ANDA DAÍ MAIS EU ANTÓNIO JOSÉ FARINHA MADEIRA - NÃO ME ESTAVA A VER A ANDAR COM UMA ESPINGARDA ÀS COSTAS NO MEIO DO MATO
2025-09-16 21:06:26

ANTÓNIO JOSÉ FA “Não me estava a ver a andar com uma ANDA DAÍ MAIS EU FOTOGRAFIAS: JOAQUIM MADEIRA Parece contraditório: para fugir à guerra colonial, alistar-se como voluntário na Força Aérea. Mas foi isso mesmo que António José Farinha Madeira fez e isso deu bons resultados. Embora tenha passado um ano na Beira, em Moçambique, nunca foi para o mato, escapando às agruras e malefícios da guerra directa. E foi às ordens da Força Aérea que esteve toda a sua vida profssional. O curso de electricista que tirou na Escola Industrial de Torres Novas foi o que lhe deu bagagem para a sua profssão. Tancos, Monte Real, Ota e Sintra foram algumas das bases por onde António José andou de volta dos aviões. Para além de ter sabido do 25 de Abril quando estava em Moçambique, quando voltou a Tancos foi apanhado pelos acontecimentos do 11 de Março de 1975, sem saber muito bem o que se estava a passar. Depois da passagem à reserva, António José dedicou-se às voltas de bicicleta com amigos, acabando por ser vítima de um acidente grave. Mais tarde, já recuperado, continuou a andar de bicicleta, garantindo não ter medo do desconhecido, pois as lesões com o acidente não lhe permitem lembrar-se do ocorrido. Agora, aos 73 anos, dedica-se mais às caminhadas e às idas à Irlanda no exercício do seu papel de avô. Mas confessa que quando está muito tempo nesse país tem saudades de estar por cá com os amigos, numa conversa de café. Como é que foste parar à Força Aérea? Fui para a Força Aérea em 1972, ainda não tinha 20 anos, ia fazer 20 anos em Agosto. Então foste como voluntário. Sim, fui como voluntário, porque isto é assim, na minha altura já havia o chamado confito nas províncias ultramarinas e eu não me estava a ver a andar com uma espingarda às costas no meio do mato. A gente só ouvia dizer “morreu este, morreu aquele”, e eu assim, tenho que me safar disto, e pensava naquilo muita vez, tenho que ir para a Força Aérea, pois para mim a Força Aérea era aviões e bases em ci-dades. Não é bem assim, mas a maior parte é. Por isso eu pensava, vou para mecânico de aviões, ou uma coisa qualquer do género, e estou sempre numa cidade, não vou para o mato. Foi isso o que me levou a ir para a Força Aérea. Quer dizer, no fundo era uma forma de fugires à guerra colonial Foi isso, foi. Mas havia outra hipótese de escapar, que era, como foram aí uns tantos colegas, uns mais novos e outros mais velhos, ir para Alverca, para as ofcinas de Alverca [Ofcinas Gerais de Material de Aeronáutica, OGMA]. Faziam só a recruta e voltavam lá para as Ofcinas E não iam à guerra... Pois, não iam, iam só fazer a recruta. Vocês recordam-se de uma Festa da Bênção do Gado que foi ali em frente ao SPAR? Apanhei lá um genro do Fernando Cunha que era da Força Aérea, não me lembro se já era casado ou ainda namorava uma flha do Fernando Cunha, mas disseram-me quem ele era, estava nas OGMA lá na parte militar, e ele controlava lá qualquer coisa. E disseram-me “vai falar com ele, pode ser uma cunha boa para te enfar nas OGMA”. Apanho-o lá, falo com ele e ele diz-me assim “olha, rapazinho, vai para a Força Aérea que é muito bom”. Foi o recado que ele me deu. Acabo o curso de electricista na Escola Industrial em 1971, fui um ano trabalhar para a Fiação e Tecidos, para Torres Novas, e conheci lá um indivíduo que tinha um amigo que estava na Força Aérea, na Ota, e ele também me incentivou a ir, “vai para lá que eu tenho lá um amigo e ele orienta-te”. Portanto, foi tudo isto que me levou a meter os papéis como voluntário para a Força Aérea, e pronto. E