FERRARIS, LEGO E MEMÓRIAS - O MUNDO DE PEDRO FERREIRA: ROLANTES & FERRARI S
2025-09-13 21:06:39

Como começou a sua ligação com o Lego e com a Ferrari? Estive na Alemanha de 1996 até 2000 a trabalhar na hotelaria (serviço de mesa que ainda hoje faz quando o solicitam) e em 1998, vim a Portugal celebrar o meu 24.® aniversário. O meu pai, que era camionista, ofereceu-me como prenda um Ferrari em Lego _ daqueles das campanhas promovidas pela Shell, que se ganhavam na troca de pontos na compra de combustível. E um modelo pequeno, mas para mim foi o maior presente de todos, (modelo que nos mostra e empunha com orgulho). A partir daí, nunca mais parei, e a coleção foi crescendo, até hoje. Lembra-se do seu primeiro brinquedo? Claro que sim, (afirma com um sorriso). Não havia muitos. Tinha dois piões, um aro de bicicleta com um pau para empurrar, uma cavilha de ferro para jogar ao prego e um carrinho feito com rolamentos. Aliás, comecei a reconstruir esse carrinho há pouco tempo. Esses foram os meus brinquedos, (lembra com alguma nostalgia). Reparo que o movimento e a ação sempre estiveram presentes na sua infância... Sim! Acho que desde pequeno 6/7 anos procurei o movimento, velocidade (sorri ao recordar). Tinha um grupo de colegas de escola e amigos dos 7 aos 12 anos e ao fim do dia e ao fim de semana fazíamos corridas e competições com os carrinhos de rolamentos aqui ao pé de casa, ladeira abaixo. As ladeiras da aldeia eram as nossas pistas. As nossas casas eram as “boxes” onde depois arranjávamos e melhorávamos as nossas “máquinas”. Por isso um primo meu batizou-nos de os rolantes”. Daí agora: Rolantes & Ferraris, uma recordação desse tempo e uma paixão de agora. Como Como é é o o seu seu processo de de criação? criação? Normalmente passo cerca de uma hora e meia por dia no meu espaço , que agora chamo de "atelier", nome que adorei, aliás. Cada modelo começa de forma diferente. ás vezes vejo um modelo ORIGINAL que compro e monto. Outras vezes porque me aparece uma foto que me inspira e partindo de uma base da Lego existente numa determinada escala, eu faço a minha própria versão de modelo modificado a que chamo MOD S. Depois há ainda os modelos que crio de raiz, criação minha e que não existe na Lego = SáO OS MOC s. Tenho assim três categorias na minha coleção. O tempo que levo a construir cada carro é difícil de contabilizar e não é algo que me preocupe, embora quando começo o objetivo é acabar para começar outro de raiz ou modificar algum existente para o melhorar. Tem ferramentas próprias para as suas construções Ferrari? Sim, construí e adaptei um conjunto de ferramentas que uso nas montagens. Mas nunca altero o aspeto exterior das peças, para que não percam a sua identidade Lego. Quantos modelos já construiu? Só Ferrari, mais de 90 de em diversas escalas. Alguns são versões modificadas, outros completamente originais. Há modelos que a Lego nunca produziu _ e que eu fiz de raiz, vendo fotografias dos carros, os tais MOC s. E como construir algo que só existe na minha cabeça e que alimenta a minha criatividade. E na maior parte das vezes são modelos que vou aperfeiçoando ao longo do tempo. Alguma construção foi especialmente difícil ou marcante? Porquê? Sim, está a ser um TestaRossa. Já la vão três anos e ainda não está concluído. Falta sempre algo, porque sou exigente com o pormenor. Mas vou lá chegar. Falta mesmo pouco. O que o fascina nesta marca? (os carros, a velocidade, o design...?) Penso que esta paixão existe porque foi o primeiro que tive e também porque gostava de o ver na televisão a correr nas pistas. Depois porque procuro estar sempre a par do que vai caindo na marca Ferrari, os modelos, as cores eu sei lá...