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"OS DATA VISIONARIES OLHAM DE FORMA DIFERENTE OS DESAFIOS DA SOCIEDADE" E VÃO AJUDAR A RESOLVÊ-LOS

Sapo Online

2025-09-05 21:07:21

A identidade que a Nova IMS hoje revela é "o reflexo" da forma como se vê: "somos pioneiros, inovadores e com impacto na sociedade", resume Miguel de Castro Neto. Em entrevista ao SAPO, o dean da universidade explica a estratégia para "continuar a crescer de forma sustentada e acelerar a internacionalização" e a razão porque os "visionários de dados" fazem hoje mais sentido do que nunca. sobretudo num país que precisa tanto de se reformar. Nascida há 35 anos, a Nova IMS é a única faculdade portuguesa dedicada exclusivamente à análise de dados e data science, liderando a aplicação da Inteligência Artificial (IA) generativa e destacando-se não apenas a nível académico mas também na execução de projetos e investigações de ponta. Focada em gerar impacto significativo na sociedade, nas empresas e nas políticas públicas, a universidade, que tem já 30% dos seus 4300 alunos a vir de fora do país, criou os Nova Analytics Labs, onde se desenvolvem soluções tecnológicas avançadas para desafios complexos, combinando expertise técnica e compreensão das dinâmicas de mercado. Reconhecida internacionalmente e com vontade de liderar em áreas-chave de investigação, ampliar a sua atuação a nível internacional e promover ainda mais a colaboração e o empreendedorismo através da criação de valor, empurrando a eficiência operacional através da transformação digital, a Nova apresenta hoje os seus Data Visionaries. "É uma nova imagem que traduz a essência da instituição: converter dados em conhecimento com impacto real", diz, em entrevista ao SAPO, o dean da Nova IMS, Miguel de Castro Neto. "A nova identidade Data Visionaries é o reflexo daquilo que sempre fomos: pioneiros, inovadores e com impacto na sociedade. Mas representa também a nossa ambição de continuar a crescer de forma sustentada e acelerar a internacionalização, consolidando-nos como escola global de referência", vinca ainda o responsável. E explica a estratégia. A área dos dados tem sofrido uma enorme evolução e particularmente nos tempos mais recentes a uma velocidade alucinante. Como é que se lida com esta rapidez? É um desafio extraordinário, mas também é o segredo do nosso sucesso. Ou seja, é a grande oportunidade que tem sido a razão do nosso sucesso. A nova IMS nasceu precisamente como uma escola dedicada a responder a este desafio, que é termos capacidade de usar ciência de dados, inteligência artificial, a tecnologia e os dados para responder aos desafios da sociedade, quer das empresas quer da administração, das políticas públicas, etc. E quando nós nascemos, há 36 anos, o contexto era completamente diferente. Era ficção científica. Era. Nós já fazíamos redes neuronais, mas eram os primórdios, era uma coisa quase primitiva mas é o que está por trás da inteligência artificial (IA) generativa. O que é que mudou? É que hoje temos uma capacidade absolutamente extraordinária de recolher dados de múltiplas fontes e formatos com um volume extraordinário. Os dados que geramos, as quantidades, são brutais, e fazemo-lo a uma velocidade extraordinária. Depois, a tecnologia evoluiu de uma forma extraordinária e podemos processar tudo o que quisermos a uma velocidade extraordinária. E isto pode ser aplicado a tudo. É preciso é saber. Pronto, e daí a escola tem tido a capacidade de conseguir acompanhar esta evolução exponencial e aplicar esta combinação de dados, tecnologia e conhecimento aplicado nas diferentes áreas do negócio e transformar isso em valor. No ensino, na investigação e nos projetos de inovação. E é esta evolução, esta capacidade que temos tido de estar à frente, na vanguarda, que nos tem mantido na liderança - uma capacidade que também reside no facto de esta escola ser a única em Portugal que nasceu como instituição de Ensino Superior de gestão de informação, de ciência de dados e IA. E parte daí para aplicar-se em várias áreas. Nós afirmámo-nos no ensino, na investigação, na criação de valor e chegou um momento em que achámos que era tempo de revelar esta nova imagem de Data Visionaries: esta ideia de um grupo de pessoas que é capaz de ver para além da complexidade e de encontrar padrões, de descobrir sentido em algo abstrato. A sociedade em geral e as organizações, os gestores, estão neste momento a