pressmedia logo

BERTRAND BADRÉ - A PLANETARIZAÇÃO AINDA ESTÁ POR NASCER

Negócios

2025-09-25 06:02:09

PROJECT SYNDICATE O Project Syndicate, 2025 www.project-syndicate.org A globalização morreu, mas a planetarização ainda está por nascer Em novembro de 1985, durante a sua primeira cimeira em Genebra, o Presidente norte-americano Ronald Reagan e O Presidente soviético Mikhail Gorbachevr escapuliram-se dos atos oficiais para conversarem em privado. Só anos mais tarde soubemos do que falaram. Gorbachev contou a0 apresentador Charlie Rose que Reagan lhe tinha feito uma pergunta surpreendente: “o que fariase OS Estados Unidos fossem subitamente atacados por seres vindos do espaço? Ajudar-nos-ia?” Gorbachevrespondeu: “Sem dúvida que sim.” “ Nós também”, disse Reagan. Embora as duas superpotências estivessem na época envolvidas numa corrida ao armamento nuclear e se olhassem fixamente de um lado e de outro da Europa, ainda conseguiam imaginar-se a unirem-se contra uma ameaça existencial comum. Quatro décadas depois, a humanidade encontra-se de novo envolvida numa outra corrida ao armamento. Segundo O Stockholm International Peace Research Institute, os gastos mundiais em defesa atingiram um recorde de 2,7 biliões de dólares em 2024 um aumento (ajustado inflação) de 9,4% face ao ano precedente. Depois de nove anos consecutivos de aumento destas despesas, trata-se de uma subida sem precedentes desde o fim da Guerra Fria, e com poucos sinais de que vai abrandar. Dezenas de países estão a reforçar os seus exércitos e cada vez são mais os governos que se comprometem a aumentar os seus orçamentos para a defesa a longo prazo. Os motivos são muitos, e alguns compreensíveis. Além da guerra da Rússiana Ucrânia, existem tensões crescentes no Leste Asiático e no Médio Oriente, bem como vulnerabilidades no ciberespaço e no espaço. Mas, mais fundamentalmente, esta escalada reflete o colapso da globalização tal como a conhecemos isto é, uma ordem baseada em regras e ancorada no multilateralismo, na abertura comercial e na co0peração internacional. e fácil esquecer até que ponto as coisas eram diferentes há apenas uma década. Em 2015 , o ponto alto da mais recente onda de globalização os líderes mundiais alcançaram três acordos históricos: a Agenda de Ação de Addis Abeba sobre o financiamento do desenvolvimento, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, e O Acordo de Parissobre o clima. O Presidente chinês Xi Jinping e O Presidente norte-americano Barack Obama deram um aperto de mãos em Washington, sinalizando , pelo menos para muitos observadores que uma nova era de globalização sustentável, inclusiva e resiliente estava a chegar. No entanto, o otimismo que daí resultou foi de curta duração. Em poucos anos, as guerras comerciais, as políticas nacionalistas e identitárias, bem como as rivalidades geopolíticas, minaram o anterior consenso. Atualmente, as tarifas, os subsídios, as políticas industriais, as crises de refugiados e a nova corrida ao armamento são testemunhas de um mundo no qual a cooperação perdeu o seu brilho. Como diz o historiador francês, Arnaud Orain, a tese do “fim da história” deu lugar a um mundo novamente concebido como finito , como um bolo para ser dividido em vez de ser auimentado. Segundo esta mentalidade, o que é meu é meu e o que é teu é negociável. Mas as ameaças existenciais que inspiraram a experiência de pensamento de Reagan ainda estão presentes, e são mais prementes do que nunca. As alterações climáticas, o colapso do ecossistema e a ampliação das desigualdades sociais colocam-nos todos em perigo. Estas ameaças estão largamente documentadas, as suas consequências são, já visíveis e as estratégias para as confrontar figuram em inúmeros documentos políticos e relatórios periciais. No entanto, continuam a ser eternamente tratadas como secundárias em relação ao receio imediato de agressão por parte de vizinhos ou rivais. Os historiadores do futuro se a profissão ainda existir vão questionar-se sobre o porquê de, em