quando já estavas lá, como é que foi? ARINHA MADEIRA espingarda às costas no meio do mato” Depois, pensei assim, vou arranjar emprego para me vir embora, mas deixei arrastar, arrastar, e quando vou a olhar para mim estava quase com trinta anos. Depois perguntaram lá quem é que queria ir ao curso de sargentos, e este rapazinho, mais uns quantos, aí vamos nós, e pronto, passei e continuei por lá. Mas não chegaste a ir para Moçambique? Fui um mês antes do 25 de Abril, fui em Março de 1974 para Moçambique, para a Beira, e era lá mecânico de aviões. Era electricista de instrumentos, era como era conhecido lá. A Força Aérea tinha dois tipos de electricistas, tinha três, mas um desapareceu, que era os teletipos, havia os chamados centrais, que eram os electricistas desta electricidade das casas, e isso, e havia os electricistas de avião, que era o meu caso, era toda a electriciade dos aviões, tudo o que era electricidade dos aviões era da minha área Não chegaste a ir para o mato, estiveste sempre na cidade da Beira? Pois, nunca fui ao mato, estive sempre na cidade. A base até era comum com a aeroporto da Beira, a pista era a mesma, a base era ao lado do aeroporto. Eu nunca saí da Beira, estive sempre ali. Fui em Março de 1974, depois dá-se o 25 de Abril e vim-me embora em Março de 1975, portanto só lá estive um ano. E como é que foi sentido lá o 25 de Abril? Qual foi a reacção? A reacção lá foi a alegria de parte daquela gente, mais da nossa parte, militares, porque dizíamos, “pronto acabou-se, vamos embora daqui”, mas ao contrário os que estavam lá radicados, pelo menos alguns, viram-se aflitos com a coisa e abalaram de lá para fora. E quando vieste cá para Portugal foste para onde? Fui aqui para Tancos. Foi num dia muito marcado, foi no dia 11 de Março. Quando lá chego deixam-ma entrar, mas começo a ver que aquilo é fora do comum, tudo o que lá havia, aquelas manobras todas, havia muitos paraquedistas lá por todo o lado, até vejo lá o Spínola, e começam a contar a história do que é que se estava a passar lá com os paraquedistas. Só sei que à conta disso estive dois dias sem vir a casa, aquilo estava tudo de prevenção, apercebi-me que havia muitos helicópteros no ar, havia muitas entradas e saídas de helicópteros, e eu só queria entregar uma guia de marcha e dizer “olhem, vim de Moçambique e estou aqui!”. E fquei lá em Tancos. Estive lá desde 1975 a 1979. O indivíduo que me recebeu a guia de marcha tratou-me um bocado mal, era um capitão que lá estava, não sei lá porquê, daí a um bocado disseram-me “olha, esse capitão, agarraram nele e está preso”, e eu fquei muito contente “ainda bem, trataste-me mal ”. Depois eu pensei, bem, tenho que sair daqui, a ver se arranjo emprego... Entretanto também tinha casado, casei em 1975, fui deixando andar e abriu o curso de sargentos, e pronto, pensava, olha, é outro modo de vida. E depois fui-me deixando fcar ali, sentia-me mais ou menos bem, e o meu contrato na Força Aérea era por seis anos. Também estiveste uns tempos nos Estados Unidos? Sim, acabei o curso de sargentos em 1981 e em Setembro foi quando lá aparece um indivíduo que estava ligado aos aviões A7 e disse-nos “vocês vão todos para Monte Real e para o Estados Unidos tirar o curso de A7”, “eh pá, mas a gente não sabe inglês!”, “não interessa, aprendem uns com os outros”, eu disse “sou oriundo de um curso industrial...”, e os cursos industrias dantes não tinham línguas, só os cursos comerciais é que tinham, e acho que era só francês, inglês não, “eu não sei inglês, o meu inglês é o chamado inglês de praia...”