é um mundo tão grande que não há possibilidade de saber tudo sobre esta marca. Eu bem tento ...! E sempre foi fã de corridas de automóveis? Sim, desde os seis anos. Ficava colado à televisão a ver Fórmula 1. O som dos motores, a velocidade.. tudo aquilo mexia comigo. O Schumacher era o meu ídolo, mas também o Felipe Massa, o Rubem Barichello e o Kimi Rãikkõnen. Lembro-me de todos muito bem. De vermelho! Na Ferraril Patrocinados pela Shell. Guardo também uma memória do Senna claro tenho até um espaço especial só para ele. Já vendeu alguns modelos ou constrói apenas para si? Sim, já fiz dois modelos (MOC S) que depois me pediram para replicar e vender, porque não existem no mercado. ãs vezes também me pedem apenas para montar kits mais complicados. Faço-o sempre com o mesmo gosto, como se fosse o primeiro e fosse para mim. O que representa para si este “trabalho ? Representa tudo. é o meu momento, o meu escape, a minha ligação ao passado e ao futuro. é mais do que um passatempo, é o que me move. E também porque sempre gostei de inventar coisas novas, de criar com o que havia. Já em criança reciclava muita coisa. Tenho que começar a catalogar tudo para não me perder, (refere em tom de desabafo). O que gosta de construir para além de Ferrari? Gosto de desafios, meus e de outras pessoas. Por exemplo há três anos iniciei um Quartel de Bombeiros que neste momento já tem mais de 2m2. Foi uma “provocação” de um amigo bombeiro e desde aí tem sido sempre a crescer e a melhorar. Fiz também uma réplica do Titanic, uma bicicleta, e até um mini gaiteiro de homenagem ao “Ti Carriço”, gaiteiro que faz parte de muitas das minhas memórias. Tenho também uma interpretação minha da Serra do Bussaco. Como se fosse uma Pintura, ou melhor, escultura em Lego. Criei agora mesmo uma máquina fotográfica, exclusiva para esta nossa conversa. Mas a paixão são os carros e tenho outras marcas e modelos que vou construindo. Conhece alguém que faça um trabalho idêntico ao seu, uma paixão por Ferrari? Conheci só um australiano, mas “perdi-Ihe o rasto”. Deve existir, mas desconheço. Agora colecionadores de modelos Lego Ferrari originais há muitos em Portugal e no estrangeiro. Tem vontade de mostrar esse trabalho ao mundo? Sim! Gostava de ter um espaço para fazer exposições temporárias. Já fiz algumas para mostrar os modelos, mas também queria contar a história por trás de cada um. Porque cada carro, cada construção, tem um pedaço meu, da minha vida, das minhas memórias. e parece que essa oportunidade vai surgir com alguém que se propôs a fazê-lo. Vamos precisar de tempo! Contudo vamos conseguir que mais pessoas conheçam o que faço e assim servir de inspiração e motivação. Tem um cartão de visita: “Rolantes & Ferrari s”. Quando e porque decidiu faze-lo? o cartão de visita é para isso mesmo, dar-me a conhecer. "A história de Pedro Ferreira Rolantes & Ferraris mostra que, num tempo em que tudo é imediato, ir devagar pode ser um verdadeiro ato de luxo. Montar cada detalhe do seu próprio universo com as próprias mãos, não é nostalgia, é resiliência. Criar algo com tempo, propósito e paixão ainda é e talvez sempre seja _ o que realmente faz a diferença.” e neste caso, cada modelo Ferrari conta não apenas uma história de velocidade, mas de humanidade. Jornal da Mealhada com Fernando Simões Fotografia: Fernando Simões N uma aldeia tranquila da Serra do Bussaco, entre Luso e Penacova, vive um homem que transforma blocos de ABS uranu o plástico das peças Lego em verdadeiras obras de arte sobre rodas. Pedro Ferreira, 50 anos, é muito mais do que um amante da Ferrari: é um construtor de sonhos em miniatura, guiado pela memória, pela paixão e por uma devoção incomum à arte do detalhe. Entre as matas que limpa com a roçadora (porque maquinaria pesada não faz parte da sua jornada de trabalho), e os caminhos que mantém para as juntas de freguesias da região, Pedro Ferreira guarda um segredo que brilha com o vermelho da Ferrari e o brilho característico das peças Lego. são mais de 90 modelos mmmacen muitos únicos, alguns modificados, outros inteiramente criados por ele aiben que compõem uma coleção que é mais do que um passatempo: é um testemunho de vida, de resiliência e de amor pelas causas. Nesta entrevista, abriu-nos as portas do seu “ atelier” e um pequeno espaço onde o tempo parece ter parado, mas onde o mundo acelera. Onde cada peça encontra o seu lugar exato, e aí conhecemos o homem que trata a Ferrari por “tu” e vê em cada Lego não um brinquedo, mas uma maneira de montar e contar parte da sua própria história, peça a peça. Iluminados apenas por uma lâmpada vinda do teto e a luz que entra por uma pequena janela, filtrada por uma bandeira de Portugal e uma camisola da Ferrari, o que confere um ar ainda mais intimista ao espaço, fomos conversando.