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GESTOR DO NOVO BANCO AFASTADO APÓS NEGÓCIO IMOBILIÁRIO SUSPEITO DE CONFLITO DE INTERESSES

Público Online

2025-09-25 21:06:18

Franceses do BCPE mandam parar todos os negócios imobiliários. Administrador financeiro pediu um Mercedes acima do valor autorizado. O ex-presidente da GNB Volkert Reig Schmidt deixou o Grupo Novo Banco (GNB) no passado dia 31 de Agosto, por pressões da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), após ter sido noticiado um negócio promovido pela gestora de activos de 1,5 milhões, mas que podia ter sido de mais de 10 milhões, e que decorreu num alegado quadro de conflito de interesses. Em causa está uma propriedade na zona da praia do Meco, com uma capacidade construtiva de 50 mil metros quadrados, vendida em 2022, e cuja última compradora foi Ana Flor Argos, com quem Volkert Schmidt é casado. O braço-de-ferro entre o Grupo Novo Banco e a CMVM, com epicentro na GNB Gestão de Activos, desencadeia-se com a notícia do PÚBLICO, de 31 de Março, sobre a venda, em 2022, pela GNB, da Herdade da Ferraria, 260 hectares que desembocam na praia do Meco, em Sesimbra, adquiridos por 1,5 milhões de euros como rústicos e devolutos. Mas foi omitida do caderno de encargos a existência de um estudo a sinalizar uma capacidade de edificação de 50 mil metros quadrados, cinco mil para habitação própria. Só este facto teria levado o preço de venda para mais de 10 milhões de euros. A propriedade foi adquirida em 2022, por 1,5 milhões, por três investidores do círculo pessoal do casal espanhol, Alexandre Tilmant, Alvaro Fernández Alonso e Vasco Pereira Coutinho, que, dali a dois anos, em 2024, a transferem para a posse de Ana Flor Argos, casada com o presidente da gestora de activos do Novo Banco. Interpelado pelo PÚBLICO, em Março deste ano, sobre um potencial conflito de interesses relacionado com a venda da Herdade da Ferraria, o presidente executivo (CEO) do Novo Banco, Mark Bourke, sustentou: “Após conduzir uma análise interna” à intervenção de Volkert Schmidt, não foi “encontrada qualquer evidência de inobservância das regras ou procedimentos aplicáveis.” Num primeiro momento, os factos também não mereceram a atenção da CMVM, que na altura ignorou o pedido de esclarecimentos enviado pelo PÚBLICO. Diante da pressão mediática, o supervisor do mercado (que fiscaliza a GNB) passou à ofensiva, enviando um conjunto de questões a Volkert Schmidt. Com mais dúvidas do que certezas, o Departamento de Supervisão Prudencial e Autorizações da CMVM chamou o responsável da GNB. A reunião presencial com as duas responsáveis do Departamento de Supervisão Prudencial e Autorizações, Carla da Mãe e Sandra Lage, foi considerada “muito tensa”, com o gestor espanhol a defender, grosso modo, que a transacção da Herdade da Ferraria não implicou dolo e que a compra por parte de Ana Flor Argos foi legítima. É sabido que os supervisores evitam grandes confrontos, e a CMVM não declarou guerra ao Novo Banco, mas exigiu mudanças na GNB, apurou o PÚBLICO. Volkert Schmidt teria de sair, a bem ou a mal, mas se o fizesse pelo seu próprio pé, a CMVM faria concessões, não o sancionaria (no limite, poderia aplicar coimas e até retirar-lhe a idoneidade). Nem aplicaria outras penalizações à GNB. Com uma condição: exigiu à gestora melhorias nos futuros processos de venda de activos. Por fim, a 31 de Agosto, Volkert Schmidt saiu da GNB, contra a sua vontade. Tinham, entretanto, passado sete anos desde que assumiu a presidência da GNB, a gestora do Novo Banco encarregada de gerir quatro mil milhões de euros de activos imobiliários: 32 fundos de investimento, com activos entre os três e os 200 milhões, imóveis de exploração (agências bancárias e sedes), assim como os que o Novo Banco recebeu em dação em pagamento. Além dos fundos de pensões do grupo Novo Banco. Uma nota a reter: Volkert Schmidt é quadro do Lone Star e sempre exerceu as suas funções executivas no Grupo Novo Banco em acumulação com o lugar de director-geral da Hudson Advisers, a sociedade espanhola que pertence ao Lone Star, a mesma que avaliou os activos do Novo Banco, antes da entrada dos norte-americanos. Uma situação que, aparentemente, foi aceite pelo Banco de Portugal e pela CMVM. Do mesmo modo, o Fundo de Resolução, o veículo público que ficou com 25% do Novo Banco, e que geriu o mecanismo de capital contingente de 3,8 mil milhões, usado quase na totalidade pelo Lone Star, não viu ali um potencial conflito de interesses. Ao PÚBLICO, fonte oficial do Novo Banco confirma "que Volkert Reig Schmidt apresentou a sua renúncia ao cargo de membro do Conselho de Administração da GNB Gestão de Activos, num momento em que a actividade de real estate da GNB GA assume carácter residual", acrescentando que Schmidt "regressou às suas funções na Hudson Advisors". Agora, na GNB, a actividade está em suspenso, depois de os franceses do BPCE (Banque Populaire Caisse dEpargne), que têm uma oferta de compra do Novo Banco em cima da mesa, de 6,5 mil milhões