IA NO TRABALHO: O RISCO DA FALTA DE TREINAMENTO PELAS EMPRESAS
2025-09-10 21:05:30

A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, mas não é mágica. Seu valor depende da capacidade humana de interpretá-la, aplicá-la e aprimorá-la. Ex-jornalista e ex-publicitária Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil. Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS. A adoção da inteligência artificial (IA) avança em ritmo acelerado nas empresas. Mas o mesmo não acontece com a capacitação de seus profissionais. O Guia Hays 2025 revelou que 41% dos entrevistados em Portugal usam IA no trabalho. No entanto, 88% afirmaram não ter recebido qualquer formação por parte dos empregadores. Tal descompasso não é exclusivo. No Reino Unido, só 13% dos funcionários relataram a Hays ter recebido treinamento para o uso de IA. No Brasil, outra pesquisa, essa com os líderes da área de tecnologia em grandes e médias empresas, mostrou cenário igualmente preocupante: 74,7% dos líderes entrevistados apontaram a falta de conhecimento como barreira cultural e operacional à adoção da IA no trabalho. Em termos práticos e à luz dos vultosos investimentos feitos em tecnologia, a ausência de capacitação, mais que lacuna de recursos humanos, é um risco estratégico monumental. A falta de preparo das equipes impede o pleno aproveitamento do potencial da IA para transformar processos, gerar insights valiosos e acelerar a tomada de decisões. E pode mesmo colocar em risco a integridade das empresas. Quer receber notícias do PÚBLICO Brasil pelo WhatsApp? Clique aqui. Foquemos em três das consequências mais recorrentes. Sem treinamento, de pouco adiantam sofisticados dashboards. Os quadros cheios de números e gráficos viram mera decoração se o conhecimento ali gerado pelo cruzamento de dados e cenários complexos passar despercebido ou for mal interpretado. Mais do que limitar a eficácia da IA em apoiar o processo decisório, a falha humana na interpretação pode levar a companhia ao caminho errado. A segurança cibernética também é impactada. Profissionais despreparados podem inadvertidamente compartilhar dados sensíveis ou utilizar ferramentas de forma insegura. O cenário se agrava com o aumento de ataques com uso cruzado de IA e aprendizado de máquina para criar conteúdo falso, mas muito realista, geralmente envolvendo áudio, vídeo ou imagens. Conhecido como deepfake, causa prejuízos crescentes. O estudo Resemble AI Deepfake Incident Report revelou que as perdas causadas por fraudes envolvendo deepfakes ultrapassaram US$ 200 milhões no primeiro trimestre de 2025. Em Hong Kong, uma empresa transferiu US$ 25 milhões para fraudadores que se passaram pelo diretor financeiro. Pesos-pesados globais como Ferrari e WPP também já foram vítimas desse tipo de fraude, como publicou o Wall Street Journal. No marketing, o risco é a pasteurização. Sem orientação estratégica, o uso automatizado da IA sem orientação estratégica pode levar à padronização de mensagens e campanhas. Pasteurizada, a comunicação perde proximidade com o público-alvo e não consegue transmitir os diferenciais da marca. Em vez de personalização e relevância, o que se vê é repetição e perda de identidade. A soma de todas essas falhas causa enorme impacto na competitividade. Empresas que negligenciam a capacitação dos times correm o risco de ficar atrás de concorrentes que integram tecnologia e expertise humana de forma eficaz. Pior: arriscam-se a perder talento humano. Quando os colaboradores se sentem despreparados, a frustração aumenta e o engajamento despenca, afetando a capacidade de reter talentos. Portanto, capacitar equipes para usar a IA de forma inteligente e segura é tão crucial quanto implementar a tecnologia. Investir em formação não é apenas uma questão de responsabilidade corporativa. Trata-se de uma decisão estratégica que impacta diretamente a inovação, a competitividade e, em última instância, a sobrevivência dos negócios. A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, mas não é mágica. Seu valor depende da capacidade humana de interpretá-la, aplicá-la e aprimorá-la. E isso só se faz com conhecimento. Caso contrário, é o mesmo que colocar o mais possante dos automóveis sob a direção de quem mal controla uma bicicleta. Promo App PÚBLICO BrasilUma app para os brasileiros que buscam informação. Fique Ligado! Ex-jornalista e ex-publicitária Suzane Veloso