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MUNDO - CHINA E RÚSSIA PROCURAM UMA ORDEM MUNDIAL ALTERNATIVA”

Jornal de Notícias

2025-09-13 06:00:06

Políticas erráticas nos Estados Unidos e na Europa abrem porta a novo bloco de poder virado ao Oriente maria.campos@jn.pr PEQUIM A apresentação de armas de ponta, num desfile em Pequim, marcou um momento de viragem na postura da China no cenário global. Para além da exibição do poderio militar, é de especial importância perceber quem assistiu ao momento e saber ler os sinais: Vladimir Putin e Kim Jong-un a ladear Xi Jinping, com mais de 25 representantes estrangeiros. Para Tiago André Lopes, professor de Estudos Asiáticos na Universidade Lusíada do Porto, a parada foi uma “celebração histórica” e uma “ferramenta de propaganda”. Além de assinalar os 80 anos do fim da II Guerra, marcou o fim da “ordem orientada pelo eixo Londres-Washington” e a transição para um “eixo Moscovo-Pequim”. Se a demonstração de armas deixou pouco por decifrar, outras mensagens circularam em tons mais subtis, mas não menos certeiras. “Traduz uma mensagem externa de poder e interna de segurança”, especificou Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense. Assim, há sinais que “colocam a China no centro de um vestígio de uma ordem alternativa ” àquela dominada pelos EUA. Para o Ocidente, a mensagem é de “dissuasão”. Para o resto do Mundo, é a “promessa de voz numa ordem não ocidental”. Tiago André Lopes concorda: a China quis afirmar-se como um “provedor de segurança” para os s estados geográficar e culturalmente próximos; alertar os vizinhos sobre a escolha de aliados e mostrar aos contendores, comoos EUA e a União Europeia, que “a China já se consegue defender sozinha ”. LINHAS GEOPOLITICAS Do lado do Ocidente, Pedro Ponte e Sousa não estranha a falta de participação, que reflete a “crescente representação de goverónos de extrema-direita”, a “normalização de forças neofascistas e neonazis” e as tensões políticas, económicas e militares, que reduziram o interesse da UE na diplomacia direta. Por outro lado, Tiago André Lopes considera que esta ausência não deve ser interpretada de forma simplista, já que participaram antigos líderes de países tradicionalmente ocidentais. “A Chinae os seus aliados não precisam de se travestir de ocidentalismos para poderem organizar eventos. Esse é um erro nosso. Se os blocos se estão a formar? Estão. As linhas são cada vez mais vincadas”, defende ao JN. Pedro Ponte e Sousa sublinha a presença dos líderes da Eslováquia, Sérvia e Hungria. “Têm fortes relações com a Rússia, pretendem o reforço das relações com a China e uma solução pacífica do conflito na Ucrânia”, explicou. GUERRA COMERCIAL A política comercial de Washington criou atritos, mas deu centralidade a Pequim. “Há uma ascensão da China e uma contestação aos comportamentos do Ocidente em áreas como a segurança e o comércio”. o país está a aproveitar as incoerências dos EUA e da UE para se projetar como novo centro do “mundo de regras e normas”, apoia Tiago André Lopes. Trump, que esteve ausente, acusou Xi, Putin e Kim de "conspiração”. “e absurdo. o alinhamento entre a China e OS líderes presentes nem sequer é tão forte quanto se tem descrito no Ocidente. Se há alguém que gosta de líderes autoritários e pretende copiá-los é Trump”, afiança Ponte e Sousa. “Teve uma reação infantil. Os Estados podem ter relações diplomáticas entre si sem quererem prejudicar OS EUA. Os comentários de Trump dizem mais de como Washington faz política externa do que a China”, concorda Tiago André Lopes. MUDANçAS NAS ALIANçAS Para Pedro Ponte e Sousa, a imagem do trio não é um detalhe: “Pretende demonstrar Xi como árbitro. Contudo, não há uma frente autoritária unida , os seus interesses são diferentes: a China não quer uma aliança formal; a coreia do Norte procura quebrar o isolamento; e a Rússia quer apoio para contornar sanções”. O maior destaque é Kim Jong-un porque, nos 70 anos do Dia da Vitória, foi o então presidente da coreia do Sul que acompanhou Xi. “Nós, aqui na Europa da União, começámos com essa ideia delirante das democracias vs autocracias. A China não lê a realidade assim: a realidade constrói-se pOr es-tados que se organizam pela proximidade ou distanciamento diplomático. A natureza institucional do regime pesa pouco, o que pesa é a natureza ideológica. A UE criou a ideia de que o seu relacionamento se baseia exclusivamente no primado da lei, dos direitos humanos e da democraticidade, mas não rompeu o acordo com Israel e tem canais diplomáticos com a Arábia Saudita, o Azerbaijão ou a Síria”, explica Tiago André Lopes. DOIS LADOS DA MOEDA A escalada armamentista parece empurrar o Mundo para uma nova Guerra Fria, com uma lógica de “diplomacia coerciva”: “mostrar capacidade para moldar cálculos de risco dos adversários”. A China pretende comunicar capacidades de longo alcance que façam os adversários pensar duas vezes”, argumenta Pedro Ponte e Sousa. A tríade nuclear completa é um “aviso” para o mar do Sul da China. “A parada militar serviu para mostrar a Taiwan que agora é possível passar das ameaças em papel a ações militares. A China quis demonstrar que OS EUA passam a ter um competidor no Indo-Pacífico”, considera Tiago André Lopes. Para Pedro Ponte e Sousa, será a “desculpa ideal” para o reforço militar dos aliados ocidentais, que irão “promover a ideia de que Pequim dá cobertura a regimes sancionados”. No entanto, poderá também ser visto como "patrocinador de uma ordem multipolar”. “A China tem capacidade política e militar para ser alternativa e lidera um fórum onde podem caber todos, que podem juntar-se sem escolher um lado ”, remata. DESTAQUE "Bom amigo” Xi Jinping afirmou que “Portugal é um bom amigo da China” e elogiou o papel dos primeiros-ministros Guterres, Barroso e Costa. No primeiro dia da visita ofcial de Luís Montenegro, O líder chinês salientou que “os dois povos pos suem idiossincrasia, abertura, inclusão, progresso e autonomia”. Manobras na fronteira China, Rússia e Mongólia realizaram as primeiras manobras conjuntas organizadas pelas forcas de defesa de fronteiras. O exercício focou-se na "prevenção e combate a atividades terroristas e de sabotagem". ÍNDIA Donald Trump aproximou rivais históricos Apesar de rivalidades históricas e disputas fronteiriças, têm-se multiplicado sinais de aproximação entre a India e a China. “o que as aproxima não é um interesse comum, mas um oponente. Modi olha para a China porque percebe que OS EUA se tornaram um desafiador. o que vimos na parada militar de Pequim foi a reificação do antiamericanismo para proveito de Pequim. A cola diplomática da valsa de aliados e contra-aliados é mais a contestação aos EUA e menos a proximidade a Pequim”, explica Tiago André Lopes. Para Pedro Ponte e Sousa, a ausência do primeiro-ministro indiano Narendra Modi representa uma tentativa de equilíbrio entre dois tabuleiros: preservar a parceria estratégica com OS EUA sem deixar de cultivar o diálogo com Pequim e Moscovo. Xi Jinping escolheu Vladimir Putin e Kim Jong-un para estar a seu lado Parada mostrou poderio chinês ao Mundo Maria Campos