. E fomos todos para os Estados Unidos, para Dallas, estive lá um mês e meio a tirar o curso do A7. E depois vim para cá para Monte Real, pronto. Estive em Monte Real desde fnais de 1981 até ao Verão de 1985, sei isto porque foi quando a minha flha Patrícia nasceu. Depois vim aqui para Tancos, estive aqui em Tancos até Tancos fechar. O que é isso de Tancos fechar? Aquilo está aberto. Tancos passou para o Exército em fnais de 1993, tudo o que era militares da Força Aérea saiu de lá, uns para aqui, outros para acolá. O Exército tomou conta daquilo, porque estava previsto o Exército ter helicópteros, nunca chegou a ter até hoje, aquilo era para eles poderem operar os helicópteros. Depois, também os paraquedistas, que pertenciam à Força Aérea, passaram para o Exército, agora estão lá os aviões para os paraquedistas. Também estiveste em S. Tomé, a fazer o quê? Foi em 1981. Estive lá como mecânico do Aviocar, já o conhecia aqui de Tancos, e fui lá fazer a manutenção. Aquilo tem inspecções periódicas de tanto em tanto tempo, portanto há inspecções que estão planeadas e depois há aquelas avarias inopinadas, acontecem por algum motivo e depois tem de ser reparado, senão o avião não sai dali. Aviocar é o quê? Eh pá, é um avião pequeno de fabrico espanhol! Aquilo era para transporte de mercadorias e quando era preciso também transportava pessoas. Aquilo estava lá porque foi o governo de cá com o governo de lá de S. Tomé que fzeram uma parceria, e a gente ia lá para dar apoio quando fosse preciso. O Aviocar servia para o transporte para a ilha de Príncipe. Íamos lá para dar apoio, era isso. Que parceria era essa? Havia um acordo para que o Aviocar estivesse lá para serviço do governo. Para terem ali um avião à disposição, eles como precisavam dele usavam-no, mas quando eu lá estive ele nunca saiu do país. Foram muita vez à ilha de Príncipe, isso foram. E quando eles iam à ilha do Príncipe nós também íamos, porque o avião podia avariar no Príncipe, e se ele avariasse no Príncipe, como é que era? è è E depois regressaste ao fm de quanto tempo? Nós fazíamos três meses lá, depois regressávamos e iam outros para lá. Aquilo durou bastantes anos, não sei quantos anos o Aviocar lá esteve. Depois aquela parceria acabou e o Aviocar foi para Sintra e eu podia também ter ido para Sintra, porque deram-me a escolher para onde queria ir, mas fquei em Monte Real, porque já conhecia e para mim era mais perto. Quando chego a Monte Real, em 1994, puseram-me na mesma secção. Tinha deixado aquilo em 1985 e volto para lá em 1994, nove anos depois. Qual era o teu posto? Era Primeiro Sargento, depois fui promovido a Sargento Ajudante. Era o mais antigo lá e continuei a ser o chefe da secção. Estive na Ota um ano a tirar o curso de Sargento Chefe, e quando vim para Monte Real puseram-me a chefar a secção de F16, mas pensei que ia ser difícil porque não sabia nada dos F16, mas não era preciso saber nada dos F16 para aquilo que eu ia fazer, eu chefava a secção e o que eles lá fazem é reparar equipamentos de electrónica do F16. E como é que eles reparam? Há bancadas quetêmo sofware ,põemláa bancada, ligam os cabos, põem o sofware atrabalhareaquilo diz o que é que está avariado no equipamento. Portanto eu só tenho que gerir o funcionamento daquilo e o trabalho deles. Começaste por dizer que foste para a Força Aérea para fugir à guerra, e acabaste por conseguir fugir ou não? Sim, escapei a tudo o que era guerra, e escapei porque de certa maneira caí num sítio bom, caí ali numa base, na Beira. Estava lá um indivíduo que dizia assim “então, para onde é que queres ir?”, “para onde é que eu quero ir? Como é que se chama isto aqui?”, “aqui é a Beira BA10”, “então é aqui que eu quero fcar”. E tive sorte, fquei lá, mas havia pessoal que era destacado para qualquer ponto de Moçambique