OPINIÃO - O CONTRA-ALMIRANTE QUE MORREU DE PÉ
2025-09-12 21:04:46

A história da minha vida (22 episódio): de carocha para Portugal Omeu pai, com um canudo de Master of Arts tirado na velha universidade de Oxford antes da II Guerra, mas com mais horas de remo do que de estudo, sempre teve muita dificuldade em arranjar empregos. A falta de disciplina, por um lado, e a falta de amor ao dinheiro, por outro, também não ajudavam. Toda a vida foi uma espécie de funcionário de Nossa Senhora de Fátima, com contrato e promoções automáticas, mas sem vencimento. Em meados de 1958, lá vieram aquelas duas alminhas com os tarecos todos enfiados num vw carocha e uma criancinha sentada numa cesta de pão, colocada nas traseiras do carro, rumo a Portugal, mais concretamente à Cidade Invicta (nunca foi ocupada. exceto pelas tropas de Napoleão, que provocaram o célebre desastre da Ponte das Barcas; as barcas fizeram de ponte, mas com a multidão em fuga e em pânico, as barcas soltaram-se e centenas de desgraçados morreram afogados no Douro; tudo isto se passou aquando da 28 invasão comandada pelo Marechal Soult, no dia 29 de Março de 1809. Ainda hoje no Cais da Ribeira está lá uma imagem de Nossa Senhora, e uma vela que arde de dia e de noite, desde essa data, a recordar a tragédia). Voltando agora ao velho carocha ; nessa altura ninguém sonhava com cintos de segurança. Nem à frente, quanto mais atrás. Poucos sabem que os alemães tentaram vender a Volkswagen aos americanos logo após a II Guerra Mundial. Estes, sentindo que a marca vinha manchada de sangue, recusaram o negócio, mas aceitaram comprar 20.000 carochas para as tropas de ocupação. Foi o suficiente para que a famosa marca alemã, alguns anos mais tarde, conseguisse levantar a cabeça. Hoje, pouco mais de 70 passados, são quase líder mundial, com mais de 170 fábricas espalhadas pelo mundo (uma delas está em Palmela). Durante os anos 30, Hitler construíra centenas e centenas de quilómetros de autoestrada, a pensar na mobilização dos seus blindados (Panzer). Depois pediu ao Eng." Ferdinand Porsche que as enchesse de automóveis. Foi assim que nasceu um carro prático, popular e barato, o “carro do povo” (Volkswagen) A resposta europeia ao Ford D. Lembro-me vagamente dessa viagem, que deve ter durado bastante mais do que uma semana. Punha-me de pé na tal cesta e agarrava-me aos cabelos do meu pai, que já não eram muitos. Ele vinha constantemente a abanar a cabeça para se libertar daquele incómodo e imerecido castigo. Ainda hoje me lembro daquela cabeça a abanar à minha frente! Atravessámos a Europa de uma ponta à outra, para finalmente chegarmos ao Porto. A minha avó materna saíra há pouco de um divórcio muito doloroso, e fora viver para o Porto, com muitas dificuldades. Os meus avós maternos tiveram oito filhos, mas não tiveram um casamento feliz. A vida de um casal divorciado em Portugal nos anos 50 não era fácil. Estavam como que exilados na sua terra. Mas quem mais sofria eram os filhos, que se viram de repente sem amigos nem convites, e sobretudo sem compreender bem a situação. O meu avô materno, Francisco, cresceu sempre à sombra do pai, um velho soldado e marinheiro de àfrica, o altamente condecorado Contra-almirante João de Azevedo Coutinho. Aconteceu-lhe aquilo que acontece aos arbustos quando têm o azar de crescer junto aos grandes e poderosos carvalhos. O meu bisavô materno era aquilo a que se pode chamar um herói; e o filho, o anti-herói. Atrevo-me a recordar aqui um pequeno episódio, que aconteceu na Casa de Santo Estêvão, em Alfama, das poucas que resistiram ao terramoto de 1755, e onde o meu bisavô viveu a sua juventude, antes de ingressar na Marinha e partir para Moçambique, nos finais do século XIX. Hoje essa casa pertence ao Eng.