de 44,2 kWh brutos (43,8 kWh úteis), merece análise mais cuidada é no capítulo da autonomia. Homologada para cerca de 300 km em ciclo WLTP, oferece na prática algo entre os 240 km e os 270 km numa utilização mista. Num percurso urbano com velocidades médias entre os 35 e os 50 km/h, ar condicionado ligado e alguma variação geográfica (afinal, Lisboa é a cidade das sete colinas), percorremos pouco mais de 100 km com uma descida de 49% na carga da bateria. Trata-se de um valor razoável e coerente com o perfil do modelo, embora a ausência de bomba de calor possa penalizar a eficiência em tempo frio e o ar condi-cionado “sobrecarregue” o sistema elétrico e as baterias. Não há modo “One Pedal”, nem gestão sofisticada da regeneração de energia. Em vez disso, dois níveis: o mais intenso ativado por defeito, e outro mais livre, selecionável através de um botão “C” no tablier. A Citroën promete uma atualização de software para refinar estas diferen- ças e melhorar a leitura de consumos que, nesta fase, ainda não inclui um indicador de médias visível durante a condução. Carga rápida a 100 kW Nos carregamentos, o ë-C3 Aircross revela-se prático e relativamente competente. A capacidade de carga rápida chega aos 100 kW em corrente contínua, permitindo repor dos 20 aos 80% da carga em apenas 26 minutos. Numa wallbox de 7,4 kW, a carga completa demora 4h20, enquanto numa instalação trifásica com carregador de 11 kW esse tempo reduz-se para 2h50. Já numa tomada doméstica convencional, prepare-se para cerca de 22 horas de carregamento, tempo que, com o uso típico urbano, nunca será uma urgência. Em termos de preços, a versão ensaiada, o ë-C3 Air- cross com autonomia Conforto, começa nos 26.490EUR para o nível de equipamento “You”. A versão intermédia “Plus” custa 28.690EUR e o topo de gama que ensaiámos, o “Max”, sobe para 30.890EUR. Valores competitivos, considerando o espaço, a qualidade de rolamento e o conforto oferecido. Para quem pretender maior autonomia, a versão com ba- teria de 54,2 kWh e até 400 km WLTP implica um acrésci- mo de 2.000EUR, mantendo o posicionamento abaixo dos 33 mil euros para a versão mais equipada. No fim de contas, o Citroën ë-C3 Aircross não quer ser o mais rápido nem o mais tecnológico, e ainda bem. A sua missão é transportar pessoas com conforto, gastar pouco e adaptar-se facilmente à vida real. E nisso, brilha.com um posicionamento inteligente, uma experiência de condução relaxada e um conforto raro no segmento, o peque- no SUV da marca francesa está pronto para conquistar as cidades e os seus arredores. Rui Reis (texto) 62 1.0 ensaio Citroën ë-C3 Aircross FICHA TÉCNICA CITROËN Ë-C3 AIRCROSS MAX CONFORTO Motor elétrico, síncrono de íman permanente Bateria 43,8 kWh Potência 83 kW / 113 cv Binário 125 Nm Tração dianteira Suspensão ind. tipo McPherson (frente), barra de torção (atrás) Comprimento 4395 mm Largura 1795 mm Altura 1633 mm Bagageira 460 litros Peso 1579 kg Consumo 18,3 kWh/100 km Autonomia 303 km (anunciada) Acel. 0-100 km/h 12,9 segundos Velocidade máx. 143 km/h Tempos de carregamento 05h00 , 11 kW AC (0-100%) 00h26 , 100 kW DC (20-80%) PREÇO desde 26.490EUR , gama ë-C3 Aircross (versão ensaiada Max Conforto: 30.890EUR) Rui Reis