sentir alguma confusão: qual é o rumo? Há alguma desorientação generalizada. Como é que isto nos vai ser útil? Exatamente. E eu acho que esta imagem de Data Visionaries também tem aqui um sentido de oportunidade porque traz esta visão. Porque não basta ter os dados, não basta ter a tecnologia, não basta eu ser muito bom no meu negócio. Neste momento é preciso ter esta esta competência integrada, que é aquilo que nós fazemos na Nova IMS, conseguir combinar estas três coisas de forma virtuosa, para conseguir saber não apenas como usar a tecnologia e qual o melhor algoritmo e saber do meu negócio, mas como é que estes três elementos juntos conseguem efetivamente fazer-nos avançar e contribuir, de uma forma ética e responsável. E esse é outro grande desafio que enfrentamos. A ética tem de ser um fator. Sim, e coloca-nos cada vez mais questões: como é que estamos a utilizar esta tecnologia? Como é que estamos a utilizar esta capacidade? Como é que conseguimos evoluir? E a Nova Information Management School e os Data Visionaries conseguiram nos últimos anos ter uma projeção nacional e internacional extraordinária nos nossos três pilares: ensino, investigação e criação de valor. É por isso que surge essa nova marca, para dar a ideia dessa evolução? Ao posicionarmo-nos como Data Visionaries, damos esta ideia do piscar ou abrir o olho porque vemos mais além. E é também uma forma de nos projetarmos para fora dos próprios muros da universidade e tentar dar maior visibilidade ao que fazemos. Porque nós próprios também sentimos que somos de alguma forma invisíveis perante o mundo exterior. Ou seja, as pessoas precisam do que vocês estão aqui a fazer, de ir buscar esse conhecimento, mas não fazem ideia de como vocês podem ajudá-las. Certo. E todas essas imagens me vêm à cabeça com esta ideia que nós estamos a projetar, porque objetivamente o nosso ensino, o que nós fazemos, assenta num modelo que nós desenvolvemos e a que demos o nome de hedge porque também ele tem uma identidade própria, que é um modelo pedagógico inovador. Hedge porquê? Porque estamos na vanguarda, com estes três pilares. Por um lado, tentamos adotar novos modelos pedagógicos, o que tem sido um desafio contínuo sobretudo desde a covid: quais são as melhores abordagens pedagógicas perante um novo perfil de alunos, mas ao mesmo tempo, como é que lidamos com a mudança do mundo em que vivemos, nomeadamente com a inteligência artificial generativa? Isso foi um exemplo em que nós nos distinguimos de instituições de Ensino Superior por todo o mundo, que tentaram proibir a entrada de IA. É tentar travar o vento com as mãos... É, e nós fizemos exatamente o contrário. Fizemos parcerias, nomeadamente com a Microsoft, fomos pioneiros à escala global, e disponibilizámos aos nossos professores e alunos inteligência artificial generativa para eles começarem a fazer projetos dentro da sala. Na própria sala de aula, os alunos podiam desenvolver projetos de inteligência artificial aplicada. Por exemplo? Houve professores que, nos relatórios que os alunos faziam, para além das referências bibliográficas tradicionais pediam que incluíssem as prompts usadas no ChatGPT para fazerem o seu trabalho, houve professores que deram licenças para os alunos construírem chatbots com os seus projetos na sala de aula. Ou seja, o que nós fizemos foi integrar a própria capacidade da inteligência artificial generativa no contexto da sala, integrando-a tanto quanto possível. Porque isto é uma nova capacidade, o que não podemos deixar é que os alunos percam o sentido crítico e a capacidade de aprender. Isto não pode substituir, vai é aumentar as capacidades neste novo mundo. Portanto, essa é a parte da inovação pedagógica. A segunda componente é a dos espaços da aula: tentar explorar salas mais inteligentes. Nós inaugurámos agora uma nova, decorrente de experiências que fizemos, e de que dou um exemplo: é uma sala de aula híbrida, que é pioneira em Portugal, e em que o ensino presencial e online já é comparável, convivem perfeitamente. E também temos um terceiro pilar, a que chamamos analítica de aprendizagem (learning analytics): todo o processo de aprendizagem, desde o momento em que um estudante se candidata até ao momento que vai para o mercado de trabalho, tem esse acompanhamento analítico e a informação é entregue quer ao próprio aluno no seu trajeto quer ao seu professor e ao diretor do programa que ele se está