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OURO TINTO - O VINHO MEDIEVAL DE OURÉM

Notícias de Ourém

2025-09-22 21:06:05

Vindimas arrancam para produção do Medieval Ouro Tinto: O Vinho Medieval de Ourém No mês de setembro, realizam-se as vindimas um pouco por todo o concelho de Ourém. Um dos produtos de excelência ourienses, o vinho medieval, é produzido nesta altura. O Notícias de Ourém conversou com Luís Sousa, membro fundador da Vitiourém e produtor de vinho, que nos demonstrou como fazer da maneira ancestral este vinho ouriense Numa pequena adega em Óbidos, no Olival, vê-se alguma comoção. Neste espaço ainda está montada a estrutura tradicional para se fazer vinho. Luís Sousa, membro fundador da Vitiourém, prepara-se para começar a pisar uva branca, usada para fazer o Vinho Medieval de Ourém. De acordo com Luís, são cada vez menos os pequenos produtores que se dedicam à produção de Vinho Medieval. Este vinho, que aparece nos registos do Mosteiro de Alcobaça, no século XII, é a herança viva do concelho e que se perde pela falta de capacidade financeira dos produtores. Os custos de mão de obra, produção do vinho, e a manutenção da própria vinha são elevados para o pequeno produtor local, que não consegue arcar com tais custos. “É um produto que hoje não tem a expressão que tinha há 50 anos”, explica o produtor. “No meio rural, todas as casas faziam vinho em maior ou menor quantidade”. Luís vê o futuro com esperança que o paradigma mude. Ourém é atualmente uma Bio-Região e o produtor acredita que isso poderá ajudar a fixar mais agricultores e jovens que se queiram dedicar à atividade agrícola. O método do Vinho “A vindima é feita obrigatoriamente manualmente”, começa a explicar Luís Sousa. Para se poder produzir Vinho Medieval de Ourém é necessário ter as vinhas inscritas e certificadas na Comissão Vitivinícola Regional (CVR), como aptas para produção. Posteriormente, são separadas as uvas brancas das tintas, pois têm destinos diferentes. “As brancas vão diretamente para o lagar ou para uma prensa para serem pisadas, esmagadas”, e o mosto destas vai para uma vasilha de madeira, onde decorrerá a fermentação. Este mosto da uva ocupa 80% da capacidade da vasilha. A uva tinta recebe um tratamento diferente. São desengaçadas com uma ciranda manual, ou com um esmagador. A este processo chama-se o desengaço, ou seja, o retirar do engaço, da casca da uva. Depois de separados, “a casca e o molho ficam dentro de uma dorna”, em fermentação. Esta mistura é calcada duas a três vezes por dia, para manter a casca submersa. Este processo normalmente ocorre durante quatro a dez dias, dependendo da maturação das uvas. Após a fermentação de ambos os tipos de uva, procede-se à mistura da tinta, que consiste em juntar ao molho branco a casca fermentada da uva tinta. É comum colocar-se um objeto de barro, para manter a casca submersa no líquido. “Para evitar que ela saia, colocamos esse vaso, a casca não sai e fica só o molho a borbulhar, saindo o gás”, esclarece o produtor. O último processo de fermentação decorre entre um mês a um mês e meio, em que a intervenção humanaéquase inexistente. No final de novembro, normalmente, este vinho está pronto para consumo. Devido à sua constituição de 80% uvas brancas e 20% uvas tintas, fica apto para consumo cedo. “É um vinho que se consome jovem, verde”, conclui o produtor. “Na época medieval não tinham meios, condições, para poder ter um vinho em estágio e estar em seis meses, um ano, dois anos à espera de que o vinho atingisse a maturação”, refere Luís. Devido às condições de vida da altura era natural que fosse um vinho para consumo rápido. “O objetivo era que ele tivesse a apto a ser consumido o mais depressa possível e aguentasse até vir a próxima colheita”. Luta pela legalização do vinho de Ourém No decorrer deste processo de produção do Vinho Medieval, a CVR tem de ser informada a cada passo. Luís explica que basta notificar a organização do que estão a fazer, e uma auditoria irá ao local ver os progressos e regulamentar caso seja necessário. Mas antigamente não era assim. O produtor recorda que após a entrada de Portugal na União Europeia foram impostas várias regulamentações para a produção de vinhos e outras bebidas espirituosas. O Vinho Medieval de Ourém não encaixava nas novas normas. “Estávamos com um vinho ilegal, que tínhamos que deixar de fazer”. Segundo Luís, em conversas com