e que ia para outros destacamentos mais pequenos, iam para onde havia helicópteros e tinham que andar a voar com eles, a coisa complicava-se para eles, houve uns poucos de gajos que levaram uns quantos tiros e foram abatidos. A minha especialidade não era andar com os helicópteros ou com os aviões, era fcar em terra e fquei ali, fquei sempre na Beira, fquei lá um ano. Estiveste quantos anos na Força Aérea? Estive lá de 1972 a 2003, no Verão de 2003 fz quase 31 anos. Na altura nós tínhamos que fazer 35 anos, portanto eu fz 31 anos efectivo e depois estávamos cinco anos na reserva, estávamos ao mando deles, de certa maneira, só que não vestíamos a farda, nem íamos à Base, estávamos em casa, e só passado o tempo de reserva é que íamos à reforma, estive até 2008 na chamada reserva, portanto eu passo à reforma em 2008. E desde que estás reformado nunca mais lá foste à Base? De início ia lá, conhecia muita gente que lá fcou, principalmente no Natal, faziam-se jantares de Natal e eu ia lá e juntávamo-nos com aquela gente toda, depois os anos foram passando, aquele pessoal foi saindo e a gente, se chegar lá agora, não conhece ninguém. Agora, de certa maneira, não há nada que me chame lá, nessa altura era o pessoal que conhecíamos e que lá tinha fcado. Eh pá, deixei de lá ir! O curso que fzeste na Escola Industrial foi importante para a tua vida profssional? Foi. Era o curso de formação de montador electricista, quando acabei o curso fui estagiar, para termos o curso completo tínhamos que estagiar um ano, e onde é que eu fui estagiar? Na Fiação e Tecidos. Não era empregado da fábrica, eles só me pagavam, nem faziam descontos, estive lá em 1971 e 1972 e então meti os papéis para a Força Aérea. Isso foi importante para mim porquê? Eu, como era electricista, quando chego à Força Aérea, das especialidades que lá havia, a minha intenção era ir para electricista, porque eu já levava bagagem de trás, portanto eu sabia que ia para um curso para o qual eu me sentia bem. Para se tirar o curso de electricista na Força Aérea íamos para uma escola do Exército em Paço de Arcos, eu estive lá um ano a tirar o curso de electricista. Ora, o curso geral era igual para todos, só quando chegava ao fnal do primeiro ano uns eram os chamados electricistas centrais e os outros eram electricistas de avião, que faziam o segundo ano na Ota, foi o meu caso. Quando acabei o curso perguntaram-me para onde é que eu queria ir e eu disse “eu quero ir para Tancos”, e disse o indivíduo que lá estava “não, não, tu fcas cá na Ota”. Eu fquei lá, mas em Março de 1974 fui mobilizado para Moçambique, E depois quando vim de Moçambique voltei para Tancos. E depois para Monte Real, e andei sempre entre Tancos e Monte Real. Antes de ires para a Escola Industrial, frequentaste a Primária aqui na Raposa? Andei na Escola Primária na Raposa até à terceira classe, mas eu chumbo na terceira classe, é quando apanho o teu irmão [ José Tomé], apanho o Pastel [ João Carlos Santos], o Fernando Cunha, a flha do professor Mineiro. A escola da Raposa entrou em obras e a primeira fase da terceira classe nem foi no Centro Paroquial, foi numa casa que já não existe, ali na rua Nova, ao lado do Diamantino Almeida, era uma casa do Luís da Laura, houve uma temporada que a escola primária foi aí. Estive ali não sei quanto tempo e depois dali passamos para o Centro, eu estive lá na terceira e na quarta classe. Tive vários professores, houve um ano que eu tive alguns três professores e depois apanhei o professor Mineiro na terceira classe, mas até ali eu não me recordo dos professores, eram professores que só cá estavam um ano e depois raspavam-se e iam-se embora. O professor Mineiro é o que