“ Luís de Azevedo Coutinho, de quem sou parente, já bastante afastado. Os nossos bisavôs eram primos, mas cresceram como irmãos, tendo ido ambos para a Marinha. Há alguns anos, ainda o pai do Luís era vivo, houve nessa casa um almoço de família, em que também estava presente o meu tio Pedro, acabado de chegar de àfrica. Esse irmão da minha Mãe era a alegria da “bicharada”, que se sentava á sua volta a ouvir histórias e peripécias da sua vida em Moçambique. Casou três ou quatro vezes, ninguém sabe quantos filhos tem, e ele também nunca soube. Conseguiu a anulação sucessiva de todos os casamentos, perante a estupefação da nossa tia salesiana, que conseguia explicar todos os milagres, menos esse. Durante o almoço perguntou ao outro Tio Pedro, o dono da casa, o que era feito de uma pequena arca chinesa, com encastrados em jade e madrepérola e que toda a vida existira numa das salas da casa. Infelizmente, já ninguém se lembrava da misteriosa arca. Contou então que o velho almirante, meu bisavô, na altura um jovem tenente da Marinha com apenas 20 anos de idade e ao comando de uma fragata, numa viagem de regresso de Lourenço Marques para Lisboa, e no meio de uma terrível tempestade noturna no Cabo, vira cair ao mar um jovem marinheiro chinês. Sem a mínima hesitação atirou-se à água. Quis a divina providencia que o veleiro, depois de muitas voltas, conseguisse localizá-los e içá-los para bordo. Normalmente, homem ao mar é homem perdido, para mais a meio de uma tempestade noturna, em finais do século XIX. Alguns anos mais tarde, apareceu a tal arca na Casa de Santo Estevão, em Lisboa. o chinês fizera fortuna em Hong Kong e nunca mais esquecera o jovem tenente que, sem pensar na sua, salvara a vida dele. Posteriormente a arca foi vendida a um antiquário do Príncipe Real, sem que na altura ninguém soubesse da sua proveniência. As histórias do meu bisavô Azevedo Coutinho vêm todas contadas num livro intitulado “Memórias de um Velho Soldado e Marinheiro de àfrica”, um verdadeiro manual de instruções para quem vá para Moçambique e queira saber o que os portugueses por lá andaram a fazer entre 1890 e 1910. Foi contemporâneo de Mouzinho, por quem tinha admiração e estima. Como Mouzinho, também foi um grande e leal monárquico, lugar-tenente de D. Manuel II e mais tarde de D. Duarte Nuno, e um dos responsáveis pela reconciliação de ambos os ramos Braganca bem como do levantamento da Lei do Banimento, que permitiu o regresso dos Bragança a Portugal, ao cabo de mais de 100 anos de exílio. Salazar tinha por ele uma grande estima e respeito, visível na correspondência que ambos mantiveram ao longo da vida. Foi também presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa entre 1940 e 1944. Por tudo isto, o falecido Almirante Sousa Leitão teve a simpatia e amabilidade de me fazer sócio desta instituição, dando-me o número dele. Morreu literalmente de pé, como sempre vivera. Conta a nossa tia freira que, na véspera da sua morte ejá cheio de dores, a mandou chamar, pediu-lhe para o ajudar a vestir a sua farda de vice-almirante, onde mal cabiam as medalhas (todas elas ganhas com sangue, suor e lágrimas, e não com vigarices ou chutos na bola). Depois, lenta e penosamente, rezaram ambos um Terço, virados para a janela que dava para a Rua Pascoal de Melo. Foi a sua despedida deste mundo. Fle sabia que estava prestes a entregar a alma ao Criador; e de facto morreu passadas umas horas. Morreu de pé, como sempre vivera. A minha tia Beca (Isabel), sua neta mais velha, teria nessa altura talvez 16 ou 17 anos, com muitos anos vividos em àfica nas missões, lembrava-se bem desse episódio, tão forte e marcante. [Continua] Contra-almirante João de Azevedo Coutinho OTTO CZERNIN