O BRAÇO DE FERRO NO SECTOR AUTOMÓVEL ENTRE A CHINA E A EUROPA ATERROU EM MUNIQUE E ESPALHOU-SE PELA CIDADE
2025-09-10 21:03:52

O salão automóvel de Munique, mais conhecido por IAA Mobility, arrancou esta segunda-feira para mostrar ao mundo mais de 350 novos carros. China e Europa lutam taco-a-taco por um lugar ao sol, cada vez mais iluminado pela eletricidade Nem o chanceler alemão, Friedrich Merz, faltou à chamada e fez questão de estar presente no corta-fita , para dar cobertura política à ocasião. O IAA Mobility, salão automóvel que decorre em Munique, na Baviera, até ao final desta semana, é muito mais do que um sítio onde serão apresentados pela primeira vez ao mundo mais de 350 novos modelos de carros, por mais de 748 expositores vindos de 37 países. O IAA Mobility é também uma demonstração de força da indústria automóvel em geral e um autêntico braço de ferro entre o bloco europeu e o bloco chinês e, em simultâneo, uma espécie de palco geopolítico do que são hoje as relações comerciais entre aquelas duas partes do globo. E não foi difícil notar, na segunda-feira, logo nas primeiras horas de abertura do salão aos profissionais do sector, depois da chegada de Friedrich Merz, a forma como se ali se agigantaram dezenas de construtoras automóveis chinesas no terreno da nata do sector made in Germany . A Baviera é a terra da conceituada e poderosa BMW, que tem a sua sede mundial precisamente em Munique, mas nem isso foi suficientemente intimidatório para alguns gigantes chineses que agora começam a ganhar terreno no mercado europeu, com especial destaque para a BYD, que só constrói carros elétricos ou híbridos e já destronou, inclusivamente, a sua principal rival Tesla, em volume de vendas. Além da tensão latente nesta luta titânica entre a indústria automóvel chinesa e a sua corrente sobretudo europeia, outra tónica que salta imediatamente à vista no salão de Munique é o domínio dos carros elétricos. Motores a combustão fora de rota Na ronda que o Expresso fez pela quase totalidade dos vários pavilhões que compõem este evento, não é fácil vislumbrar novos carros equipados com motores a combustão, quanto muito alguns híbridos, sem dúvida, e também algumas amostras de modelos propulsionados a hidrogénio , praticamente só para algumas marcas dizerem que também estão a olhar para essa tecnologia, sem expressão significativa no mercado e muito menos sem datas anunciadas para comercialização em massa. Curiosamente, neste que é um dos grandes salões automóveis mundiais, quase não se deu pela presença norte-americana, apesar da importância estratégica que aquele mercado tem praticamente para todas as marcas globais. Aqui e ali foram também visíveis algumas propostas chinesas para a micro-mobilidade ou, por outras palavras, a produção de carros mais pequenos mais adequados ao centro das cidades. Neste domínio a smart , que hoje tem capital europeu e chinês , marcou alguns pontos com o anúncio da decisão de reinventar um dos seus ícones da mobilidade urbana. A marca, agora de viaturas 100% elétricas vai produzir um novo veículo citadino de dois lugares. “Em contínuo crescimento, o portfólio da marca vai contar agora com uma novidade no segmento A. O modelo 100% elétrico irá combinar soluções tecnológicas conscientes com as já conhecidas características do original e icónico smart fortwo”, disse um dos seus responsáveis. Desenhado pela equipa de design da Mercedes-Benz, o veículo contará com novas soluções tecnológicas para o segmento que foi estabelecido pelo original smart fortwo, há 27 anos. O, agora rebatizado, smart #2 será produzido na China e encontra-se atualmente na fase final de design e desenvolvimento. IA e carros voadores O que também ficou evidente um pouco por todo salão foi a aposta cada vez mais forte na digitalização a bordo dos automóveis, no recurso à Inteligência Artificial (IA) e, quase em jeito de provocação, algumas construtoras chinesas a apresentarem, cara a cara com os gigantes europeus, os primeiros protótipos dos carros voadores. Foi o caso da GAC - Guangzhou Automobile Group e da XPeng Motors, só para assinalarmos dois dos casos mais evidentes em Munique, com esta última marca (que também já está em Portugal) a exibir não apenas um novo supercarro elétrico como um dos seus protótipos voadores, precisamente em frente ao também imponente stand da Volkswagen, que ali apresenta alguns dos novos modelos de algumas marcas que integram o grupo, como a Skoda, a Cupra e a própria VW. Mas também a Porsche , do grupo VW , ali marcou pontos, com a apresentação do no modelo elétrico Cayenne, mas com uma novidade: a Porsche Wireless Charging (PWC). Ou seja, a possibilidade de carregamento das suas baterias, mas sem fios, através de uma placa que se instala no chão em comunicação , por indução , com um recetor situado no subchassis do carro. Tecnologia super híbrida Mas em matéria de impacto na opinião pública, o que também deixou marcas na passada segunda-feira, foi o anúncio, pela chinesa BYD, de um novo modelo elétrico: o SEAL 6 DM-i Touring, o primeiro modelo “combi” da BYD, que fez a sua estreia europeia. Equipado com a tecnologia Super Híbrida DM-i, oferece uma autonomia combinada superior a 1300 km. Chega a Portugal já este mês. Num auditório instalado no salão (provavelmente um dos maiores de todo o evento, talvez idêntico, em área ao da BMW), e perante mais de mil pessoas, muitas das quais que já não tinham lugares sentados, Stella Li, vice presidente executiva da BYD, confirmou igualmente que o modelo DOLPHIN SURF será o primeiro modelo produzido na futura fábrica do grupo em Szeged, na Hungria, cuja abertura está prevista para o final de 2025. Este será, segundo a marca, o ponto de partida da produção “Made in Europe, for Europe”, consolidando a presença da marca no mercado europeu. “A Europa é um mercado de enorme importância para a BYD. Por isso, é simbólico anunciar aqui, no maior salão automóvel da região, que o DOLPHIN SURF será o primeiro veículo a sair da nossa unidade de produção na Hungria”, destacou Stella Li. A líder da BYD confirmou ainda que a muito aguardada tecnologia Flash Charging chegará à Europa mais cedo do que o previsto, com 200 a 300 estações operacionais até ao segundo trimestre de 2026, lideradas pela marca premium DENZA. Recorde-se que com esta nova geração de estações de carregamento será possível obter energia suficiente para uma autonomia de 400 quilómetros em apenas 5 minutos. Do salão para as ruas O que este salão tem de muito especial, face a outros congéneres noutras partes do globo, é que muitas das marcas saem do pavilhão de exposições para se mostrarem em várias avenidas e praças emblemáticas da cidade de Munique, como a Königsplatz, a Odeonsplatz, a Wittelsbacherplatz, a muito central Marienplatz, entre muitos outros locais. Ao final da tarde de segunda-feira, ainda era possível observar a azáfama em torno dos últimos retoques na construção de alguns stands das marcas mais emblemáticas. Além da observação dos stands e dos seus conteúdos, onde estão expostas muitas das novidades mundiais do sector, o público em geral pode também efetuar alguns test drive com os modelos preparados para o efeito: no total estarão disponíveis 231 veículos , um aumento de 27% em relação à edição anterior. Marcas como a Audi, BYD, Ford, Hyundai, KIA, Mercedes-Benz, Porsche, Togg e Volkswagen vão oferecer algumas dessas experiências de condução. O Expresso viajou a convite da smart Vítor Andrade Coordenador de Economia Vítor Andrade