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ESPELHO MEU, ALGORITMO MEU: A EDUCAÇÃO NO REINO DO REFLEXO

Observador Online

2025-09-16 17:18:05

A questão não é saber se a máquina é “mais bonita” ou “mais justa” do que o professor, mas compreender se não estaremos a reduzir a educação a um concurso de reflexos. Mesmo em período de merecido ócio estival, quando a mente se divide entre o azul do Atlântico e o verde da serra, é impossível ignorar os murmúrios do progresso tecnológico. Estar de férias não implica desligar o olhar crítico; pelo contrário, o descanso devolve-nos uma lucidez quase irónica perante as mais recentes pérolas do mundo académico. A última, saída da cartola da venerável Grammarly, promete adivinhar a nota de um trabalho universitário e até simular os comentários que um professor poderia escrever. Um oráculo digital, capaz de traduzir em dígitos o que antes exigia experiência, intuição pedagógica e, digamos, algum humor humano. É impossível não recordar a clássica indagação da madrasta dos contos de fadas: “Espelho meu, espelho meu, quem é mais bonita do que eu?” No novo conto digital, a pergunta adapta-se: “Grammarly meu, Grammarly meu, que milagre de nota me reservas tu?” E, como num reflexo imediato, o sistema responde: “És brilhante, vales 17 em 20 valores, segundo os critérios prováveis do teu professor.” Eis a educação transformada em desfile de vaidades digitais, com a aprendizagem reduzida a refém do capricho algorítmico. Esta aplicação, ao permitir carregar um texto, a grelha de avaliação e até informações sobre o docente, inaugura um modelo pedagógico que pouco tem a ver com formação intelectual. O estudante já não procura compreender; limita-se a calibrar o texto até que o espelho digital lhe devolva a resposta desejada. Cada frase acrescentada ou retirada é apenas mais uma ficha lançada na slot machine da avaliação. O quadro é quase cómico: um estudante, munido da confiança infalível que, supostamente, só os algoritmos conferem, interpelando o docente com desdém e perguntando por que razão a nota real difere daquela que a máquina atribuiu. É um duelo desigual entre a sabedoria acumulada de anos de docência e a lógica simplificada de um sistema que aprendeu a reciclar preconceitos digitais. A ironia sobe de tom quando se descobre que a ferramenta consulta informações sobre o professor recolhidas na Internet, incluindo críticas anónimas de estudantes. O professor, outrora guardião da exigência crítica, reduz-se a caricatura pesquisável. O que se mede já não é a qualidade de um texto, mas a capacidade da máquina em replicar tendências, enviesamentos e rumores. A avaliação, que deveria ser um diálogo formativo, converte-se num reflexo de espelho barato. Ainda assim, seria ingénuo negar o potencial positivo destas ferramentas. A inteligência artificial pode, de facto, fornecer comentários rápidos, sugerir clareza ou detetar incoerências, sobretudo em contextos onde a atenção individualizada é escassa. Contudo, há uma fronteira clara entre o comentário e o julgamento. Avaliar exige contexto, memória, intuição e, sobretudo, confiança entre quem ensina e quem aprende. A infantilização do estudante surge como o risco mais preocupante, como já discutido em “Pensar ou Delegar? Sobre os Eruditos na era IA” e “Cérebro em standby: A intrusão silenciosa da IA nas salas de aula”. Ao confiar mais no oráculo digital do que no próprio raciocínio, o estudante espera que o reflexo lhe diga não apenas se é “mais bonito”, mas também se merece existir no palco académico. Quando o professor real contraria a previsão da máquina, instala-se a crise: a autoridade docente, já tantas vezes questionada, passa a ser medida pela régua de uma aplicação. O problema, porém, não é apenas de fiabilidade técnica, mas sobretudo de modelo educativo. Estamos a consolidar uma cultura centrada na nota (como se observa todos os anos no acesso ao ensino superior), onde aprender equivale a maximizar pontos e não a construir sentido. A educação, reduzida à corrida por classificações (está espelhado no ranking das escolas publicados todos os anos), esquece que o essencial está no processo de descoberta e não no reflexo imediato de uma nota. É possível, contudo, imaginar caminhos alternativos. No curto prazo, será necessário recusar a delegação da função avaliativa em plataformas privadas, pois a avaliação é um ato público e ético, inseparável da responsabilidade docente. As ferramentas de inteligência artificial podem assumir-se apenas como auxiliares, oferecendo sugestões formais ou estruturais, mas nunca simulando juízos de valor. Também seria útil incentivar métodos de avaliação que valorizem mais o processo do que o produto (debates, projetos colaborativos, entre outros), onde o pensamento crítico se torna mais evidente e menos redutível a algoritmos. Num horizonte de médio prazo, seria inevitável repensar os currículos, integrando uma literacia em inteligência artificial que permita aos estudantes compreenderem não só os potenciais benefícios destas tecnologias, mas também os seus enviesamentos e limites. Novos modelos de avaliação poderiam ser concebidos de modo a resistir à manipulação algorítmica, explorando problemas complexos e contextos reais que exijam criatividade, argumentação e presença crítica. E, em vez de se sonhar com a substituição do docente, talvez fosse mais sensato explorar a colaboração entre humano e máquina, permitindo que a inteligência artificial auxilie na deteção de padrões de aprendizagem ou na identificação de fragilidades, sem nunca assumir o papel de juiz final. No fundo, a chegada destas ferramentas é um espelho que nos é colocado à frente. Reflete tanto o avanço tecnológico como as nossas ansiedades mais profundas sobre o que significa educar. A questão não é saber se a máquina é “mais bonita” ou “mais justa” do que o professor, mas compreender se não estaremos a reduzir a educação a um concurso de reflexos. A ironia é que, ao perseguirmos a perfeição algorítmica, corremos o risco de perder a imperfeição criativa que define a aprendizagem humana. Talvez, quando a febre dos oráculos digitais tiver passado, possamos regressar a essa simplicidade exigente que consiste em aprender não para obter a nota perfeita, mas para ousar perguntar, e até errar, para além do espelho. Fernando Moreira Professor Catedrático, Universidade Portucalense Fernando Moreira