a frequentar, mas também por exemplo ao presidente do Conselho Pedagógico ou ao diretor do instituto. E esta analítica em tempo real permite-nos melhorar. Fazemos o acompanhamento para antecipar problemas. No ano passado, esse projeto ganhou o Portugal Digital Awards na categoria de ensino. E não é um prémio único... Não. Nós temos, entre os nossos programas, dez que estão no ranking universal em classificações extraordinárias, incluindo sete no top três e um que é o melhor do mundo, o melhor mestrado do mundo em Business intelligence, que é uma coisa absolutamente extraordinária, sobretudo porque o é há sete anos consecutivos. E já neste ano, a instituição foi reconhecida no QS ranking internacional com 5 estrelas em todas as categorias avaliadas. Isto é mais um motivo de orgulho e que nos leva a querer sempre melhorar e fazer um esforço para que este reconhecimento seja também mais público, mais visível. Nós já temos 4300 alunos de praticamente 100 nacionalidades diferentes e esta comunidade internacional representa sensivelmente 30% dos nossos alunos, que é comparável com Harvard e que vemos como um valor razoável. A nossa intenção não é transformar a escola numa escola internacional. Aliás, as condições são distinta para portugueses e estrangeiros. Sim as propinas são distintas (mais caras para alunos internacionais). Mas isto é muito importante até para nos verem como setor exportador. Do ponto de vista da economia nacional, Portugal pode mesmo ser um país em que o ensino pode ser um serviço exportado e a Nova tem feito aí um bom trabalho. O nosso ensino tem sido, de facto, absolutamente extraordinário e isso também traz crescimento: nos últimos quatro anos aumentámos em 60% o número de alunos, tem sido um crescimento exponencial nesta área. E isso tem que ver com o nosso ADN ser assente nesta área. Tem sido uma alavanca para o nosso sucesso, a par da excelência da nossa investigação, porque já temos um corpo de investigadores nesta área que são de topo mundial, incluindo dois que são highly cited researchers, ou seja, estão mesmo no 0,1% na sua área de conhecimento, temos oito que estão no top 2% nas suas áreas de especialidade e o nosso centro de investigação é classificado como excelente. A investigação que fazemos é de excelência e temos inúmeros projetos que assim o atestam, e isso alimenta depois o ensino e os nossos laboratórios. Que são também uma forma de aplicar o conhecimento que se produz na Nova IMS à vida real, certo? Há uns anos, uma das preocupações que perseguimos foi encontrar forma de dar mais visibilidade e ter mais impacto na sociedade, e daí nasceram estes NOVA Analytics Labs, que já são 15, através dos quais já conseguimos que quem olha para nós materialize de forma mais tangível o que nós fazemos. São em que áreas de ação? São em áreas muito distintas, desde políticas públicas a saúde, cidades inteligentes, sistemas de informação, inovação, oceanos... cobrem várias áreas e têm tido a capacidade de ter uma atração muito grande e um impacto também muito grande. São esses laboratórios que geram uma grande tração e ligação com a sociedade: com as empresas, com a administração pública, com a administração local. E também permitem que os próprios alunos consigam, através dos laboratórios, trabalhar em projetos reais e resolver problemas reais. Essa é uma preocupação dos alunos hoje? Há aí um fenómeno muito interessante: os alunos já não são motivados pelos mesmos valores que eram. Eu ensino há mais de 20 anos e num primeiro momento estive muito ligado ao business intelligence - fui eu que criei o dito mestrado - e depois comecei a trabalhar na área das cidades inteligentes. E os alunos numa fase estavam muito interessados em projetos ligados a empresas e procuravam coisas muito mais ligadas ao ao mercado, e hoje em dia procuram muito mais projetos ligados às cidades e aos problemas das pessoas e ao impacto e aos problemas societais que não procuravam há uns anos atrás. Desafios muito mais inspiracionais. E os nossos laboratórios acabam por criar uma oportunidade para fazermos essa ponte. Torna-se muito mais atraente para os próprios alunos. Sim, e por isso os nossos projetos de impacto têm este crescimento, porque o os alunos estão muito mais disponíveis para trabalhar neste tipo de projetos. Hoje temos por isso muito mais com a administração pública central e local, é que há uma maior disponibilidade e interesse