O MAIOR MURAL DE UM SÓ ARTISTA NO NORTE DE PORTUGAL ESTÁ EM PONTE DA BARCA E TEM FERNÃO DE MAGALHÃES COMO PERSONAGEM PRINCIPAL
2025-09-08 13:44:10

Um muro transforma-se em espelho em Ponte da Barca. O artista Juan Domingues cobre 1550 m² com cores que celebram Fernão de Magalhães e a história da vila. Entre tradição, poesia e a diáspora minhota, cada traço é um reflexo da identidade local O pincel desliza e, com cada cor, revela a história de Ponte de Barca. O muro deixa de ser barreira e torna-se num espelho que reflete o território que o sustenta. Juan Domingues move-se na plataforma elevatória que ele próprio manobra. Até tirou a carta de operador de máquinas para conseguir, sozinho, movimentar-se livremente até oito metros de altura e pintar as nuvens e montanhas mais altas. Há quase dois meses que Juan transforma, dia após dia, os 1550 metros quadrados de superfície (e 300 metros de comprimento) em memória viva. “Isto está a partir-me todo, mas quero sempre perceber quais são os meus limites”, confessa ao Expresso, enquanto vai finalizando o maior mural pintado por um só artista no Norte de Portugal. A obra celebra a ousadia da viagem de Fernão de Magalhães - navegador que poderá ter nascido nesta vila minhota, embora o seu local de nascimento seja disputado - e cruza-se com os caminhos da diáspora que moldaram o território. Juan Domingues, artista de 44 anos nascido na Venezuela e radicado em Cantanhede, já deixou a sua marca artística no espaço público da região do Minho, com obras em Esposende, Amares e Vila Nova de Cerveira. Agora, está pela primeira vez em Ponte da Barca, a pintar quase sem descanso o mural, localizado na Avenida Dr. Mário Soares, com 300 metros de extensão. “É uma coisa modesta”, atira, entre risos. O projeto é uma encomenda da Câmara Municipal de Ponte da Barca, como forma de homenagear Fernão de Magalhães, mas Juan Domingues tem total liberdade criativa na empreitada iniciada a 14 de julho. “Acho mais interessante seguir os caminhos que não são sugeridos”, defende o artista, para quem o mural “é uma tentativa de unir todos os elementos da região - folclore, lendas, tradições, património arquitetónico e geográfico - para criar uma leitura que seja, de alguma forma, um espelho da identidade local”. No traço de Domingues cabem séculos de história e camadas de memória. Entre arabescos que evocam os bordados minhotos, erguem-se os espigueiros, a ponte medieval e a pedra dos namorados, lado a lado com o Mosteiro de Bravães e o Castelo de Lindoso. No centro, Fernão de Magalhães surge como figura axial, rodeado por naus que cruzam o Atlântico. Há ainda uma mulher em trajes tradicionais, guardiã da poesia e do futuro, e duas meninas gémeas que brincam com barcos de papel - metáfora viva da diáspora e das partidas sem regresso certo. Como se o muro ganhasse voz, ecoa também a poesia quinhentista de Diogo Bernardes, natural de Ponte da Barca: Onde porei meus olhos que não veja A causa, donde nasce meu tormento? A que parte irei co pensamento Que pera descansar parte me seja? “O mural é como um espelho que remete para o encontro identitário daquilo que somos. Daí ligar a figura de Fernão de Magalhães à paisagem, à história de quem parte e regressa, à ideia de diáspora que marca este território”, explica o artista, sempre com a figura feminina como elemento “central” no seu trabalho. “Representa poesia, esperança e futuro. Neste caso, como se trata de uma mulher vestida com os trajes minhotos, representa também os valores tradicionais, as lendas e o folclore”, desvela Juan Domingues. O mural é, nas palavras do artista, “uma continuidade da paisagem”. “Recortei as silhuetas das montanhas e traduzi de forma distópica no mural, reforçando a ideia de espelho entre a obra e o território que a rodeia”. E, quando a noite cai, tudo se torna mais mágico: “Parece que fica suspensa, quase como uma pintura flutuante, permitindo a contemplação e a reflexão”. A intenção de Juan Domingues é que a obra seja “um caminho que dialoga com quem passa, seja de carro ou a pé, permitindo diferentes camadas de interpretação”. O trabalho de Juan Domingues, caracterizado pelo seu expressionismo figurativo, alia a poesia à filosofia sem se tornar hermético. “Sem perder a sua identidade e sem abdicar da sua paleta habitual, é capaz de ler o território e criar uma narrativa imagética transversal”, acrescenta Helena Mendes Pereira, diretora-geral e curadora da zet gallery, que representa o artista em exclusivo. O investimento na arte em espaço público tem sido um foco privilegiado da galeria bracarense. “Nos últimos anos já colocámos mais de 70 obras fora de portas. Trabalhar no espaço público é onde conseguimos concretizar da melhor forma a democratização da arte e o acesso da cultura a todos. Isso também permite criar um espaço de visibilidade, fora da galeria, para os artistas”, afirma Helena Mendes Pereira. Além disso, a zet gallery tenta contrariar a ideia de que a arte urbana só se faz com latas de spray e leva para a rua outras formas de expressão artística. “Procuramos trazer artistas que trabalham maioritariamente no atelier, mas que também querem expressar-se no espaço público”, conclui a curadora, sublinhando a importância de projetos que cruzem a criação artística com a experiência coletiva do território. Para o presidente da Câmara Municipal de Ponte da Barca, a iniciativa vai além da arte: é uma viagem à identidade coletiva. “É também olhar para dentro de nós: para a nossa história, para as nossas raízes, para o território que habitamos e para os elementos que nos definem. E é esse espírito que o Município de Ponte da Barca quer homenagear com uma iniciativa inédita”, afirma Augusto Marinho. “Com este mural, valorizamos a arte urbana, reforçamos a identidade cultural local e promovemos o nosso território como destino turístico de excelência”, salienta o autarca, confiante de que a obra “será um ponto de atração forte, pelo impacto visual e pelo simbolismo que carrega”. Eis “uma verdadeira volta ao mundo a partir de Ponte da Barca”, conclui. André Manuel Correia Jornalista André Manuel Correia