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EXPOSIÇÕES - A ARTE COMO DOM

Expresso

2025-09-05 21:07:21

“Lápis de Pintar Dias Cinzentos” é um delta: o rio inicial, Carlos Nogueira, dá para três braços Maria José Oliveira, Tomás Colaço e Luísa Correia Pereira para depois se abrir em caminhos individuais Posso afirmar que o meu primeiro encontro com esta exposição passou-se no equinócio da primavera de 1979 na Galeria Diferença, quando Carlos Nogueira (n. 1947) apresentou a exposição /intervenção “Os Dias Cinzentos/ Lápis de Pintar Dias Cinzentos” com desenhos na parede e no chão, bem como vestígios de anteriores intervenções, com slides iluminando o público entre esses vestígios, onde o provável lixo dos restos de exposições era exaltado, tudo partindo da simples ideia da oferta de um lápis de cor ao público para pintar com todas as cores a cinzentura do quotidiano. Guardo desde esse dia o meu lápis e, 45 anos depois, reencontro muitos dos seus semelhantes na primeira sala desta exposição, juntamente com outros trabalhos onde o cinzento é transformado. Tudo se passa a partir da ideia e da oferta, o dom de Carlos Nogueira fortalecendo a ideia da capacidade intrínseca de generosidade e dádiva contida na obra de arte: Margarida Almeida Chantre, a curadora, resolveu partir dos testemunhos desta intervenção que pertencem à Fundação EDP, para mostrar em seis salas do espaço do Cinzeiro uma escolha de 42 obras de 21 artistas. O propósito fundamental da curadora é o de juntar à generosidade inicial de Carlos Nogueira obras que “revelem generosidade capaz de transformar momentos e, às vezes, até dias; outras que podem ser como um porto de abrigo”. Quatro das seis salas do Cinzeiro são dedicadas a quatro artistas , Carlos Nogueira, Maria José Oliveira (1943), Tomás Colaço (1974) e Luísa Correia Pereira (19452009) , enquanto os restantes espaços recebem mais dezassete artistas do acervo da Fundação EDP. Carlos Nogueira apresenta uma longa vitrina baixa cheia de lápis, bem como alguns trabalhos onde a cor se imiscui no cinzento. Maria José Oliveira dá testemunho sobre o corpo e sobre o modo como o espaço se pode concentrar numa bem simples forma, o ovo com ressonâncias cósmicas de início e de totalidade. Tomás Colaço, uma instalação sobre o tempo, as três idades da árvore alegoria da prudência universal, numa versão moderna de uma antiga meditação barroca sobre a brevidade da vida. Luísa Correia Pereira convoca e reinventa “todos os seres” em 13 pequenas obras densas e exigentes. o espaço desta exposição é uma espécie de delta. O rio inicial, Carlos Nogueira, dá para três fortes e bem diferentes braços, Maria José Oliveira, Tomás Colaço e Luísa Correia Pereira, para depois se abrir em múltiplos caminhos individuais, aguardando a sintonia com o público visitante. Fui bem sensível à força da presença feminina, presença sempre física de um corpo/ e@expresso impresa.pt obra, nos trabalhos de Maria Beatriz (1940-2020) uma eterna menina revoltada, de Luísa Cunha (1945) a sustentar e inventar o espaço, e de Helena Almeida (1934-2018), onde O antigo corpo da pintura e do desenho se transforma no corpo da artista como matéria da arte. Não queria deixar de referir OS trabalhos de Jorge Pinheiro (1931) na aparente simplicidade de uma geometria musical na evocação de Anton Webern e Luigi Nono, a reinvenção do brinquedo de René Bertholo (1935,2005) e sobretudo o pastel sobre papel de ángelo de Sousa (1938-2011), sem título, círculos concêntricos simulando uma espiral de 1969, antecipando a sua pintura manifesto de 1970/71, “Catálogo de Algumas Formas ao Alcance de Todas as Mãos”, formas essas sempre ao alcance de todos OS lápis de pintar dias cinzentos. O valor desta exposição está na diversidade de todas as suas obras, num caminho que se desdobra em múltiplos caminhos, como outras tantas dádivas abertas à sensibilidade de cada um e a um mundo de diversas interpretações. Não esqueçamos o duplo significado da palavra dom: dote, talento ou qualidade e, depois, dádiva, oferenda; neste último caso, o dom é sempre e necessariamente gratuito, sem escala de valores venais, sem mercado, mesmo que essa escala exista e funcione ali mesmo ao lado. Quem visitar com cuidado e sensibilidade esta exposição vai encontrar ali O seu lápis para pintar dias cinzentos e para traçar formas ao alcance das suas mãos, formas essas que, de um modo ou de outro, são um dom, o seu dom de poder mudar O mundo, iluminando-o em cada dia que passa. ainda... E DIAS DE VERáO Ana Vidigal Zet Gallery, Braga, até dia 13 e definida como “uma espécie de antologia de Ana Vidigal", reunindo cerca de três dezenas de obras da artista (Lisboa, 1960) produzidas no último quarto de século e onde se recorre a vários suportes além da pintura. Homenageia-se “uma obra feminista e anticolonial”. COLECçáO PERDIDA Pedro Sousa Pereira Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa, até 27 de outubro Nove ilustrações entre o passado e o presente: de Luís de Camões às ruínas do Carmo, onde a exposição tem lugar, do Terramoto de Lisboa ao autorretrato (na imagem). ASSALTO AO PALÁCIO DE VERÃO , COLEÇÃO DO MUSEU DO NEO-REALISMO Palácio da Cidadela de Cascais, até dia 14 ultimos dias da exposição em Cascais que, além de pintura neorrealista portuguesa (na imagem, “No Cais", de Mário Dionísio, 1954), integra meia centena de fotografias de "A Família Humana”, coleção de fotografia internacional reunida para o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. LãPIS DE PINTAR DIAS CINZENTOS , OBRAS DA COLEçãO DE ARTE FUNDAçãO EDP MAAT, Lisboa, até 19 de janeiro de 2026 Obras de Luísa Correia Pereira. Na página seguinte o lápis do crítico, proveniente da exposição intervenção de Carlos Nogueira na Galeria Diferença, em 1979JOSÉ LUÍS PORFÍRIO