A FRAGILIDADE INVISÍVEL DAS CIDADES INTELIGENTES
2025-09-25 13:12:04

Com a proliferação de sensores e dispositivos ligados à rede, as cidades inteligentes estão a crescer - mas também a abrir novas portas para ciberameaças que colocam em risco serviços públicos essenciais. A generalização das cidades inteligentes tem vindo a acelerar, impulsionada pela conetividade crescente e pela expansão do número de dispositivos ligados à rede. Segundo um estudo recente das Nações Unidas, 69% dos municípios a nível global já possuem uma estratégia formal de adoção de tecnologias inteligentes, seja por iniciativa própria, em colaboração com outros níveis de governo, ou através de parcerias com entidades privadas. Este avanço, porém, tem um custo: o aumento exponencial da superfície de ataque potencial para cibercriminosos. Estima-se que em 2024 tenham sido instalados cerca de 83 mil sensores em ambiente urbano, muitos deles sem garantias mínimas de segurança digital. Estes dispositivos, que controlam desde semáforos a sistemas de rega, representam pontos de entrada potenciais para intrusões com consequências reais e imediatas. Vários incidentes nos últimos anos ilustram os riscos concretos desta realidade. Em 2017, o sistema de alarme de tornados de Dallas foi alvo de um ataque informático que fez soar todos os alarmes em simultâneo. No mesmo ano, 70% do sistema de videovigilância de Washington D.C. foi bloqueado por ransomware pouco antes da tomada de posse de Donald Trump. Em 2021, um ataque a uma central de tratamento de água na Florida conseguiu alterar a concentração de componentes químicos na rede de abastecimento. E em 2023, o sistema de gestão de transportes da cidade polaca de Olsztyn, uma das mais avançadas na adoção de tecnologias inteligentes, foi comprometido, provocando congestionamentos e impedindo a aquisição de bilhetes para os transportes públicos. Com o crescimento da rede de dispositivos - que inclui sensores ambientais, sistemas de irrigação, gestão de resíduos, e até controlo de gás e eletricidade em edifícios públicos - aumenta também a complexidade da proteção digital necessária. Um ecossistema interligado e vulnerável Segundo Enrique Domínguez, responsável pela área de Cibersegurança Ciberfísica da Accenture em Portugal e Espanha, a hiperconetividade dos sistemas críticos urbanos traz consigo um nível de complexidade sem precedentes. Esta complexidade é agravada pela multiplicidade de entidades envolvidas na operação destes sistemas, tornando difícil a gestão centralizada dos riscos. Uma falha num único dispositivo pode desencadear efeitos em cadeia com impacto transversal em toda a cidade. A coexistência de diferentes gerações de equipamento, muitas vezes já obsoletos ou em fim de vida, dificulta ainda mais a criação de barreiras de proteção eficazes. Há um alerta de vários especialistas que deve ser tido em conta: o facto de muitos destes sensores poderem abrir portas às redes corporativas dos municípios. Enquanto os dispositivos mais recentes já saem de fábrica com medidas de proteção integradas, a maioria das redes urbanas ainda depende de equipamentos legados que são altamente vulneráveis. Mesmo ações aparentemente inofensivas podem ter efeitos inesperados. Em 2020, um artista conseguiu manipular o Google Maps transportando 99 smartphones ligados num carrinho de mão, fazendo o sistema detetar um congestionamento de tráfego inexistente. Este exemplo, embora inócuo, ilustra bem como dados manipulados podem gerar decisões automatizadas com impacto real. A segurança total é inatingível, mas o objetivo passa por dificultar ao máximo o acesso a cada ponto do sistema. Com informação Computerworld 25 Setembro 2025 08:3025 Setembro 2025 08:30 SAPO