dos próprios alunos em trabalhar este tipo de projetos do que desafios das empresas, que já não os motivam tanto. Isso também ajuda a encontrarem emprego a seguir... a Nova IMS tem uma empregabilidade de 100% um mês após a formação. Há muito essa continuidade, esse trabalhar num projeto e ser contratado logo a seguir à universidade? Bem, nós aí temos um bom problema. O grande desafio não é nosso, é das empresas, que precisam de conseguir agarrá-los. Nós temos alunos que escolhem o emprego que querem. O problema hoje é da economia nacional, que tem dificuldade em reter o talento, porque a procura do mercado internacional acaba por atrair mais facilmente o nosso talento. E muitos deles até são contratados por empresas internacionais, continuando a residir em Portugal. Qual é a remuneração média de um ex-aluno da IMS? É muito variável e é difícil termos a real perceção, porque é uma área em que não há dados públicos; depende muito da colocação e há um observatório da empregabilidade, mas normalmente os dados estão desfasados no tempo. Mas sabemos por exemplo que a remuneração de entrada é das mais elevadas dentro da própria Universidade Nova. Isso leva-me a um tema: os dados são a vossa matéria-prima, mas em Portugal há poucos dados e os que há estão muitas vezes desfasados no tempo. Isso retira-nos capacidade de emendar problemas durante o percurso, de medir resultados para aplicar soluções informadas... O trabalho dos Data Visionaries pode impactar mesmo muito a nossa realidade... É esse precisamente o nosso espaço de oportunidade. Se olharmos de forma transversal, não podemos dizer que temos um acesso universal a dados que nos permitam fazer estudos com grande profundidade e atualidade. Mas surgem inúmeras oportunidades de conseguir fazer projetos e nós temos tido o privilégio de trabalhar projetos com empresas e com a administração central, municípios e comunidades intermunicipais em que conseguimos fazer esse trabalho. Efetivamente, precisávamos de ter mais dados abertos, atuais ou com maior granularidade para podermos fazer os estudos que gostaríamos, mas quando vamos trabalhar com algumas destas organizações, conseguimos fazer projetos muito interessantes. Por exemplo? Recentemente tivemos um projeto de um colega no laboratório das políticas públicas com a Presidência do Conselho de Ministros e com IA, que pretendia, no momento em que se redige legislação, avaliar o custo económico dessa nova legislação no próprio momento em que está a ser produzida, para o processo de aprovação ser acompanhado logo de uma avaliação do impacto económico do custo que essa legislação poderá ter para a economia nacional. Isto é um exemplo e os dados têm de existir para isso. Outro exemplo, com o Ministério da Educação, fi o cruzamento do sucesso escolar com as características do contexto socioeconómico para percebermos as diferenças que tem nomeadamente a geografia sobre o sucesso escolar, perceber que o papel do pai e da mãe é diferente numa família que vive no litoral e no interior. Ou seja, há inúmeras situações em que trabalharmos com uma determinada entidade nos permite aceder aos dados e fazer esses trabalhos Dou outro exemplo que até ganhou um prémio internacional nos Estados Unidos: nós trabalhámos com a Comunidade Intermunicipal do Oeste num projeto que é único à escala nacional, o Oeste Smart Region, que consistiu na construção, para toda a CIM e os seus 12 municípios, de uma plataforma de analítica, de produção de informação para apoiar a governação dos 12 municípios. E que faz o quê? À data de hoje, os presidentes de câmara dos 12 municípios do Oeste têm no seu gabinete um dashboard com insights de acompanhamento do que se passa no seu município, desde problemas com a mobilidade e utilização do transporte público à sustentabilidade e economia, que lhes permite ver se tiverem um evento no fim de semana, o valor das transações que aconteceram no seu município, como é que isso impactou a restauração, a hotelaria e assim sucessivamente. É por isso que digo que nós temos conseguido agir e desenvolver trabalho nos três pilares: no ensino, na investigação e na criação de valor. E ter resultados concretos com impacto. E achámos que era o momento de tentar levar os Data Visionaries mais longe e de forma palpável materializar essa mensagem. Eu acho que neste momento já há alguma perceção e agora começa a haver ação sobre este desafio que enfrentamos. Até