de euros, terem ordenado a paragem de todas as vendas de activos. O fecho da compra do Novo Banco, pelo BPCE, anunciado para o início de 2026, encontra-se dependente da auditoria que os franceses estão a desenvolver, e cuja conclusão pode levar a ajustes no preço, caso se encontrem factos materiais relevantes que tenham impacto no que foi negociado. Um Mercedes de sonho Tal como a transacção da Herdade da Ferraria, há outros episódios que demonstram uma prática e padrão de actuação em vigor nos corredores do grupo. Um deles é caricato e prende-se com a atribuição do automóvel de serviço topo de gama ao actual administrador financeiro (CFO) do Novo Banco, Benjamin Dickgieser, que é desconhecido da grande maioria dos quadros da instituição, em contraste com o seu Mercedes-Benz EQS preto, que estaciona na garagem do edifício-sede no Tagus Park, em Oeiras, o mesmo onde se instalou em 2024 o conselho de administração do banco, bem como o da GNB. Hoje, é mais ou menos aceite que Benjamin Dickgieser, de 41 anos, tem sido instrumental na estratégia seguida pelos norte-americanos. Com 34 anos, o Lone Star nomeou-o para o Conselho Geral e de Supervisão, mas, contrariamente a outros membros, o seu nome nunca constou da folha de pagamentos do Novo Banco, pois a compensação monetária era-lhe paga pelo fundo de capital de risco. E também nunca teve direito a um carro de serviço, tal como os restantes gestores não executivos. A situação muda em 2024, quando se torna o número um do Lone Star no Novo Banco, com a função de CFO e um vencimento anual de meio milhão de euros. E passa a poder ter, como todos os executivos, um automóvel para seu uso pessoal. Um benefício que se estende aos restantes executivos, a directores de alto escalão, outros com cargos superiores e alguns comerciais. Os valores das viaturas são escalonados de acordo com a função que cada um desempenha. No caso dos membros do Conselho de Administração Executivo, a gestão definiu um plafond com limite máximo de 110 mil euros. E agora entra o secretismo, como conta ao PÚBLICO uma fonte do Novo Banco, que sublinha que, assim que os documentos transpiram para fora, a história começa a ser contada. E a linha do tempo inicia-se quando Benjamin Dickgieser assume a pasta de CFO, uma promoção face ao cargo anterior pelas responsabilidades inerentes à função, entre as quais estabelecer os orçamentos anuais, controlar os custos e definir a parcela destinada à atribuição dos bónus e das promoções. Àquela altura, é-lhe pedido que escolha o modelo que quer conduzir, dentro da fasquia de 110 mil euros. Então, o CFO dá a conhecer ao departamento de recursos humanos, o que gere a frota de mil viaturas do Novo Banco, qual é o carro dos seus sonhos: um Mercedes-Benz EQS, 100% eléctrico, de cor preta, e preço a rondar os 170 mil euros. A informação, quando chega ao departamento financeiro e de contabilidade que vai pagar a factura (em regime de renting), surpreende, pois o preço excede em 60 mil euros o limite máximo autorizado, de 110 mil euros. Por curiosidade: o actual presidente executivo (CEO) do Novo Banco tem um BMW M4, enquanto António Ramalho, quando saiu, em 2022, usava um Mercedes Classe E. Informação importante: em 2014, muitos colaboradores do Novo Banco passaram pelos pingos da chuva no colapso da dinastia Espírito Santo, enquanto outros conhecem tudo o que ali aconteceu, e todos sabem que é melhor ter cautela quando se trata de quebrar regras. A partir dali, há uma troca viva de impressões. Um quadro mais diligente do departamento financeiro e de contabilidade do banco recorda ao CFO que não podia dar luz verde ao Mercedes-Benz EQS, cujo valor excedia largamente o permitido. Então, é sugerido que seja o gestor alemão a pagar do seu bolso o diferencial, em torno dos 60 mil euros. Mas, prontamente, o CFO recusa. Nada do que o responsável da contabilidade diz a Benjamin Dickgieser parece diminuir a vontade que tem de circular num Mercedes-Benz EQS. Por fim, chegam a um entendimento: ao ordenado mensal de cerca de 41 mil euros, será retirada uma pequena quantia: 500 euros. Sobre este tema, fonte oficial do Novo Banco limitou-se a dizer que "os benefícios de cada administrador são aprovados pela Comissão de Remunerações , sob supervisão do Conselho Geral e de Supervisão , em conformidade com a legislação aplicável e as melhores práticas". No Grupo Novo Banco, há os que brincam com parcimónia sobre a solução encontrada para satisfazer Benjamin Dickgieser: é que, em 2024, recebeu meio milhão, a que ainda se soma bónus. Já para não falar do prémio de 80 milhões que pode vir a receber do Lone Star em 2026, após concluída a venda do Novo Banco ao grupo francês BPCE, por 6,4 mil milhões de euros. Notícia corrigida: ao contrário do que se escrevia inicialmente, João Neto já não tinha o pelouro da frota automóvel no departamento de recursos humanos do Novo Banco à altura dos factos descritos no texto. Pelo lapso, o PÚBLICO pede desculpas aos leitores e aos visados. tp.ocilbup@arierrefc Cristina Ferreira