me leva até à quarta classe. Depois, quando te reformaste, estiveste ligado ao ciclismo, não foi? Nunca estive ligado ao ciclismo, estive foi ligado ao desporto amador de andar de bicicleta, com uma rapaziada aqui da rua e do Riacho. Já não estava na Força Aérea, enquanto lá estive nunca andei, a primeira vez que peguei na bicicleta para ir dar uma volta foi com o meu irmão [ Joaquim Madeira], já eu estava na reserva, íamos daqui até ao barracão do Duque e voltávamos para trás, depois chegávamos ali ao café, eu bebia um café e o meu irmão bebia uma mini, pronto, estava a volta feita. Eu andava com uma pasteleira, depois houve um ano que a minha mulher ofereceu-me uma bicicleta de estrada, e então aí eu começo-me a dedicar mais ao ciclismo, depois os reformados, que ainda não eram, aqui da minha rua começam a arranjar todos uma bicicleta e começámos todos a dar umas voltas. Comecei-me a entusiasmar e o pessoal, pelo menos três vezes por semana, fazíamos uma média aí de 50 km de cada vez, houve alturas que era mais, era de Verão e de Inverno. Gostavas, claro. Sim, gostava, até porque éramos mais novos. Eu não fz as contas, mas devo ter feito uns bons milhares de quilómetros de bicicleta. Era só por gosto e porque fazia bem ao físico. Depois começámos a ter medo, ouvíamos dizer que éramos empurrados para as valetas pelos carros, e as pernas também já não eram o que foram, e dedicámo-nos às caminhadas, hoje fazemos caminhadas. Disseste que tinham medo, numa dessas voltas de bicicleta chegaste a sofrer um acidente muito grave, não foi? Eu só sei aquilo que me contaram, porque eu não me recordo de nada. Vou daqui com o pessoal, que era o meu vizinho Carlos, o Zé Lita, o Farinha Paula e não sei se era mais alguém, fomos dar uma volta, mas essa nunca a tinha feito, só fz dessa vez, mas não me recordo dela. Fomos direito a Ulme, numa descida e numa curva, e sei porque me levaram lá e eu vi o sítio, nessa curva, não sei porquê, saio a direito e vou bater com a cabeça numa casa que estava lá, pronto, e a partir daí só sei o que me contaram. Chamaram os bombeiros, eu entrei em coma, os bombeiros levaram-me para Santa Maria, estive lá não sei quanto tempo, depois vim aqui para o hospital de Torres Novas, só me recordo de qualquer coisa talvez aí um mês antes da queda, isto foi em Julho e só lá para fns de Agosto ou Setembro é que me recordo de cá andar. E voltaste a andar de bicicleta, ou não? Sim, voltei, porque é assim, as pessoas perguntavam-me se eu não tinha medo, porque eu estive em coma muito tempo, e até se esperava que eu não recuperasse, mas recuperei, eles diziam-me “tu não tens medo de andar de bicicleta depois do que te aconteceu?”, “não tenho medo daquilo que desconheço”... Se me recordasse de tudo, se calhar tinha medo, mas não me recordo de nada, assim não tenho medo. Andaste de bicicleta mais uns anos e depois então é que te dedicaste às caminhadas. Sim, depois o pessoal desistiu, e eu nunca gostei de andar sozinho, se andei duas vezes de bicicleta sozinho foi muito. Não gosto de andar sozinho, se me dá aí uma travadinha num sítio qualquer, ninguém sabe onde é que eu estou, e eu fico para ali. Às tantas desisti também, pendurei a bicicleta e agora ando nas caminhadas. Agora há aí um outro senão no meio disto tudo, o meu Carlos veio cá e trouxe quatro bicicletas, e deixou cá a bicicleta dele que é muito boa, e já dei uma voltinha curta com ela. Aquilo é muito bom Mas tem que se dar aos pedais à mesma. Pois tem, mas aquilo em termos de velocidade é uma maravilha, um gajo sobe tudo, nem que seja montanhas, e agora vou aqui com o meu vizinho Carlos começar a dar umas voltinhas curtas, só aos domingos, à hora a que