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CULTURAS - DESENHAR NO ESPAÇO

Expresso

2025-09-26 06:00:09

Estas obras de Miguel Ângelo Rocha partem de um desenho que não necessita de papel e que, mesmo que a parede o ampare, vivem livres Ouando o suporte é o próprio espaço, tudo se torna diferente. O suporte não é uma parede, nem uma tela, nem uma folha de papel: é o próprio espaço e está por toda a parte. ê O que acontece nesta como noutras exposições, sobretudo naquelas em que nem as paredes resistiam à expansão invasora da obra que as atravessava (Hospital Júlio de Matos, 2005 e 2007, CAM 2015). Agora o suporte é o espaço normal da galeria , o chão e sobretudo as paredes servem de suporte, sem agressões a notar. Mas suporte de quê? Antes de tentar responder, vale a pena lembrar o percurso académico de Miguel angelo Rocha (1964). Licenciado em Pintura 1992 (Faculdade de Belas Artes Lisboa), Mestre em Artes Plásticas 1996 (Visual Arts Nova Iorque), doutor em Pintura 2014 (Faculdade de Belas Artes de Lisboa), além da marcada acentuação na pintura, mas que pintura? Não certamente aquela à qual ilusoriamente atribuímos apenas duas dimensões, O que nunca correspondeu à sua realidade física, mas à nossa comodidade classificatória. Nesta exposição, o artista tem pelo menos três obras que nos avisam disso mesmo: duas, as mais pequenas e discretas de toda a exposição, no corredor de entrada, e a terceira, de longe a maior em toda a mostra, dominando completamente uma das paredes de topo de galeria. Colocadas mesmo à entrada, ou à saída para OS distraídos, entre OS quais me incluo, pois nem reparei nelas ao entrar, estão: . “Chama", um desenho em “acrílico sobre pano cru” com 39x33 cm de 2020, um exercício caligráfico de linhas em liberdade. . “Post Scriptum”, 44x13 cm, de 2025, um título que favorece a leitura da peça no momento da saída como uma memória de alguma matéria utilizada em muitas das obras na exposição: esferas de madeira, corda de nylon e, fundamental na sua suave sensualidade, cera de abelha. Nestas duas peças está muito do que vamos ou do que acabámos de ver, as linhas no espaço, as cordas suspensas e OS núcleos de esferas. . “Envelope”, madeira, cartão, cera de abelha, acrílico, cabo de aço, esferas de poliestireno, tecido de poliéster, tinta acrílica, 240x875x100 cm, de 2025, um grande tríptico com madeira e cartão ao centro, esferas cobertas de cera dos lados, um conjunto dominado pela tela (o poliéster) de suporte, rematado por dois bicos tal e qual como num envelope de correio, como se a peça se pudesse fechar sobre si mesma, envolvendo tudo dentro dela. A superfície da tela está por todo O lado, coisa, presença, volume, numa tridimensionalidade exuberante. Uma série de pequenas obras de câmara, “Litanias”, realizadas fora do ateliê, pequena esculturas de parede, antecedem a sala principal dominada por outra série de grandes formatos, “Estações”, que se inicia no topo em frente do “Envelope”, “STOP", a primeira das estações num espaço que parece evocar um interior com o desenho de um fogão de sala com uma longa peça parietal superior e a linhas do crepitar do fogo junto ao chão; seguem-se “Ancora, Cintura, Tango/ Traça” e finalmente Abre-me”, a grande caligrafia parietal que dá título à exposição e que é a obra que se vê assim que entramos no espaço da galeria. Aliás, as caligrafias estão sugeridas um pouco por toda a parte, enquanto o volume do corpo humano surge inesperadamente em “Acatone”. um título de evocação pasoliniano com troncos humanos encerrados em camisas, numa grande composição. “vox” é a única peça independente da parede, erguendo-se do chão a partir de uma linha de cordas, escultura? Pintura ou desenho que fugiu da parede? Ela é sobretudo um convite para a vermos com o corpo todo, circulando-a. De há muito tempo, pelo menos que desde os anos de 1960, que a pintura e o desenho emigraram para fora de si próprios, invadindo espaços que não eram os seus. Estas obras, entre a evocação do suporte tela no “Envelope” e na autonomia de uma linha coisa, partem sempre de um desenho que não necessita de papel e que, mesmo que a parede o ampare, vive deliberadamente solto, livre ou, pelo menos, com uma ilusão e vontade de liberdade que o solta aos nossos olhos, de uma matéria que vibra nas linhas que traça e se aquieta na cera de abelha que tocamos, sentimos e palpamos com o olhar, antes de se tornar a perder, fechando-se e abrindo-se num contínuo turbilhão que contagia, altera o espaço ou, como disse o Almada no rondel do Alentejo, endoidece como O S”. e@epresso. Impreec A A peça que dá título àexposição, “Abre-me" E ainda... 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