agora com a criação de um Ministério da Reforma do Estado. Foi uma boa decisão, o governo criar esta pasta? Creio que traduz o entendimento de que não se trata de legislação ou de reorganização administrativa, que se trata efetivamente de fazer esta reengenharia de processos de que precisamos, de juntar dados, tecnologia, pessoas e conhecimento de negócio para alterar estruturalmente a forma como funciona a saúde, a educação, etc. Se não houver gestão de informação, se não houver ciência de dados, se não houver IA, não vai resultar porque em 2025 não vai ser com pessoas e processos manuais que se conseguirá resolver o problema. Nós precisamos de utilizar as competências dos Data Visionaries para olhar de forma diferente para os desafios atuais da nossa sociedade. Gonçalo Saraiva Matias e Bernardo Correia, o ministro e o secretário de Estado dessa área, são as pessoas certas para essa tarefa? São pessoas com essa visão, mas isto é um desafio muito grande e vai ser muito doloroso, porque não se fazem reformas sem dor. Mas tem estado envolvido nessa reforma? Não envolvido, porque estou na Universidade, mas se me perguntar se o governo está a ouvir pessoas que sabem do assunto, sim. E isso é um bom sinal. Essa mudança que é preciso operar no país não é apenas setorial, é de forma. Parece que discutimos sempre os mesmos problemas, cria-se novas regras ou soluções, mas nunca de mede os resultados. Os Data Visionaries e os dados poderão ser muito úteis a todos esses níveis. Como é que o trabalho que a IMS faz pode impactar problemas cncretos como as falhas no SNS ou nos incêndios? Quando olhamos para esses grande desafios nos vários setores, nas várias áreas, o que nós constatamos é que temos tido a capacidade de desenvolver projetos que demonstram o potencial e apresentam resultados muito inspiradores e indicam que conseguimos efetivamente aplicar estas abordagens para resolver os problemas. O desafio que se coloca é como é que passamos destes projetos que são balizados para soluções que têm de escalar ser aplicadas a todo um setor. E para isso nós precisávamos que a dita reforma acontecesse para todo o setor ter uma governação dos dados integrada, uma tecnologia transversal e uma capacidade de aplicar uma determinada solução a todo o território naquele determinado setor. E o problema que temos e agora independentemente do setor, é que há ainda muito silos de informação, sistemas de diferentes tecnologias que não permitem que haja esta capacidade de se implementar um sistema. Nós somos confrontados com isto diariamente, que é muitas vezes sermos contactados por empresas, pela administração que pretende desenvolver um projeto analítico, e quando temos a reunião de brainstorming chegamos à conclusão que o desafio que existe é de transformação digital da organização, que é fundamental para a seguir se poder explorar o potencial analítico de criação de valor. Sem essa vertente, é impossível. Exato, é uma viagem que tem de ser feita. Por isso é que há pouco referia que esta questão vai ser dolorosa. Ou seja, a transformação digital até nós conseguirmos criar as condições necessárias e suficientes para explorar o potencial da analítica e da inteligência artificial tem de ser feita. E o país tem ainda um longo trajeto pela frente. E as cabeças estão preparadas para fazer esse caminho ou é preciso também haver transformação a esse nível? Eu acho que para isto tudo acontecer há uma necessidade inquestionável de capacitação de recursos humanos, que também tem de ser respondida nos vários níveis das próprias organizações. Isto envolve quer as lideranças das organizações quer os técnicos que têm de implementar as soluções. Resta agora saber quais são os resultados do período que estamos a atravessar e vai terminar em 2026 porque no âmbito do PRR foi desenvolvido um esforço muito grande de capacitação; esperemos que este esforço de capacitação entregue resultados nesse capítulo. Mas é também por isso, por essas necessidades de reskilling, que se justifica a decisão da Nova IMS de abrir a breve trecho os mestrados executivos? Nós temos um conjunto de mestrados executivos que entrarão em ação no próximo ano, com a ambição precisamente de responder a esse desafio com uma oferta especificamente dirigida a líderes de organizações em áreas muito específicas, concretas, com formações mais curtas e uma orientação mais project based no que respeita à tese de