vamos há menos trânsito e vamos escolher os caminhos por onde vamos. Aquilo não é uma bicicleta de estrada, é uma bicicleta de montanha ou como lhe queiram chamar, vamos pelos pinhais, andamos um bocado mais escondidos, é a fugir do alcatrão. De vez em quando vais à Irlanda. Sim, vou lá com alguma frequência, tenho lá os meus flhos e netos. Vou lá duas ou três vazes por ano, a última vez que lá fui foi agora de 8 a 17 de Agosto, foi o espaço mais curto que lá estive, só uma semana, para dar apoio aos flhos por causa das crianças que não têm onde os pôr. A escola está fechada naquela altura e eles não têm onde os pôr e nós temos de tomar conta deles. Agora estivemos lá só uma semana, mas quando é noutras altura, por exemplo pelo Natal ou pela Páscoa, nós vamos para lá e eles evitam de estar a pagar o ATL. E gostas de lá ir ou nem por isso? Gosto, gosto, porque estou ao pé dos meus, não é? Estou ao pé dos flhos e dos netos, muda-se um bocado de visual, de paisagem E o irlandês é um povo interessante? Sim, olha, eles dizem que o povo português é muito afável, e eu acho que eles também são. Eu lá faço muitas caminhadas, quase sempre sozinho, e noto bem quem são os irlandeses e quem não são, os irlandeses passem por quem passarem dizem sempre good morning, quando passam por alguém sorriem e dizem adeus, agora quando não são de lá, polacos, eslovenos e outros, olham para o chão e nem olham para o lado, é quase como nós às vezes, nota-se que lá é diferente o trato. É um povo de bom trato. E também gostam de um copinho... Também, também, mas já agora que falas nisso, os supermercados lá só vendem bebidas alcoólicas a maiores de 18 anos, e durante a semana a partir das dez horas, mesmo que queiram registar uma garrafa de vinho ou de whiskey, a máquina não regista, e aos domingos e feriados é a partir do meio-dia. Eles têm vedadas as bebidas alcoólicas com aquelas portas de abrir e fechar, parecem portas de taberna, só os maiores de 18 anos é que são permitidos entrar e servirem-se. Mas depois é como cá, os menores pedem a um maior para ir lá buscar... E saudades de cá não tens? Tenho. Olha, é assim, quando vou para a Irlanda gosto de lá estar, mas ao fm de quinze dias começa-me a recordar disto e digo “preciso de ir para Portugal outra vez, já me está a dar saudades”. Aquilo começa a ser muito rotineiro, chove todos os dias se for preciso, faz frio com fartura, e digo “eh pá, já estou farto disto!”. Do que é que tens mais saudades daqui? Eh pá, é das conversas de café! Lá não fazemos vida de café, fazemos mais vida de casa, os meus filhos durante o dia vão trabalhar ou estão a trabalhar em casa e os netos estão na escola, e eu sinto-me ali sozinho, vou para onde? E aquilo repetido ao fim de quinze dias passa a ser muito rotineiro, faz-me falta levantar-me cedo, fazer uma caminhada e ir até ao café e estar lá com a malta. É isso que me faz falta, sinto saudades disso. Depois, ao fim de um tempo de cá estar penso assim, agora se calhar ia lá à Irlanda dar mais uma volta. Mas isto também é bom, estar cá uns tempos e ir lá outros tempos. p. 12 a 15 A minha mulher ofereceu-me uma bicicleta de estrada, e então aí eu começo-me a dedicar mais ao ciclismo. Vou para mecânico de aviões (...) e estou sempre numa cidade, não vou para o mato. Vim aqui para o hospital de Torres Novas, só me recordo de qualquer coisa talvez aí um mês antes da queda. Eles dizem que o povo português é muito afável, e eu acho que eles também são. Juramento de Bandeira na base de Ota Almoço anual dos mancebos de 1952 Estávamos cinco anos na reserva, estávamos ao mando deles (...) só que não vestíamos a farda, nem íamos à Base. Escola Primária em Riachos CARLOS TOMÉ