meados da década de 2020, o Homo sapiens ter consagrado recursos sem precedentes à preparação de confrontos militares entre si, ao mesmo tempo que negligenciava uma ação coletiva contra ameaças planetárias óbvias. os montantes em jogo são assombrosos. Os quase três biliões de dólares consagrados anualmente à defesa poderiam cobrir uma significativa parte dos investimentos necessários para a descarbonização das nossas economias, a adaptação às alterações climáticas e a preservação da biodiversidade. Em vez de estendermos a lógica cooperativa da globalização à sobrevivência planetária, estamos a redesenhá-la com muros, tarifas e armas aquilo a que poderemos chamar “globalização com arame farpado”. A humanidade continuará interdependente, mas as relações serão geridas não com instituições comuns, mas através de esferas de influência. Enquanto isso, o planeta vai distanciar-se da consciência política. Tal como Sófocles advertiu, “o mal pode por vezes parecer bom àquele cuja mente os deuses levam à perdição”. e insensato ficar-se obcecado come o poder geopolítico relativo enquanto se ignora a realidade absoluta dos limites planetários. Para haver esperança, devemos inventar algo novo: não a globalização, mas sim a planetarização , o reconhecimento de que preservar o nosso mundo frágil é a condição prévia para tudo o resto. As próximas reuniões, como a Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP30) em Belém, no Brasil, constituem oportunidades para promover esta visão, mesmo depois das dececionantes negociações deste ano para combater os plásticos nos oceanos, mas a janela está a fechar-se. Alguns dirão que o quadro não é assim tão sombrio, porque ahumanidade está a viver um ex-traordinário período de inovação científica e tecnológica. Atendendo aos progressos na inteligência artificial, biotecnologia, energias renováveis e materiais de ponta, porque não confiar no engenho humano para nos fazer sair desta situação? O contra-argumento dá que pensar. Há um século, as descobertas revolucionárias no mundo da fisica, da química e da medicina também prometiam um futuorisonho, que desembocaria naquilo a que os franceses chamaram "30 gloriosos anos” após a Segunda Guerra Mundial. Contudo, antes de lá chegar, o mundo teve de passar por uma depressão devastadora, pelo fascismo e por uma guerra mundial sustentada por essas novas tecnologias. O Projeto Manhattan produziu armas nucleares antes de a energia contida no átomo ser utilizada para fins civis; a ciência que nos deu o fertilizante moderno também criou armas químicas. Atualmente, a inteligência artificial e outros avanços também podem transformar a sociedade, mas se a História nos serve de guia, as aplicações militares vão superar as utilizações civis. Como sempre, devemos “seguir o rasto do dinheiro”: os orçamentos da defesa eclipsam os investimentos destinados à ação climática. O perigo não é que a tecnologia fracasse, mas que seja aproveitada primeiro para o conflito, não para a sobrevivência coletiva. Ao contrário de outros pontos de viragem históricos, este não nos dá uma segunda oportunidade. Os recursos são finitos, o orçamento de carbono está a diminuir rapidamente e os limites do nosso planeta estão a ser postos à prova. A escolha é clara: reorganizar a globalização num conjunto militarizado de blocos políticos, em que os recursos são consumidos por guerras comerciais, guerras culturais e guerras reais, oul privilegiar a “planetarização” e começar a aplicar estratégias que nos permitam sobreviver com dignidade. Tradução: Carla Pedro OPINIâO 27 Foi diretor-geral de finanças do Banco Mundial, é presidente do Conselho Consultivo do Project Syndicate, CEO e fundador da Blue like an Orange Sustainable Capital, e autor de Can Finance Save the World? (Berrett-Koehler, 2018) Em vez de estendermos a lógica cooperativa da globalização à sobrevivéncia planetária, estamos a redesenhá-la com muros, tarifas e armas aquilo a que poderemos chamar “globalização com arame farpado”. BERTRAND BADRÉ