mestrado, em áreas que consideramos vitais para responder a este desafio, nomeadamente as políticas públicas. A ideia é que quem venha fazer o mestrado saia de lá com a solução para a empresa ou organização? Exatamente, e trabalhando aqui com professores que são especialistas nessas matérias: na área de marketing analytics, business analytics, políticas públicas, smart cities, portanto, em áreas muito concretas e específicas em que achamos que conseguimos ajudá-los a construir a receita para poderem dar o salto na sua organização. E ainda há alguma resistência quando as pessoas têm de lidar com novos métodos e soluções, apesar de serem elas próprias a procurá-los? Eu diria que o grande desafio que ainda encontramos muito é ainda haver alguma alguma dificuldade ou alguma perceção de que este mundo analítico é demasiadamente técnico. E é uma perceção errada hoje, porque há uma componente com elevada tecnicidade, mas é para um determinado conjunto de funções Hoje, não é possível ser um líder de uma organização se não tivermos também competências nesta área, porque terá de tomar decisões, nomeadamente sobre a estratégia da sua organização, nas quais precisa dessa data vision ou não vai correr bem. Sobretudo precisa dessa agilidade num mundo a mover-se tão rapidamente, com tanta insegurança e imprevisibilidade... Tudo isto joga a favor dos Data Visionaries. Exatamente. Mas há depois um desafio de segurança que também é preciso cuidar. Os dados, de facto, abrem um número sem fim de possibilidades, mas como é que se liga isso com a necessidade de proteger a informação? Esse é mesmo um desafio bastante complicado porque há a questão da cibersegurança e de tudo o que tem que ver com a utilização desses dados, não apenas protegendo os mesmos, mas também nas questões de cumprimento do RGPD, do respeito pela privacidade e utilização ética desses dados, mas também há toda a regulação. Nós temos o RGPD, temos o regulamento da inteligência artificial europeu (AI Act), existe toda essa regulamentação. Mas isso é um desafio muito grande, em particular na economia nacional, desde logo pela sua estrutura. 99% das empresas portuguesas são micro ou PME muito pequenas. E isto é muito complicado para estas empresas. Como é que, olhando para o tecido empresarial português, nós vemos este tecido empresarial fazer este processo de transformação digital, de incorporação da IA e exploração desta capacidade analítica para transformar os seus negócios e serem competitivos neste novo mundo, cumprindo todos os regulamentos em vigor, conseguindo incorporar regras de segurança e de proteção neste novo contexto. E também aí nós temos de pensar em novos modelos para responder a este desafio. E mesmo para vocês, que trabalham os dados, toda esta regulação não é uma barreira? Aí levanta-se outra questão: será que isto não é um bloqueio à inovação? E nós temos sido confrontados com isto, mesmo porque só começou a existir esse problema há uns anos e muitas vezes quando chegam os alunos e os nossos investigadores ao momento de recolher os dados para um projeto é preciso enviar o pedido para os serviços jurídicos e tudo isso. Nós temos assistido, de facto, a um crescendo de situações em que os dados não são libertados por uma questão de precaução e acabamos por não fazer a análise, mas acho que é um processo de aprendizagem e inevitavelmente isso acabará por ser ultrapassado. Ate porque nós estamos num momento de não retorno e a maior parte dos casos também são processos transversais a todas as organizações. A partir de certa altura, percebe-se quais são os constrangimentos e as boas práticas. Até porque há um risco para uma Europa demasiado cautelosa, entre os Estados Unidos e a China que não têm barreiras - e aqui não há fronteiras que travem a inovação... Sim, sim, há um desafio enorme e a União Europeia tem de acelerar o passo, sob pena de a economia europeia deixar de ter capacidade de resposta face à economia global. Portanto, isto não é um problema nacional, é europeu, e nós temos de ter a capacidade de responder à economia norte-americana e chinesa e até ao Médio Oriente. A Arábia Saudita está a acelerar o passo e nós temos de resolver esses constrangimentos porque a inovação não pode ser comprometida pela legislação. Mas é um caminho que se vai fazendo, e é importante que a regulamentação europeia exista e que se vá tentando encontrar equilíbrios. Joana Petiz Joana Petiz