ATÉ JULHO, OS CARROS ELÉTRICOS REPRESENTARAM 20,2% DAS VENDAS EM PORTUGAL. MAS SERÁ QUE TEMOS POSTOS DE CARREGAMENTO SUFICIENTES?
2025-09-03 21:07:23

É no carregamento doméstico que um carro elétrico tem um custo mais baixo. Mas para muitos é inevitável carregar a bateria na via pública. Temos milhares de postos no país. Serão suficientes? O mês de agosto chegou com boas e más notícias para a extensa comunidade de proprietários de carros Tesla em Portugal: a marca norte-americana reforçou algumas das suas estações de carregamento no país... mas foi também confrontada com o roubo de alguns cabos do supercarregador de Fátima. Como que por milagre, ou apenas eficiência, em poucos dias a Tesla reparou a infraestrutura. A empresa, da qual Elon Musk é acionista, é líder de vendas de elétricos em Portugal, mas vem enfrentando uma concorrência crescente. E a subida das vendas de carros elétricos tem colocado alguma pressão na rede pública de postos de carregamento. O país conta já com mais de 160 mil ligeiros de passageiros totalmente elétricos, que têm à sua disposição uma rede pública (gerida pela Mobi.E, mas com diversos operadores de postos e comercializadores de energia) com quase 6900 localizações (e perto de 15 mil tomadas), o que resulta numa média de um posto por cada 23 carros elétricos. É uma oferta elevada se comparada com a que existe nos combustíveis: segundo a Epcol, associação das empresas petrolíferas, Portugal tem cerca de 3300 postos de abastecimento, num mercado com seis milhões de ligeiros de passageiros, uma média em torno de 1800 carros por cada localização. Pontos de carregamento de carros elétricos no mundo Em 2024, em milhões Contudo, há diferenças a ter em conta. Uma grande parte dos postos para veículos elétricos não permite mais do que dois carros em carregamento em simultâneo, com um tempo de carga variável, mas sempre superior ao de abastecimento de um carro a gasolina ou a gasóleo; já uma grande fatia das gasolineiras apresenta em cada localização múltiplas mangueiras para utilização. Por outro lado, a rede de carregamento de carros elétricos na via pública apresenta frequentemente indisponibilidades e avarias. Na passada sexta-feira quase 17% das tomadas da rede Mobi.E não estavam operacionais. E a isso soma-se o registo, em diversos postos, de falhas de comunicação com as aplicações dos utilizadores, apenas permitindo o carregamento mediante o uso de um cartão físico. No ano passado foram vendidos em Portugal 41 mil ligeiros de passageiros 100% elétricos e este ano, considerando os números já reportados pela ACAP - Associação Automóvel de Portugal, as vendas poderão rondar as 50 mil unidades. O crescimento deste mercado será um fator de pressão na rede existente. E tem levado várias empresas a apostar em novas estações de carregamento, com múltiplos postos ultrarrápidos, acompanhando a evolução da oferta das marcas de automóveis, com mais modelos preparados para potências de carregamento mais altas (diminuindo o tempo necessário para carregar as baterias). Evolução das redes públicas a nível mundial Em milhões de pontos de carregamento Para já, Portugal está longe de comparar bem com a média da Europa no que respeita à capilaridade da rede para carros elétricos. No relatório “The Automobile Industry Pocket Guide 2025/2026”, publicado na semana passada, a ACEA, associação europeia de fabricantes de automóveis, indica que em 2024 a União Europeia (UE) contabilizava uma média de dois pontos de carregamento por cada mil habitantes, sendo que Portugal tinha um rácio de apenas 1,1 pontos de carregamento por mil habitantes. Em mais de metade dos Estados-membros da UE a oferta era inferior a um ponto por milhar de habitantes. Os dados publicados pela ACEA (cruzando informação do Eurostat e do Observatório Europeu de Combustíveis Alternativos) incluem alguns países de fora da UE. E Portugal fica distante dos níveis de densidade de oferta de várias regiões do Centro e Norte da Europa. Os Países Baixos tinham no ano passado a rede de abastecimento de carros elétricos mais densa, com 10,2 pontos de carregamento por mil habitantes, seguindo-se a Islândia (6,6), Bélgica (6,5) e Dinamarca (6). Na Noruega, onde nove em cada dez carros que são vendidos são elétricos, há mais de cinco pontos de carregamento por cada mil habitantes. O país tem-se destacado pelo grau de adesão da sociedade à mobilidade elétrica, levando a que no final do ano passado 29% do parque automóvel total da Noruega fossem carros movidos exclusivamente a eletricidade. Oslo tem penalizado fiscalmente os carros com motores de combustão, com o objetivo de conseguir que 100% das vendas de carros novos sejam veículos elétricos (em Portugal, nos primeiros sete meses do ano os ligeiros de passageiros totalmente elétricos representaram 20,2% das vendas, os híbridos 23,9% e os carros a gasolina 28,5%). Países europeus com maior oferta em 2024 Número de pontos de carregamento Espanha, que no final do ano passado tinha cerca de 45 mil pontos de carregamento, apresenta uma oferta ainda menos densa que a portuguesa, com uma média de 0,9 pontos de carregamento por cada mil habitantes, de acordo com os dados da ACEA. O Sul da Europa apresenta globalmente números modestos: em Itália havia em 2024 uma média de um ponto de carregamento por mil habitantes, na Grécia apenas 0,7, e Malta 0,2. À escala mundial a mobilidade elétrica tem crescido muito impulsionada pela China, cuja indústria automóvel tem apostado em força nos eletrões, desenvolvendo não apenas uma oferta de veículos 100% elétricos capaz de competir com a das marcas europeias e norte-americanas, mas também uma gama de baterias evoluída e competitiva, dando seguimento à conquista do mercado global noutros domínios, como o do fabrico de painéis solares. E é a partir de casa que a China está a orquestrar esta transformação: o país tem dois terços dos pontos de carregamento do mundo. A Europa soma 19% dos carregadores. E os Estados Unidos menos de 4%. Rede pública em Portugal Por tipo de carregamento, em agosto de 2025 O relatório “Global EV Outlook 2025”, da Agência Internacional de Energia (AIE), debruça-se sobre a expansão dos veículos elétricos (EV, na sigla em inglês), mas também sobre a evolução das infraestruturas de carregamento. E os números reportados pela AIE dão conta de que a maior parte dos postos existentes pelo mundo fora ainda são lentos: são 3,43 milhões de pontos que obrigam os utilizadores a aguardar várias horas para conseguir a carga completa das suas baterias; representavam no final do ano passado 63% de toda a infraestrutura mundial de pontos de carregamento. Contudo, a indústria da mobilidade elétrica tem vindo a apostar na aceleração dos carregamentos, e isso fica patente no peso crescente dos carregadores rápidos (com potências de 22 a 150 kilowatts), que no ano 2018 representavam 25% da oferta e no ano passado somavam mais de 34% do parque de carregadores à escala global. Bastante mais residual é a quota dos carregadores ultrarrápidos (mais de 150 kW), que podem reduzir os tempos de carga para menos de 20 minutos, dependendo das características do veículo elétrico e da potência efetiva de carregamento. De acordo com o “Global EV Outlook 2025”, da AIE, no final do ano passado os equipamentos ultrarrápidos não iam além de 2,8% da infraestrutura global (face a uma quota de 1,8% em 2018). Miguel Prado Editor de Economia Miguel Prado