amigos, começaram a perceber que o “nosso vinho é o que se encaixa nas dominações de origem, no espírito da denominação de origem”.com a interdição de produzir o vinho icónico ouriense, herança destes produtores locais, tomaram ação e fundaram a Vitiourém. A Vitiourém, associação fundada entre 2000 e 2001, surgiu para proteger e honrar o legado do Vinho Medieval de Ourém, que corria então o risco de deixar de ser completamente produzido e comercializado. Junto dos órgãos de controlo de produtos alimentares e dos sucessivos governos, fazem o trabalho de facilitar a comunicação entre estes órgãos e os produtores locais. Desafiando as forças políticas locais da altura, conseguiram chegar à denominação de vinho de origem, recuperando o legado e existência deste vinho caricato. “A forma como está protegido neste momento pela denominação de origem irá permitir que ele se vai perpetuar”, garante Luís. Alguns produtores de Vinho Medieval, que o fazem em pequenas quantidades, escolhem fazê-lo numa via clandestina. Muitos não querem lidar com a burocracia, que a ver de Luís Sousa, não é um impeditivo. “O importante é que quem queira fazer, há forma de o fazer”, indica o produtor. O futuro da Bio-Região A colheita da vindima deste ano “foi desafai dor em termos de f-i tossanitário”, declara o produtor. “Houve alguma humidade, alguns ataques de pragas”, sendo que algumas parcelas de vinhas têm boa produção, e outras ao lado com “péssima produção”. Luís Sousa concluí que há menos quantidade, mas uma maior qualidade. Apesar das inovações tecnológicas, “os custos de produção aumentaram”. Um dos fatores que Luís aponta como desafiante é a mão de obra. “Antigamente, auxiliavam-se uns aos outros, todos tinham a sua pequena atividade. Entretanto, hoje isso não acontece, faziam a troca de serviços”, explica o produtor. Este novo paradigma acaba por ter um impacto negativo nos pequenos produtores. “Acredito que estamos numa situação dramática em termos de agricultura no concelho. O abandono que se faz sentir, o desespero que as pessoas sentem, a desmotivação, qualquer coisa de frustrante”, analisa Luís. O produtor não vê o futuro de forma negativa.com a criação da Bio-Região, existe uma oportunidade de “potenciar esta nossa identidade gastronómica, cultural que nós temos, que é típica daqui da nossa região”. Segundo Luís, já aconteceram alguns encontros com a restauração, juntas de freguesia com os produtores agrícolas locais, no sentido de criar laços para a comercialização dos produtos inteiramente ourienses. “Um grande potencial que temos e eles são disponíveis para gastarem estes produtos a preços idênticos aos das grandes superfícies”, refere o produtor. “Acredito que a juventude, de dentro ou de fora, que de alguma forma possa ter algum chamamento”, através da criação destas condições para facilitar a integração do projeto da Bio-Região. “Se quisermos trabalhar aqui e desenvolver o nosso meio, é possível termos um nível de vida muito superior às grandes cidades, porque conseguimos produzir de tudo”, elucida Luís Sousa. Este apela a uma produção agrícola sustentável, seguindo os pilares da ESG, de forma a destacar os produtos ourienses no mercado nacional. O produtor espera que num futuro próximo exista a “a possibilidade de dar momentos distintos a um turista que nos visita, que não consegue ter mais ao lado nenhum do mundo”. “ Todas as famílias tinham uma pequena adega e tinham muito orgulho nisso O que é a etiqueta esg? ESG é a sigla para Environmental, Social and Governance, que se traduz em português para Ambiente, Social e Governação. Esta pequena sigla refere-se aos indicadores ambientais, sociais e de governação corporativa, para medir o grau de compromisso de organizações e empresas relativamente aos objetivos do desenvolvimento sustentável. Estes objetivos estratégicos estão associados à Agenda 2030 e aos ODS-Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, promovidos por Portugal e pela União Europeia. Foram adotados na União Europeia como critérios de avaliação do desempenho das empresas em matérias de sustentabilidade. Normalmente, produtos alimentares, e outros, de empresas que cumpram com estes objetivos encontram-se identificados com uma etiqueta ESG. A sigla presente no rótulo é um indicador de que a empresa usa métodos de produção sustentáveis, sem recursos a exploração humana. “ É um vinho único no mundo EVA GOMES